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Um italiano na combatendo
na Guerra do Paraguai
Nascido em
Meta, próximo a Sorrento, e falecido em Londres. Cursou a Escola Naval de Nápoles,
sendo, como pintor, autodidata.
Aportando de certa feita, a
belonave em que servia, ao Rio de Janeiro, o jovem suboficial travou conhecimento com os
almirantes Tamandaré, Barroso e Alvim.
Aceitando convite que
estes lhe fizeram, partiu, em 1867, para o teatro de operações bélicas no Paraguai,
permanecendo algum tempo a bordo da fragata Imperatriz, em Curupaiti, e passando depois ao
Lima Barros, em Humaitá.
Um reporter iconográfico
Com recomendação de
Barroso, em 1868 achava-se no Rio de Janeiro, carregado de esboços de quanto lograra
presenciar, sendo benevolamente recebido por Pedro II e seu ministro, o Barão de
Cotegipe.
Expondo, na Academia de
Belas-Artes, uma série de pinturas navais tendo por tema a Campanha do Paraguai, duas
delas foram adquiridas pelo Governo Imperial - Passagem de Humaitá e Abordagem
dos Couraçados.
Após tais sucessos, De
Martino retornou ao Rio da Prata para reassumir seu posto na Real Armada Italiana. Cedo,
porém, se desligaria da carreira marítima, ao que parece por ter revidado a tiros a um
superior que o humilhara, o que o levaria fatalmente a conselho de guerra.
Exposição em Porto Alegre
Preferindo desertar,
refugiou-se em 1868 na cidade do Rio Grande, logo passando a Porto Alegre, expondo nessa
cidade, em 1869, quatro obras de sua autoria: Gran Chaco, Passagem da Esquadra,
Reconhecimento de Humaitá e Retrato do General Mena Barreto.
A novidade da mostra foi a
visitação, paga à razão de mil réis o ingresso, soma considerável para a época. Mas
tal fato é explicado num jornal contemporâneo em termos que bem demonstram como são
antigos, entre nós, os malefícios da burocracia:
«O Sr. De Martino vem
expor também aqui os seus quadros. Por desgraça, não poderá fazê-lo gratuitamente -
as nossas leis são tão bem concebidas que de entrada fizeram-no pagar o imposto de sua
dedicação à glória brasileira, cobrando-lhe os direitos pela importação de quadros
que não se sabe ainda se ficarão na Província.»
Em 1870, de novo no Rio, De
Martino participa, pela primeira vez, da Exposição Geral de Belas-Artes. Tornará a
fazê-lo em 1872 e 1873.
Na Inglaterra, pintor
oficial de marinhas
Em 1875, com
calorosa recomendação de Pedro II ao Barão de Penedo, nosso representante em Londres,
seguir para a Inglaterra, levando a esposa brasileira.
No Brasil,
ficaram, segundo um levantamento, nada menos de 343 telas, a confirmar a observação do
Barão Homem de Melo:
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«Esse
artista tem o pincel rápido e é muito fiel na reprodução das águas flutuantes do mar,
e das cenas navais.»
O pintor nunca mais
deixaria a Inglaterra, tornando-se, em breves anos, Marine Painter in ordinary to Her
Majesty Queen Victoria, e após a morte da soberana, pintor de marinha de Eduardo VII
e Jorge V.
Sua glória espraiou-se por
toda a Europa, e por volta de 1892 Vittorino Vecchi podia escrever, em sua Storia generale
della marina militare:
«É gloria nostra che le
dure battaglie su fíumi siano ricordati sul tella del pittore Edoardo De Martino da
Sorrento, un tempo sottotenente de vascelo nell'Armata Italiana ed ora meritamente
considerato comme il migliore penello marinista vivente.»
Um íntimo da familia
real inglesa
Desfrutando da amizade da
Família Real Inglesa, cujos membros costumava acompanhar em longas excursões por mar,
faleceu em Londres, a 21 de maio de 1912.
Nesta cidade, no Palácio
de Buckingham, podem ser apreciadas algumas de suas obras mais importantes: as quatro
versões da Batalha de Trafalgar, de um ciclo dedicado à vida do Almirante
Nelson.
Um inimigo e tanto
No curto espaço de tempo
vivido no Brasil, De Martino não teve o dom de impressionar a crítica, que
freqüentemente o tratou com extremo rigor, e mesmo aspereza.
Gonzaga Duque, por exemplo,
assim o enfoca em Arte brasileira:
«De Martino era um amador,
cujos estudos artísticos foram imperfeitos; tudo quanto fez foi devido ao seu notável
pendor para a pintura; e, inteligente, afoito, encorajado, conhecendo muito bem o meio em
que vivia, e sabendo com habilidade pouco comum insinuar-se, viu na pintura histórica uma
explorável fonte de lucros.
