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A monumental obra de Picasso -- que
inclui desenho, pintura, gravura, escultura, colagem e cerâmica -- permanece tão viva
quanto sua lenda. Durante quase oitenta de seus 91 anos de vida, Picasso dedicou-se a um
trabalho que se confunde com a evolução da arte moderna e marcou a produção artística
do Século 20.
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Pablo Ruiz y
Picasso nasceu em Málaga em 25 de outubro de 1881. Iniciou-se nas artes plásticas com o
pai, José Ruiz Blasco, professor de desenho. Em 1895 estudou na Escola de Belas-Artes de
Barcelona e logo em seguida foi admitido na Real Academia de Belas-Artes de San Fernando,
em Madri.
Entre 1900 e 1904 dividiu o tempo entre
Barcelona, Madri e Paris, onde acabou por se instalar no célebre ateliê conhecido como
Bateau Lavoir, em que também trabalharam Juan Gris, Van Dongen e outros.
Entre 1905 e 1910, já desfrutava de
prestígio em Paris, graças ao reconhecimento do poeta Guillaume Apollinaire, do marchand
Henry Kahnweiler e da escritora americana Gertrude Stein, a quem retratou.
Nos anos mais importantes do cubismo, de 1908
a 1914, fez amizade e colaborou estreitamente com Georges Braque.
Com o amigo Jean Cocteau, viajou em 1917 para
a Itália, onde fez os cenários e figurinos do balé Parade, com música de Erik Satie e
coreografia de Serguei Diaghilev.
Nas três primeiras décadas do século, seu
talento expressou-se em quase todos os campos da arte e em numerosas fases de tendência
ou estilo, cuja evolução se mostrou na grande retrospectiva apresentada em Paris em
1932.
Durante a guerra civil espanhola, apoiou a
causa republicana e em 1937 pintou "Guernica", uma de suas obras-primas.
Na segunda guerra mundial, presenciou a
ocupação alemã retirado no trabalho de seu ateliê em Paris.
Após a liberação, aderiu em 1944 ao partido
comunista e criou o símbolo internacional da paz. Em 1945 uma grande exposição reuniu
suas obras em Londres, ao lado das de Matisse. Na época, Picasso já era o artista mais
prestigiado do mundo e de maior influência entre seus contemporâneos.
Em 1958 pintou o grande painel mural para a
sede da UNESCO, em Paris. A partir de 1959 viveu em Cannes e em Aix-en-Provence com sua
quinta mulher, Jacqueline Roque, com quem se casou em 1961.
Antes disso se casara, em 1918, com Olga
Kokhlova (com quem teve um filho, Paulo), em 1931 com Marie-Thérèse
Walter (com quem teve uma filha, Maya), em 1936 com Dora Maar e
em 1943 com Françoise Gilot (com quem teve dois filhos, Claude e
Paloma).
Evolução da obra
A obra de Picasso se caracteriza precisamente
pelo intenso dinamismo das mudanças de estilo e da busca incessante de novas formas e
soluções. São traços comuns, no entanto, de todas as fases e experiências o domínio
pleno -- ou virtuosístico -- de todas as técnicas e materiais; o humor sarcástico,
voltado sempre para a deformação e a caricatura; e o próprio gosto de transformar as
coisas, como a si mesmo.
Picasso é antes de tudo o gênio das
metamorfoses, virtuose e comediante permeável às inquietações do momento, sem romper
nunca a espinha dorsal de seu individualismo.
O trabalho de Picasso compreende quase todos
os campos das artes plásticas, mas foi principalmente a pintura que o tornou célebre.
Sua obra inicial, produzida entre 1894 e 1899, é realista. Com as
primeiras visitas do pintor a Paris, assimila influências de Toulouse-Lautrec e outros.
