O pequeno órfão
Pedro Weingartner nasceu em Porto Alegre-RS em
1858 e faleceu na mesma cidade em 1929, sendo filho de pais alemães.
Teve instrução elementar, pois ficando
órfão por volta de 1867 foi obrigado a trabalhar como caixeiro numa loja de ferragens,
passando em seguida a uma oficina litográfica.
É possível que tenha recebido aulas de
Desenho do artista português Araújo Guerra ou então do tio Miguel e dos irmãos mais
velhos Miguel e Jacob, já que os três eram litógrafos.
Um encontro com
Bouguereau
Aos 19 anos, após grave doença, resolveu
dedicar-se unicamente à carreira das artes, seguindo em fevereiro do ano seguinte para a
Alemanha, a fim de estudar seriamente.
Fixou-se primeiro em Hamburgo, e após seis
meses passou a Carlsruhe, estudando com Teodor Poeckh e Ernst Hildebrandt, a quem
acompanhou em 1880 a Berlim, tornando-se aluno da Real Academia de Belas Artes local.
Em 1882 dirigiu-se a Paris, onde estudou com
Tony Robert-Fleury e William-Adolphe Burguereau, que muito ia marcá-lo e que solicitou a
Pedro II uma bolsa para que o jovem discípulo pudesse continuar seus estudos.
Em 1885, após breve estada na Alemanha,
partiu para Roma, cidade na qual doravante realizaria boa parte de sua produção. Uma das
primeiras pinturas da permanência romana é uma Cena de Aldeia tão
minuciosamente executada, diz Angelo Guido, "que alcança a exatidão
fotográfica".
Visita ao Rio e a
volta à Europa
Em 1888 Weingärtner expôs no Rio de Janeiro
dez quadros, que suscitaram o entusiasmo de críticos como França Júnior, que chegou a
chamá-lo de "o primeiro pintor brasileiro", observando que "nenhum
compatriota nosso chegou, com o pincel, a tanta perfeição no desenho, tanta fineza no
acabado e tanta observação no estudo".
Retornando a Roma o artista inicia a etapa
mais notável de sua carreira, marcada por obras como Má Colheita, Flauta de Pã,
Arrufos, Bacanal, Ciúmes e Briga de Galos, entre outras. Em Convalescente,
de 1889, observa-se maior riqueza cromática e uma fatura mais opulenta. Briga de
Galos, uma de suas primeiras composições clássicas, figurou em 1891 no Salon de
Paris.
Um pintor desiludido, um
professor frustrado
O crítico de La République Française
considerou-a ironicamente "um falso Alma-Tadema",
enquanto o correspondente em Paris do New York Herald advertiu-o, sutilmente:
«Sabe-se, pelo exemplo de Gérome, que esse
trabalho de estréia pode levar a tudo. Weingärtner começa como o membro do Instituto.
Permito-me desejar-lhe que não termine do mesmo modo.»
Em maio de 1891 o artista era nomeado
professor de Desenho Figurado da Escola Nacional de Belas Artes, tomando posse no mesmo
mês e logo depois fazendo, na própria Escola, segunda mostra de seus quadros.
Permaneceria até 1896 no Brasil, com
freqüentes viagens ao Sul - cuja atmosfera começa a retratar em diversas obras de
temática regional. Tais pinturas gauchescas, como Chegou Tarde! , Fios Emaranhados ou
Kerb (a festa dos colonos alemães) foram mostradas pela primeira vez no Rio de
Janeiro em 1892 e conheceram imediato sucesso.
Sem vocação para o magistério, Weingärtner
acha-se de novo em Roma já em 1896.
Imitando a
grandiosidade de
Vitor Meireles e Pedro Américo
No navio que o conduziu à Europa deu início
a uma grande composição, Jantar a bordo do Regina Margherita, que irá concluir
na capital italiana. Nessa obra e em Xeque-Mate, que data de logo depois, o realismo é
tanto, que no dizer de seu biógrafo "as fotografias das mesmas nos dão a impressão
de que foram tiradas diretamente a bordo e não de quadros".
De então até 1902 trabalhará em Roma,
indiferente aos sopros de renovação artística, antes ligando-se ao grupo In Arte
Veritas, de tendência conservadora.
Em sua produção alternam-se, aos temas
clássicos como Julgamento de Paris, Oferenda ao deus Pã ou Banho Pompeiano,
os quadros de gênero, como Últimos Retoques, Procissão Interrompida ou As
Herdeiras.
