ÉPOCA DE DESENVOLVIMENTO
    TERCEIRO PERÍODO: 1884-1889

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Conheça o contexto histórico desse período
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A nova geração de pintores

     A movimentação artística que se veio acentuando e tão animadora se revelara nos resultados da exposição oficial de 1879, não se arrefece, e antes se amplia, mantida pela brilhante plêiade de pintores, que se deve principalmente aos ensinamentos e à dedicação de Vítor Meireles.

     Dotando o país de artistas de merecimento, como realmente o são os melhores representantes da primeira geração dos seus discípulos, prestou, o velho professor, o mais assinalado impulso de que necessitava a pintura para ter, definitivamente, assegurado o seu desenvolvimento.

     A sua ação se fizera sentir num meio que já se revelava propício. A Academia, que até então tivera a sua administração confiada a homens ilustrados, capazes e patriotas, era um centro de incentivos e de boa cultura.

     Secundando-a, pairava sobre ela o espírito liberal de Pedro 2º, dotando-a de recursos, praticando atos necessários à realização de seu destino, e trazendo-a sob sua imediata assistência. Dir-se-ia que nenhum ramo de serviço público lhe merecera maior desvelo.

     Em condições tais, não se podia deixar de dar, neste período (o que realmente se verificou), o mesmo brilho dos dois períodos anteriores, a continuidade do ensino, o aparecimento de uma geração de merecimento comprovado, emulações e recompensas que a prendiam à intensa produção; o reconhecimento do mérito em públicas solenidades, de onde saiam, orgulhosos, os laureados, cercados dos aplausos públicos, os acessos para os cargos do magistério, feitos mediante concurso, em que raro era não ser reconhecida a justiça ao mais capaz; e, finalmente, os certames que efetuava a Academia, revestidos, dia a dia, de maior interesse.

A Exposição de 1884

     Dentre esses [certames], foi o mais notável a exposição de 1884, que abre o presente período. Inaugurada a 23 de agosto, procedeu-se ao julgamento dos trabalhos expostos em sessão da Congregação de 17 de dezembro.

     A comissão incumbida desse julgamento, assim começa o seu parecer:

     "A presente exposição geral é, sem nenhuma dúvida, a mais variada e, talvez, mesmo, a mais importante de quantas se tem feito na Academia de Belas Artes.

     "Setenta e cinco artistas concorreram a ela, expondo 399 trabalhos, dos quais 368 constam do catálogo impresso, e 31 foram admitidos depois da publicação dele.

     "Além destes 399 trabalhos próprios só da exposição anual, havia, na galeria ocidental, também em exposição, 98 produções da nossa escola, elevando-se, por isso, a 497 o total de obras expostas.

     "Folga, a comissão, em reconhecer que os expositores em geral são dignos de louvor, e assim conclui o seu parecer: «Terminando esta resumida análise da Exposição Geral das Belas Artes de 1884, a comissão propõe:

Os prêmios

     "«Primeiro, que sejam levados à presença do Governo Imperial, como merecedores de recompensas superiores, pelas suas produções da atual exposição, os nomes dos Srs. José Maria de Medeiros, José Ferraz de Almeida Júnior, Pedro José Pinto Peres, Augusto Rodrigues Duarte, Antônio Firmino Monteiro, Francisco Aurélio de Figueiredo Melo, Leopoldo Heck e Marcos Ferrez;

     "«Segundo, que sejam premiados com as medalhas seguintes:

  • Primeira [medalha] de ouro, aos senhores Tomás Driendl, João Batista Castagneto, dona Abigail de Andrade e Jorge Grimm;
  • Segunda [medalha] de ouro aos senhores Henrique Bernardelli, Oscar Pereira da Silva, Hipólito Boaventura Caron, Domingos Garcia y Vasquez, Estêvão Roberto da Silva, Antônio Alves do Vale Souza Pinto, Francisco da Cruz Antunes, Modesto Ribeiro e Carneiro Tavares;
  • Medalha de prata aos senhores Belmiro Barbosa de Almeida Júnior, João Batista Pagani, Francisco Hilarião Teixeira da Silva, Augusto Petit, Generoso Prate José Dotti;

     "«Terceiro, que sejam concedidas menções honrosas aos senhores, Dr. França Júnior. Francisco Carlos Pereira de Carvalho, Antônio Rafael Pinto Bandeira, Eduardo de Sá, Spain Ernesto Novak, dona Guilhermina Tollstadius, dona Julieta Adelaide dos Santos, Lopes Rodrigues e Alexandre Siglieri.

