De sua juventude e aprendizagem praticamente nada se sabe: segundo se
afirma, servia na Marinha Real Espanhola quando despertou para a pintura de marinhas, na
qual alcançaria maior notoriedade.
Tinha, pelo lado materno, raízes espanholas, e nobres, tanto que de certa
feita Olavo Bilac chamou-o de "o nobre Duque de Saporta", numa alusão à sua
estirpe, ligado que era aos Saporta de Saragoça.
De qualquer modo, quando chegou ao Brasil em 1880 era já artista feito,
participando logo em 1882 da exposição da Sociedade Propagadora de Belas Artes e em 1884
da XXVI Exposição Geral de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Na mostra de 1884 expôs Saco do Alferes e Naufrágio do
Montserrat, de propriedade respectivamente de Artur e Aluísio de Azevedo.
Entre Emílio e Aluísio,
aliás, cedo despontou uma amizade que se transformaria em estreita cooperação
intelectual, tendo os dois escrito, de parceria, cinco comédias, todas aliás encenadas
com êxito: Venenos que Curam, O Caboclo, Um Caso de Adultério, Lições
para Maridos e Em Flagrante Delito.
De parceria com Coelho
Neto fez a comédia Indenização e República, estreada em 1888. As incursões de
Rouède pelo teatro incluiriam ainda uma passagem como cantor de óperas, e com sucesso
até maior do que o que obtiveram suas pinturas.
Aliás, terá sido essa
pouca aceitação como pintor que o levou a tantos outros campos, como o jornalismo e a
literatura, tanto mais que, apenas chegado, dominava com perfeição o idioma português.
Prova de sua atuação nas letras são as novelas, contos, poemas e crônicas que deixou
espalhados em jornais e revistas da época, ainda hoje à espera de quem os reúna.
Rouède, estrangeiro
embora, engajou-se firmemente nas causas da Abolição e da República - tanto que,
proclamada essa, chamaram-no para decorar o Palácio do Catete, trabalho que aliás nunca
iniciou.
Rompendo, pouco depois,
com Floriano, quando da Revolta da Armada de 1893, teve de deixar às pressas o Rio de
Janeiro, embrenhando-se, em companhia de Bilac, por Minas Gerais adentro. Chega a Ouro
Preto, cuja paisagem fixa e cujo passado artístico é dos primeiros a admirar,
proclamando sua admiração numa crônica de 1894 em que propõe a criação de um arquivo
histórico e de um museu de arte que perpetuem a memória da cidade.
Durante essa temporada em
Ouro Preto pensou inclusive em escrever um livro, Origine de l'Art au pays de l'or,
que aparentemente não saiu dos esboços.
Deixando Ouro Preto
fundou, em Itabira do Mato Dentro, o Ginásio Santa Rita Durão. Mais tarde, por
incumbência da comissão encarregada da construção da futura capital mineira, pinta
aspectos do povoado de Curral del Rei, ao pé da Serra do Curral. Algumas dessas paisagens
se conservam no Museu de Belo Horizonte.
Já em começos do Séc.
XX, sempre pobre e boêmio, Rouède acha-se em Santos, como jornalista da Cidade de
Santos. Sobre ele, testemunhou Afonso Schmidt:
«Escrevia artigos de
fundo, tópicos, comentários, reportagens. Até mesmo o folhetim, de tipo policial,
passado em Paris, que ele apresentava como do grande escritor fulano de tal, traduzido por
não sei quem... Suponho que o folhetim Fifí Volard, que eu li com gosto na
infância, pode ser atribuído à sua pena mágica.
«Mas não se contentava
com isso. Desenhava as caricaturas para o jornal. E como em Santos, na época, não
houvesse clicheria, era ele próprio quem passava os calungas para a chapa de zinco, em
tinta litográfica, cobria-os com betume e lhes dava os banhos de ácido nítrico. Esse
processo rudimentar permaneceu por algum tempo na imprensa local. Graças a ele, eu mesmo
perpetrei os meus clichês".
João Luso, que o
conheceu em São Paulo já no fim da vida, dele traçou um retrato comovido:
«Na roda dos novos,
Rouède assumiu as proporções deslumbrantes de um herói romântico, tipo emigrado do
volume imortal de Murger, e carregando pelo mundo afora toda a sua alegria e toda a sua
poesia. Realizava a viva expressão de um Rodolfo que pintasse como Marcelo, compusesse
como Schaunard, tudo isso envolto no casacão e abarrotado na filosofia de Colline.
«Sim, ele representava a
Boêmia inteira; e, além disso, batera-se como um leão ao lado de José do Patrocínio,
na campanha abolicionista; escrevera, com Aluísio Azevedo, meia dúzia de dramas
vigorosos; conhecia a esgrima como um mestre darmas; as suas receitas culinárias
podiam formar uma biblioteca; e era o espírito mais encantador, o mais delicado
coração, um camarada perfeito, um amigo quase inconcebível.»
Pintor bissexto, que por
vezes refugiava-se num recanto de litoral e ali passava dias, semanas, meses tendo como
única companheira sua caixa de tintas, Rouède deixou obra pequena, prejudicada ainda por
certas bravatas, em que foi mestre: pintar, por exemplo, uma paisagem ou uma marinha em
cinco minutos, em apostas.
Finalmente, a coroar essa
vida boêmia, a morte obscura na Santa Casa de Santos, a 5 de junho de 1908, e as palavras
finais comoventes:
«Assim mesmo, valeu a
pena.»
Houve quem o aproximasse
pictoricamente de um Daubigny; quanto a nós, preferimos defini-lo como um instintivo e um
isolado, fruto antes do improviso que do estudo, um pouco como seu contemporâneo
Castagneto e, como ele, autor de belas marinhas, cheias de atmosfera e vazadas num lindo
colorido e num desenho correto.