|
As complicações do Prata
Os brasileiros
residentes no Estado Oriental começaram a se queixar contra violências que sofriam por
parte de autoridades uruguaias. Sem resultado, o governo imperial dirigiu insistentes
reclamações ao presidente Aguirre. Convencido de que nada conseguiria por vias
diplomáticas, resolveu mandar para o Prata um representante especial, que foi o
conselheiro José Antônio Saraiva e, ao mesmo tempo, aumentou a esquadra ali estacionada,
reforçando, também, os corpos que guarneciam as fronteiras.
O
plenipotenciário brasileiro, depois de algumas negociações frustradas, apresentou um
ultimato ao governo oriental, marcando-lhe um prazo improrrogável para atender as
reclamações do governo imperial e, desde esse instante, se reconheceu que a situação,
por ali, tocava seu extremo de gravidade. O partido "blanco", desde o desastre
de Oribe, não dissimulava suas antipatias e seu ódio contra o Brasil. Foi assim que
Aguirre, confiante em acordos clandestinos que mantinha com o déspota do Paraguai, Solano
López, devolveu a nota do ministro brasileiro. Então, o conselheiro Saraiva declarou ao
governo uruguaio e ao corpo diplomático que, nessa situação, o governo imperial se via
forçado a lançar mão de recursos extremos contra a nação vizinha.
Em fins de 1864,
as tropas brasileiras invadem o território oriental. Na disputa anterior, como já
vimos, Oribe havia solicitado a proteção do ditador argentino Rosas. Nesta guerra, é
Venâncio Flores ["colorado"] que solicita a proteção do Brasil. Apoiado
fortemente pelas armas imperiais, Flores vai se apoderando de diversas povoações, até
fazer o cerco de Paissandu. É neste momento que chega ao Rio de Janeiro a notícia da
insólita e hostil atitude do ditador do Paraguai, entrando na disputa pela região. Só
então, os homens do império se apercebiam da audácia temerária de Solano López que,
isolado de seus vizinhos, aventurava-se a travar conflito com eles.
[Entenda a situação: O Uruguai
era dominado por dois partidos: o dos "blancos"(conservadores) e o dos
"colorados" (progressistas). Oribe, segundo presidente do Uruguai, do partido
"blanco", havia sido derrotado na guerra anterior, abandonando a vida política.
Em seu lugar assumiu Aguirre, igualmente um "blanco", ao qual se opôs Venâncio
Flores, um "colorado". Flores fez um pacto com o Brasil: nosso país o ajudaria
a derrotar Aguirre. Ele, em troca, assumindo o poder, nos auxiliaria no embate que se
prenunciava, contra o Paraguai. A Batalha do Paissandu ocorreu a 2 de janeiro de 1865,
comandada em terra pelo general brasileiro Mena Barreto e pelo próprio Venâncio Flores,
tendo apoio em mar da esquadra do almirante Tamandaré. Flores assumiu o poder, mas, em
1868 foi assassinado.] (Paulo Victorino).
A Guerra do Paraguai
Francisco Solano Lopez que, em 1862, sucedera seu pai, Carlos Lopez, como ditador do
Paraguai, tinha visitado a Europa, em missão diplomática, e viera deslumbrado com a
magnificência das cortes, seduzido com idéias de grandeza e de preponderância na
América do Sul. Havendo-se preparado durante muitos anos, desde os tempos do governo de
seu pai, esperava apenas um momento propício para alarmar o continente com sua engendrada
política. O Brasil lhe deu o pretexto, com a invasão do Estado Oriental. Imediatamente,
o ditador iniciou suas hostilidades, sem prévia declaração de guerra, o que só se
formalizou em dezembro de 1864, após o aprisionamento do vapor Marquês de Olinda, que
passava por Assunção, em viagem a Mato Grosso, levando o presidente da Província,
coronel Carneiro de Campos.
No dia seguinte
à declaração de guerra, feita ao nosso ministro em Assunção, López mandava invadir
Mato Grosso, por cerca de seis mil homens, destacados do acampamento central de Cerro
Leon. Em dezembro de 1864, a infantaria paraguaia, que fora conduzida em navios de
esquadrilha e se achava sob o comando do general Barrios, ataca o forte de Nova Coimbra,
guarnecido apenas por cerca de 150 soldados. Durante dois dias, estes poucos heróis
resistem aos ataques furiosos do inimigo, até que, vendo esgotados todos os recursos de
ação, o comandante da praça, coronel Porto Carrero, resolve abandoná-la, retirando-se
com o resto de seus comandados. No dia seguinte, o inimigo ocupa o forte abandonado, onde
estabelece seu centro de operações. Dali, expediu os coronéis Resquin e Urvieta para
investidas contra outras povoações, e estes, subindo o rio Paraguai, foram se apoderando
de Albuquerque, Miranda, Dourados e Corumbá, bem como de vários outros pontos
desguarnecidos.