Mais ou menos da mesma época datam os
primeiros ensaios com a água-forte, técnica de gravura da qual será um dos pioneiros no
Brasil. Anticoli lhe motivará algumas de suas melhores obras, ricas de conteúdo humano e
dotadas de admirável verve.
Mas o pintor gaúcho tornava sempre ao mundo
antigo de Grécia, Roma e Pompéia, e com um quadro de motivação clássica, As
Flautas de Pã, foi que participou da Exposição Parisiense de 1900.
Também em começos do século surgem os
primeiros retratos femininos, gênero que lhe propiciou algumas de suas obras mais
delicadas.
Uma visita a Portugal
Residindo embora na Europa, Weingärtner
acompanhava o movimento artístico brasileiro, expondo por exemplo em São Paulo em 1900,
1905 e 1910.
Nessa última exposição, realizada em
novembro no Liceu de Artes e Ofícios, mostrou 46 pinturas, entre elas 15 de assunto
português, porquanto visitara em 1909 Portugal, realizando paisagens às margens do Rio
Lima e em cidades como Viana do Castelo e Braga.
Weingärtner denominava tais obras de
impressionistas, já que nelas a palheta é mais clara e inexistem as sofisticações
características de suas pinturas típicas. São elas espontâneas, e contrastam
agudamente com aquelas, tão mais elaboradas, feitas na Itália e na Alemanha.
A grande atração da mostra de 1910 foi o
tríptico La Faiseuse d'Anges, pintado em 1908 em Roma. Demasiado literária
(inspirada no Faust de Goethe), kitsch, de mau gosto, tudo já se disse dessa imensa
composição de quatro por dois metros; mas é inegável que a execução é soberba, em
especial sua parte esquerda, que chega a evocar Wilhelm Leibl, uma das influências da
mocidade do artista na Alemanha.
A Faiseuse, como é compreensível,
iria causar sensação, e tanta, que o Governo de São Paulo adquiriu-a para a Pinacoteca
pela soma enorme para a época de dez contos de réis.
Aos 57 anos, achou que
era hora de se casar
Depois do sucesso da mostra de 1910,
Weingärtner decidiu... casar-se. A noiva, Elisabeth Schmitt, ele a conhecera havia muitos
anos, em Porto Alegre; mas só agora, aos 57 anos, julgava-se materialmente apto para as
bodas.
Em novembro de 1911, após nova individual de
sucesso no Rio de Janeiro, Pedro Weingärtner retorna à Europa, agora na companhia da
mulher. Dela faria um retrato a bordo, ele que já em 1892 a retratara numa tela delicada
e poética.
De então até 1920 residiu em Roma, efetuando
porém freqüentes viagens ao Brasil, realizando inclusive, de 1913 a 1914, sensíveis
paisagens das cercanias de Porto Alegre.
Quadros de gênero, paisagens e alguns
retratos constituem os temas de seus derradeiros quadros, expostos em 1922 no Rio de
Janeiro, no ano seguinte em São Paulo e em 1925 em sua cidade natal.
Paralisia liquida o artista
O último óleo que produziu, uma Paisagem
talvez de Torres, é de 1926; no ano seguinte uma comoção cerebral deixou-o paralítico,
extinguindo-se o artista dois anos mais tarde, em 26 de dezembro de 1929.
Pedro Weingärtner nada tem de um precursor de
novas tendências, que não sentiu, ou sentiu de muito longe. É fato que às suas
paisagens de Portugal chamava, como dissemos, de impressionistas, só porque eram mais
soltas e cromaticamente vivas.
Apesar disso, as
influências recebidas na mocidade, primeiro na Alemanha, depois em França, é que iriam
marcá-lo para sempre, dando o tom geral de sua arte. Essa caracteriza-se pela precisão
fotográfica do desenho e pela discreção do colorido - uma forma realista a envelopar um
conteúdo que oscila entre a Antigüidade Clássica, o retrato romântico e a cena
anedótica.
Foi sem dúvida,
como lhe chamou Gonzaga Duque, um "paciente e meticuloso mouchiste das figurinhas
liliputianas e das paisagens microscópicas";
Em resumo teve
também emoção, mas esta foi tolhida em parte por uma sensibilidade que, fugindo
deliberadamente ao mundo e ao tempo em que vivia, achou refúgio no ambiente ideal de uma
perdida Beleza.
Fonte: CD-Rom «500 Anos da Pintura Brasileira»
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