     "«Academia das Belas Artes, 13 de dezembro de 1884. Assinado: João Maximiano Mafra, Vítor Meireles de Lima, Pedro Américo de Figueiredo, [voto] vencido quanto aos prêmios; J. F. Bethencourt da Silva.»"

Outras obras expostas

     A exposição esteve franquiada durante sessenta e dois dias e foi visitada por 20.154 pessoas. Nela foram, ainda, expositores, os Srs. Rodolfo Amoedo, com a Marabá e mais oito trabalhos; Bento Barbosa Júnior, J. J. Augusto Burgain, Luís Afonso Burgain, Carlos Canard, Nicolau Facchinetti, Leopoldino de Faria, Rafael Frederico Gustavo James, Emílio Rouede, Guilherme Gonçalves dos Santos, João José da Silva, Antônio de Araújo de Sousa Lobo, José Júlio de Sousa Pinto, Manuel Teixeira da Rocha, Décio Vilares, José Vilas Boas, Pedro Weingartner, Rosa Meryss, Maria Teixeira de Farias, José dos Reis Carvalho e baronesa de Araújo Gondin.

  • Pedro Américo, com A noite, Davi aquecido pela jovem Abisag, Catarina de Ataíde, Judite e Holofernes, A Carioca, Joana D'Arc, Dom João 4º infante, Rabrquista Árabe, Virgem dolorosa, Jocabe, Heloisa, Menina na Espanha, Estudo de perfil, o Almoço árabe e Os filhos de Eduardo;

  • Vítor Meireles, com o Combate Naval do Riachuelo, Camponesa italiana, Cemitério e um Retrato.

Ampliando o acervo da Academia

     Ambos deram maior realce à exposição. A Academia adquiriu, para a sua galeria, o Combate Naval do Riachuelo, de Vítor Meireles, pela quantia de 18 contos, pagos em três exercícios, em prestações de seis contos de réis; e os onze primeiros quadros de Pedro Américo, acima referidos, pela importância de 28 contos, pagos em quatro exercícios e prestações, sendo a primeira e a última de oito contos, e a terceira, de seis contos cada uma, obrigando-se o artista, no contrato de venda dos ditos quadros, a compor gratuitamente, para o Estado, um trabalho a óleo sobre assunto de história pátria, com as dimensões que exigissem diversas figuras de tamanho em ação.

Crise afeta a arte

     Por falta de verbas orçamentárias, ficaram suspensas as exposições. Os prejuízos que disto advinham eram sensíveis, e contra eles não se deixavam de levantar os protestos daqueles que se interessavam pelo nosso progresso.

     No seu relatório de 1887, escrevia o então diretor interino, Moreira Maia:

     "Entretanto, as exposições gerais de belas artes são indispensáveis para o desenvolvimento do gosto artístico. Falta-lhes, é verdade, a judiciosa crítica de arte. Entre nós, ela é quase exercida exclusivamente por escritores de talento. Mas [estes], muitas vezes, são guiados pela própria impressão, sobre a qual podem influir simpatias ou desafeições pessoais. Tais exposições, e o prêmio da primeira ordem, são os meios mais eficazes que tem a Academia das Belas Artes para fazer progredir as artes e recompensar a seus cultores."

     Depois de 1884, que foi a última levada a efeito, neste período, só em 1890 se realizou nova exposição oficial, que foi a primeira sob o regime republicano.

