Raffaello Sanzio, conhecido em português
como Rafael, nasceu em Urbino, então capital do ducado do mesmo nome, na Itália, em 6 de
abril de 1483. Seu pai, Giovanni Santi, era pintor de poucos méritos mas homem culto e
bem relacionado na corte do duque Federico de Montefeltro. Transmitiu ao filho, de precoce
talento, o amor pela pintura e as primeiras lições do ofício. O duque, personificação
do ideal renascentista do príncipe culto, encorajara todas as formas artísticas e
transformara Urbino em centro cultural, a que foram atraídos homens como Donato Bramante,
Piero della Francesca e Leone Battista Alberti.
Após a morte do pai, em 1494, Rafael foi para Perugia, onde aprendeu
com Pietro Perugino a técnica do afresco ou pintura mural. Em sua primeira obra de
realce, "O casamento da Virgem" (1504), a influência de Perugino evidencia-se
na perspectiva e na relação proporcional entre as figuras, de um doce lirismo, e a
arquitetura. A disposição das figuras é, no entanto, mais informal e animada que a do
mestre.
Florença. No outono de 1504, Rafael foi a Florença, atraído pelos
trabalhos que estavam sendo realizados, no Palazzo della Signoria, por Leonardo da Vinci e
Michelangelo. Sob a influência sobretudo da obra de Da Vinci, absorveu a estética
renascentista e executou diversas madonas, entre as quais a "Madona Esterházy"
e "A bela jardineira". Fez uso das grandes inovações introduzidas na pintura
por Da Vinci a partir de 1480: o claro-escuro, contraste de luz e sombra que empregou com
moderação, e o esfumado, sombreado levemente esbatido, ao invés de traços, para
delinear as formas. A influência de Michelangelo, patente na "Pietà" e na
"Madona do baldaquino", consistiu sobretudo na exploração das possibilidades
expressivas da anatomia humana.
Roma. Por sugestão de Bramante, seu amigo e arquiteto do Vaticano,
Rafael foi chamado a Roma pelo papa Júlio II em 1508. Nos 12 anos em que permaneceu nessa
cidade incumbiu-se de numerosos projetos de envergadura, nos quais deu mostras de uma
imaginação variada e fértil. Dos afrescos do Vaticano, os mais importantes são a
"Disputa" (ou "Discussão do Santíssimo Sacramento") e a "Escola
de Atenas", ambos pintados na Stanza della Segnatura. O primeiro, que mostra uma
visão celestial de Deus, seus profetas e apóstolos a encimar um conjunto de
representantes da igreja, equipara a vitória do catolicismo à afirmação da verdade.
Já a "Escola de Atenas" é uma alegoria complexa do conhecimento filosófico
profano. Mostra um grupo de filósofos de várias épocas históricas ao redor de
Aristóteles e Platão, ilustrando a continuidade histórica do pensamento platônico.
Após a morte de Júlio II, em 1513, a decoração dos aposentos
pontifícios prosseguiu sob o novo papa, Leão X, até 1517. Apesar da grandiosidade do
empreendimento, cujas últimas partes foram deixadas principalmente por conta de seus
discípulos, Rafael, que então se tornara o pintor da moda, assumiu ao mesmo tempo
numerosas outras tarefas: criou retratos, altares, cartões para tapeçarias, cenários
teatrais e projetos arquitetônicos de construções profanas e igrejas como a de
Sant'Eligio degli Orefici. Tamanho era seu prestígio que, segundo o biógrafo Giorgio
Vasari, Leão X chegou a pensar em fazê-lo cardeal.
Em 1514, com a morte de Bramante, Rafael foi nomeado para suceder-lhe
como arquiteto do Vaticano e assumiu as obras em curso na basílica de São Pedro, onde
substituiu a planta em cruz grega, ou radial, por outra mais simples, em cruz latina, ou
longitudinal. Sucedeu também a Bramante na decoração das loggias (galerias) do
Vaticano, aí realizando composições de lírica simplicidade que pareciam
contrabalançar a aterradora grandeza da capela Sistina pintada por Michelangelo.
Competente pesquisador interessado na antiguidade clássica, Rafael foi
designado, em 1515, para supervisionar a preservação de preciosas inscrições latinas
em mármore. Dois anos depois, foi nomeado encarregado geral de todas as antiguidades
romanas, para o que executou um mapa arqueológico da cidade. Sua última obra, a
"Transfiguração", encomendada em 1517, desvia-se da serenidade típica de seu
estilo para prefigurar coordenadas de um novo mundo turbulento -- o da expressão barroca.
Em conseqüência da profundidade filosófica de muitos de seus
trabalhos, a reputação de humanista e pensador neoplatônico de Rafael implantou-se em
Roma. Entre seus amigos havia respeitados homens de letras, como Castiglione e Pietro
Aretino, além de muitos artistas. Em 1519 ele projetou os cenários para a comédia I
suppositi, de Ludovico Ariosto. Coberto de honrarias, Rafael morreu em Roma em 6 de abril
de 1520.