Sucedem-se, de 1900 a 1906, os períodos
conhecidos como "fase azul" e "fase rosa", com várias obras-primas de
tendência maneirista e preocupações sociais. São, no primeiro caso,
personagens da burguesia ou do submundo e, no segundo, artistas de circo como em
"Família de saltimbancos", de 1905.
Em 1907 "Les Demoiselles d'Avignon"
inicia um novo caminho em que já se esboça o cubismo, enquanto,
paralelamente, a escultura africana influencia a contínua pesquisa das deformações
expressivas.
Entre 1910 e 1912, as representações do "cubismo
analítico" atingem o máximo da abstração picassiana. Suas colagens, em
1913, incorporam materiais até então estranhos ao quadro, como em "Violino,
garrafa, copo", e aos poucos surge o "cubismo sintético",
policromático.
A experimentação cubista desenvolve-se até
o final da década de 1920, mas já estilizada, como em "Três máscaras de
músico", de 1921, ou em "Compoteira e violão", de 1924.
Em seguida Picasso realiza uma pintura semi-abstrata,
como em "O pintor e seu modelo", de 1927. A partir de 1930, após um cubismo já
quase decorativo e um estágio neoclassicista, seus quadros apresentam
formas de ritmo forte, às vezes espasmódico, que prenuncia a explosão dramática de
1937 com "Guernica" (surrealismo), grande composição em preto
e branco com imagens convulsas e estilhaçadas que denunciam o bombardeio da cidade
espanhola de Guernica pela força aérea alemã.
As fases seguintes são de tendências
diversas, que incluem reiterações do cubismo, distorções figurativas entre o cubismo e
o expressionismo como em "Mulher sentada", de 1942 e, em tudo,
um vigoroso repúdio à guerra e à violência, como na tela "O ossuário", de
1944-1948, ou nos murais para a capela de Vallauris, "Guerra" e "Paz",
de 1952.
Outras artes
Ainda que mais celebrado como pintor, Picasso
realizou imensa obra como desenhista, escultor, gravador e ceramista.
Seu desenho e gravura não
ficam longe da criação pictórica. Há os desenhos inteiramente acabados ou de puro
esquematismo.
Na série "O touro", entre 1945 e
1946, disseca a imagem realista do animal até seu esqueleto estritamente linear, e nos
bicos-de-pena sobre Dom Quixote encontra a essencialidade da sugestão e do movimento. A
liberdade de imaginação e de humor -- ora malicioso, ora grotesco -- explora desde a
mitologia clássica a pequenos flagrantes do cotidiano.
A consciência política também tem seu lugar
nessa arte meticulosa que, depois da genial "Minotauromachie" (1935), articulou
a série "Sonho e mentira de Franco", de 1937.
A partir de então, registraram-se constantes
convites à ilustração de livros, aos quais o mestre acedeu com a mesma
agudeza e vitalidade, como nas águas-fortes para novas edições de Le Chef-d'oeuvre
inconnu (A obra-prima desconhecida) de Balzac, em 1927, das Metamorfoses de Ovídio, em
1930, e da Histoire naturelle, générale et particulière (História natural, geral e
particular), de Buffon, em 1942.
Na escultura picassiana, são
determinantes as influências da arte primitiva -- africana e pré-colombiana -- e do
estilo clássico. As soluções são às vezes de cunho construtivista e às vezes de um
envolvente expressionismo figurativo, como em "A cabra", de 1950.
Na cerâmica, o artista
mostra essa mesma oscilação entre modelos gregos e fontes primitivas. De versatilidade
inesgotável, a obra de Picasso oferece o panorama vertiginoso de uma permanente
movimentação.
Sua unidade, porém, foi solidamente
construída sobre constantes quase inalteráveis, em que sobressai a liberdade formal. Seu
testemunho é o da definitiva libertação da forma na criação artística.
Picasso morreu em Mougins, perto de Cannes, em
8 de abril de 1973.
©Encyclopaedia Britannica do
Brasil Publicações Ltda.
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