«A animosidade com que era
dotado fê-lo empreender esses trabalhos. Conquistando amizades na sociedade das
influências políticas deste país, pôde vender os seus quadros, senão muito bem,
contudo, por preço muito acima do seu valor real.
«Na verdade, essas obras
nada valem. Os erros que aí se notam são crassíssimos. Faltou-lhes, para tudo dizer,
desenho de arabesco, desenho de detalhe, unidade de composição, conhecimento de
claro-escuro, densidade de cor, tonalidade, nuanças, proporções, enfim, tudo quanto é
indispensável em um pintor histórico.»
Juízo decerto severo,
beirando a pura e simples antipatia pessoal. Porque, se faltou a De Martino aprendizagem
acadêmica, sobrou-lhe um agudo senso de observação.
Uma visão mais serena
De resto, foi sensível, como o
comprovam não apenas alguns óleos, como principalmente aquarelas e raros desenhos,
alguns de tal finura de traço, de tal elegância formal, que constituem obras de arte
acabadas, apesar de não passarem de esboços, muitas vezes executados sur le motif, em
circunstâncias as mais desconfortáveis, algo à maneira dos antigos holandeses, a quem
certamente terá estudado após radicar-se na Inglaterra.
Marinheiro, foi com total
conhecimento de causa que pintou os navios e seus apetrechos; pois não é demasiado
lembrar que não tanto o mar como os navios constituem sua temática principal, ao
contrário, por exemplo, de um Castagneto, mais novo do que ele, e que iria substitui-lo,
no gosto dos brasileiros, como nosso principal pintor de marinhas.
De Martino deixou no Brasil
obra considerável, recolhida a museus e a coleções particulares.
E há uma
circunstância que não pode ser esquecida: coube-lhe orientar, ainda que por pouco tempo,
o então muito jovem Teles Júnior, piloto da Marinha Mercante de passagem por Porto
Alegre, em 1869.
Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»
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Texto do livro de Laudelino Freire
"1816-1916 - Um Século de Pintura"
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Pintor italiano, que chegou ao Brasil em 1868. Nascido em Meta, Sorrento.
De passagem no Recife e no Rio, em sua viagem da Europa para Montevideu, travou
conhecimento com os almirantes brasileiros Tamandaré, Barroso e Alvim, este então chefe
do Estado Maior de Inhaúma. Foi um achado para a nossa marinha, cujos episódios
gloriosos fixou em telas de admirável concepção e verdade histórica, hoje pertencentes
ao nosso Museu Naval, umas, outras dispersas pelo continente e pela Europa.
Esteve
algum tempo junto ao quartel-general de Caxias, a bordo da fragata "Imperatriz",
em Curupaiti, e a bordo do "Lima de Barros", que fazia a guarda avançada de
Humaitá.
Recomendado
por Barroso, carregado de croquis e apontamentos, chegou ao Rio de Janeiro, onde o
Imperador e o Barão de Cotegipe o acolheram benevolamente, fazendo ele a primeira
exposição de seus trabalhos no Salão da Escola de Belas Artes. Foram, então,
adquiridos pelo Governo a Abordagem dos Couraçados e a Passagem de Humaitá.
Com este
êxito, De Martino, que havia deixado o serviço do seu país, regressou ao Rio da Prata e
lançou-se febrilmente ao trabalho, pintando: Cena do Gran Chaco, Os capuchinhos
sepultando os mortos, Reconhecimento de Humaitá, a grande tela Combate Naval do
Riachuelo e outras.
Voltando ao
Rio, felizmente, não lhe faltou o apreço do Governo, nem do público, e pintou: Caminho
estratégico, A fragata 'Niteroi' em Montevideu, Abordagem da 'Maceió', Rendição da
Corveta 'Dorrego', Abordagem da Fragata 'Imperatriz' e mais tarde, em 1875, O
Pirata, que apresentou ao Imperador...
Segundo um
artigo do Dr. Salvador de Mendonça, De Martino deixou no Brasil 343 telas. Daqui partiu
cheio de honras e celebridades para Inglaterra, onde acaba de falecer [1912], depois de
ter alcançado grande nomeada, e ser distinguido com o título de "Pintor da
Corte".
O Museu
Naval conserva muitos quadros deste pintor, todos ou quase todos referentes a episódios
da Guerra do Paraguai.
Em começo de sua vida artística entre nós, a crítica não o acolheu bem, nele não
distinguindo as qualidades indispensáveis de um bom pintor, e considerando-o de
educação incompleta, falho de desenho, vacilante e incorreto. Mais tarde, porém, essa
mesma crítica fez-lhe a devida justiça, proclamando-o artista paciente, minucioso,
correto e dotado de qualidades apreciáveis, amplamente reveladas nas inúmeras marinhas.
E foi efetivamente na interpretação delas que se distinguiu o pintor italiano, somente
excedido por Castagneto, o nosso melhor marinista.
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