Em janeiro de
1865, os paraguaios já se achavam senhores de todo o sul da nossa longínqua e
desventurada província, onde estabeleceram logo uma administração provisória. Os
mandatários de López, ao mesmo tempo que usavam largamente o seu direito de saque,
tentaram inspirar simpatias aos míseros habitantes do território invadido e que o
ditador, de imediato, considerou incorporados aos seus domínios. A tática dos invasores,
porém, não produziu o efeito calculado e Barrios não pôde estender suas conquistas
para o norte.
Lopez, no
entanto, tinha dado provas de seu tino estratégico, embora não conseguisse o que fora
planejado. Se, por um lado, aumentava as complicações com que já se via o governo
imperial, empenhado na guerra contra os "blancos" no Uruguay, por outro lado,
Lopez fazia esforços para conseguir alianças entre os vizinhos, especialmente com o
governo de Buenos Aires. Apesar da violência desusada e do imprevisto da sua atitude (e,
talvez, por causa disso mesmo), o tirano paraguaio viu frustrados seus intentos. Até que
chegara a conseguir promessas de ajuda do general Urquiza, governador da província
argentina de Entre Rios (limítrofe ao Paraguai), contra os invasores do Estado Oriental.
Isso, no entanto, lhe custou a desvantagem de deixar em alerta o general Mitre, presidente
da República Argentina, que se apressou em declarar a neutralidade desse país na guerra
entre Paraguai e Brasil. Desse modo, privado de um concurso que lhe era tão necessário,
o ambicioso ditador tinha de ficar desvairado. Não podendo competir com nossa esquadra, e
precisando atravessar território estrangeiro para chegar ao seu alvo, López se viu na
necessidade de apelar à força, insurgindo-se contra todos os vizinhos (Brasil, Uruguai e
Argentina),
O governo
imperial, mal contendo sua indignação ante o ataque inesperado de Mato Grosso, tratou de
liquidar a situação de nossas armas no Uruguai. Tomada a praça de Paissandu, conforme
narrado no capítulo anterior, os aliados marcham imediatamente contra Montevideu e, ao
cabo de alguns dias de sítio, a 20 de fevereiro de 1865, a capital uruguaia se rende. O
general Flores ["colorado"] assume o governo provisório da República Oriental
e, no dia seguinte, dá ao governo imperial, em nome de sua nação, todas as
satisfações que haviam sido exigidas de Aguirre [o ex ditador "blanco"].
Regulados os negócios que explicavam a ação do Império na república vizinha, nosso
governo volveu toda a sua solicitude contra o ditador paraguaio.
O início da guerra com o Paraguai
(1º de maio de 1865)
Desiludido do
concurso dos argentinos ou, pelo menos, da simpatia com que contava entre os republicanos
do Prata, Lopez entendeu que só a golpes de audácia e temeridade é que poderia abrir
caminho entre as populações vizinhas. Como, da parte argentina, o presidente Mitre não
lhe permitisse atravessar o território de Missões para invadir o Brasil, o ditador
surpreende aquela nação, aprisionando-lhe dois navios no rio Paraná, e, em seguida,
invadindo a província de Corrientes. Essa violência espantosa comove, fortemente, os
argentinos. Até aqueles que haviam afagado as esperanças de Lopez, como o seu amigo
Urquiza [o já citado governador de Entre Rios], são os primeiros a pedir guerra contra
ele. Assim, Lópes conseguia levantar contra ele os três povos da América Oriental. Em
Buenos Aires, a 1º de maio de 1865, Brasil, Uruguai e Argentina celebraram, pois, o
tratado da Tríplice Aliança.
Segundo esse tratado, o
comando geral dos exércitos, que ia entrar em operações contra o ditador agressivo
(muito inferior, em número, que o exército paraguaio), era confiado ao general Mitre. O
comando das forças navais, exclusivamente brasileiras, ficava com o almirante Tamandaré.
Todavia, as três nações, que iam reprimir os instintos de López, achavam-se quase de
todo desprevenidas para uma campanha em condições tão excepcionais. Os argentinos
dispunham de cerca de seis mil homens, espalhados pelas fronteiras, empenhados em abafar
motins e em conter os índios do Chaco. Os uruguaios tinham mil e poucos homens. O
Exército Brasileiro, comandado pelo general Osório, compunha-se de vinte mil
combatentes. No mar, só o Brasil tinha forças capazes de enfrentar as fortificações
que Lopez levantara em diversos pontos, às margens do rio Paraguai.