Iniciativa privada substitui o Estado

     Efetuaram-se, todavia, exposições particulares. No próprio edifício da Academia, fizeram alguns alunos, em 1886, por iniciativa própria, duas exposições públicas de trabalhos por eles executados, distinguindo-se Antônio Rafael Pinto Bandeira.

     Nesse mesmo ano, na Galeria Vieitas, expôs João Batista Castagneto vários trabalhos seus, firmando, desde logo, reputação de artista laborioso, inteligente e observador.

     Numa das salas da Imprensa Nacional, Rodolfo Bernardelli fez exposição dos trabalhos de seu irmão Henrique, e de várias paisagens de Facchinetti.

     No ano seguinte, em 1887, foi o maior movimento de exposições de iniciativa particular. Firmino Monteiro, Antônio Parreiras e Rodolfo Amoedo fizeram exposições de Belmiro de Almeida, Castagneto e outros. Nas galerias particulares de Insley Pacheco, Vieitas, Clement, De Wild e Viúva Moncada, figuravam sempre muitos quadros expostos.

     Nessas exposições, a Academia adquiriu dois quadros de Pinto Bandeira, oito de Leôncio Vieira, entre as quais o último que executara o artista, denominado O Sermão da Montanha; três de Henrique Bernardelli e dois de Antônio Parreiras, intitulados Depois da trovoada e À tarde.

Mudanças no corpo diretivo

     Em junho de 1888, foi concedida a Nicolau Tolentino a exoneração que, desde 7 de março, solicitara, do cargo de diretor da Academia que, assim perdia o concurso de um dos seus benfeitores. Assumiu, interinamente, a direção do estabelecimento, o Dr. Ernesto Gomes Moreira Maia, a quem, por seu turno, muito ficariam a dever as artes nacionais.

     Os professores da Academia, nesse período, foram Luís Carlos da Fonseca, Vítor Meireles, Teófilo Neves, Chaves Pinheiro (jubilado em 1884), Domingos Silva, Maximiano Mafra (ainda secretário), Bethencourt da Silva, Praxedes Pertence, Pedro Américo, José Maria de Medeiros, Conde da Mota Maia, Rodolfo Bernardelli (nomeado em 1885), Rosendo Muniz Barreto, Rodolfo Amoedo, Cirne Maia, Pedro Peres, Zeferino da Costa e Jorge Grimm, [este último] contratado para reger interinamente a cadeira de paisagem, flores e animais.

     Suspensos os concursos para prêmio de viagem desde 1878, ano em que fora premiado Amoedo, só em 1888, dez anos mais tarde, outro se realizou, recaindo a escola em Oscar Pereira da Silva.

São Paulo desponta no movimento artístico

     Na Bahia, o movimento não se desenvolvera a ponto de dar artistas que mereçam ser destacados.

     Em São Paulo, começam a aparecer as primeiras manifestações, sob os ensinamentos de Almeida Júnior, com quem ali se implantam os rudimentos da verdadeira arte, secundado por Oscar da Silva, ambos afastados à mocidade das aparências ilusórias da arte mercenária e aventureira, que, por efeito das causas sociais, máxime do influxo poderoso da preponderância de determinada corrente emigratória, ali se principiara a desenvolver.

     Desse incipiente movimento de arte [o de São Paulo], começam, também, a aparecer os nomes, entre outros, de Benedito Calixto e A . Ferrigno.

Os destaques do período

     Passamos a dar ligeira notícia dos que devem ser considerados como principais representantes deste período e que são: Antônio Parreiras, Belmiro de Almeida, Oscar da Silva, Castagneto, Vasquez, Caron, Francisco Ribeiro, Teixeira da Rocha, Hilarião, Weingartner, França Júnior, Sebastião Fernandes, Eduardo de Sá, Teles Júnior, Pereira de Carvalho, Lopes Rodrigues, Pinto Bandeira, Benedito Calixto, Felix Bernardelli, Novak, Langerok, Santoro, Treidler, Dali, Dallara e Correia de Castro.