Iniciando a
entrevista |
Nas
expressões de Alves Cardoso, ao falar-nos ontem do Brasil, havia um frenético estilo de
apoteose. O ilustre artista, que o meio cultíssimo da capital federal brindou com o mais
solícito acolhimento, bendizia o ensejo que lhe proporcionara a consagração brasileira
e o contato com a primeira sociedade fluminense.
- Agradeço-lhe
disse-nos a oportunidade que me oferece para agradecer na imprensa portuguesa a
esse Brasil inolvidável, a essa terra de maravilha, de vida pujante, de gloriosíssimo
futuro, a hospitalidade que ela me dedicou, o carinho com que, a todo o momento, quis
enaltecer os meus recursos.
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- Demorou-se lá
mais tempo do
que calculara,
não é assim? |
- Fui para uma estadia de dois
meses. Pois estive no Rio durante seis. Ah! E tinha razões para me demorar ainda mais.
Mas os compromissos em Portugal...
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- Encargo artístico
de grande urgência? |
- A decoração do
anfiteatro da Maternidade Alfredo Costa, a qual constará de um tríptico, de um grande
retrato do patrono saudoso e de dois outros painéis, com alegorias do assunto
humaníssimo. O tríptico figurará «O triunfo da Maternidade». Essa obra fora-me
encomendada antes da partida para a capital brasileira. Já vê que urgia agora dar conta
dela...
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- Que tempo levará
a conclui-la? |
- Um ano. Em seguida repousarei
numa aldeia remansosa; mas descansarei trabalhando, habituando de novo a minha visão ao
ambiente da nossa terra. É que os meus olhos vêm deslumbrados da imponência do Rio, da
sua luz de foco, do seu cenário, da urbe portentosa!
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- Advínhamos nos
seus projetos seguintes uma
volta ao Brasil... |
E o
notável retratista do Grupo Silva Porto pôs uma rapidez febril, quase que precipitação
na sua resposta:
- Ah! Mas sim; mas sim... Venho de lá
com esse plano. E hei de visitar S. Paulo e outras cidades onde não pude dirigir-me desta
vez. De resto, aceitei encomendas de novos trabalhos. Fui para pintar alguns retratos;
tive de pintar muitos outros. Ao mesmo tempo efetuei a minha exposição, pois levara
vários quadros para o efeito.
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- Trabalhou
sempre... |
- Ininterruptamente. Meti as minhas faculdades num afã de que nunca me julgara necessitado...
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- ...Quando calculara
ter de se domar a
languidez da bela
vida sul-americana... |
- Puro engano, meu amigo... Há uma soberba energia na
existência da formosa capital do Brasil... De manhã, pelas oito horas, já eu tinha no
ateliê os meus clientes para posar. E eram, na sua maioria, pessoas de qualidade, vivendo
nos meios de requintado e opulento mundanismo. Tanto brasileiros como portugueses.
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- E traz incumbências
de mais pintura... |
- Aceitei-as, sim. Não podia ter tido mais grata consagração de trabalho.
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- A imprensa carioca
falou, por várias
vezes, da notável
galeria que v. deixou
na grande cidade... |
- Os jornais festejaram-me também com magníficas
demonstrações de elogio. Guardo uma lembrança muito querida dos jornalistas
fluminenses. Todos foram lisonjeiros para a minha obra, que conheciam, para o Grupo Silva
Porto, a que me honro de pertencer, e para a coleção de retratos que lá pintei
na sua maioria de vultos de grande relevo social.
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E, quase sem
transição: |
- As minhas impressões
acerca do Brasil são, portanto, de um profundo contentamento. O coração encheu-se-me de
ternura, sempre que tive de dizer a minha admiração por esse país de triunfo em que se
caminha para um futuro brilhantíssimo e em que as belas artes têm condições e
elementos que fazem o orgulho de uma civilização. Exultei com a convivência que
mantive, durante a metade de um ano, com um meio de tão alta categoria, de tão sugestiva
animação, um meio em que realçam todos os frenesis de uma vida moça, plena de seiva e
certa da vitória. Aos meus colegas brasileiros, cujo convívio me enobreceu, não cessei
de mostrar a mais sincera admiração pela sua mocidade inalterável, pela sua fé e pelo
seu talento, ao mesmo tempo que não lhes ocultei a comoção despertada pelas suas
homenagens à arte portuguesa. Vibrei com sinceridade e entusiasmo. É assim que tem de se
amar o Brasil quem como eu o viu num deslumbramento...
E toda
entrevista teve essa corda majestosa de homenagem, este tom de apologia, igual aos acordes
máximos de um hino.
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