Antes de tudo,
portanto, cumpria aos aliados cuidar ativamente de preparar elementos suficientes para
reprimir a sanha do inimigo. Felizmente, em tão grave conjuntura, os três governos
contaram com o patriotismo inflamado dos respectivos povos, afrontados nos seus brios. No
Brasil, por toda a parte, se levantavam legiões de voluntários. Em todas as províncias
do sul, a guarda nacional foi chamada às armas, enquanto se fabricavam munições de
guerra em nossos arsenais e até se construíam navios, para reforço da esquadra. Assim
foi que, em pouco tempo, as forças aliadas tinham-se multiplicado, deixando pronto para a
campanha, um exército de cerca de quarenta mil homens, concentrados em Concórdia, São
Borja, Itaqui, Uruguaiana, Paissandu e em outros pontos do Rio Uruguai.
Com a invasão da
República Argentina, Lopez deixava perceber todo o seu plano. Tendo-se assenhoreado de
todo o norte da província de Corrientes, ali assentara a sua base de operações contra
os seus três inimigos e, principalmente, contra o Brasil. Pisando em território da
Confederação [Brasil-Uruguai-Argentina], o ditador levava, ainda, a esperança de chamar
a si as simpatias das populações e o apoio dos caudilhos, alguns dos quais não lhe
desmentiram, aliás, essas esperanças, atestando que ali, mais que o sentimento da
pátria, alguns corações eram movidos pela paixão política. Porém, ao esperar, na
província de Corrientes, pelo efeito calculado de seu golpe de força, o ditador
comprometia todo o êxito de seus projetos. O primeiro pensamento dos aliados foi o de
privar os paraguaios das vantagens que obtiveram com a ocupação de Corrientes.
As avançadas de
Lopez haviam descido o rio Paraná até Bela Vista, estabelecendo centro de ação junto
às bocas do Riachuelo. Então, o general Paunero, à frente de dois mil correntinos, vai
atacar os paraguaios em Corrientes. Frustrando ardis tramados pelo inimigo, Paunero
embarca as suas forças e, na manhã de 25 de maio de 1865, a esquadra brasileira
estabelece o bloqueio de Corrientes, enquanto Paunero desembarca com cerca de mil homens,
apoderando-se da praça. Mas os paraguaios, retrocedendo a Bela Vista, obrigaram o general
argentino a abandonar a cidade. Aquela investida, que fora apenas um ato de hostilidade,
sem vantagens para os aliados, serviu de aviso a López e o ditador compreendeu que era
preciso mover-se.
A Batalha do Riachuelo - 11.6.1865
e o cerco a Uruguaiana - 17.8.1865
Lopez empreende a
invasão do Rio Grande, quase ao mesmo tempo em que tenta um golpe de força contra a
nossa esquadra do rio Paraná. De Candelária, ele destaca uma divisão de doze mil homens
contra a nossa fronteira e, ao cabo de alguma resistência, em 18 de junho, a cidade de
São Borja cai em poder dos paraguaios. Dias antes, em 11 de junho de 1865, acabara de
ferir-se a primeira batalha naval entre as forças brasileiras e as do Paraguai, a qual
ficou conhecida como a Batalha do Riachuelo. Na manhã daquele dia, os navios inimigos
desceram até o Riachuelo, perto de onde se achava a nossa esquadra. As forças paraguaias
de terra já haviam, na noite anterior, levantado baterias nas barrancas, de onde deviam
cooperar com as forças navais. Estas, descendo o rio, passaram pela nossa esquadra quase
sem hostilidades e, chegando junto às baterias mascaradas, romperam fogo com violência
terrível, tentando rechaçar nossos navios para cima. A tática dos paraguaios era,
realmente, tremenda. Sem a bravura dos nossos, ela teria produzido, talvez, o desastre
mais assombroso de toda a história militar da América. Além de seis formidáveis
baterias flutuantes, os inimigos puseram em ação oito vapores e numerosas chalanas
[embarcações de fundo chato, próprias para navegação fluvial], ou grandes canoas de
guerra. Ao inesperado ataque e à surpresa das manobras, juntaram-se logo a desordem e a
confusão produzidas pela estranha vozeria e pelos ímpetos de loucura com que os
paraguaios fanáticos investiam as nossas embarcações. A batalha durou dez horas. Por
fim, com coragem épica, o almirante Barroso manobrou rapidamente, chocando seu navio
[Amazonas] contra as embarcações inimigas e pondo a pique três delas. Ficou, assim,
assegurada a vitória de nossas armas nessa batalha, com o que se escreveu uma das
páginas mais gloriosas da nossa história naval.
Um dos livros
escritos sobre as glórias de nossa marinha de guerra, conta: "Desde esse momento, um
ardor aquileano [de Aquiles, célebre herói grego] inflama o peito do velho guerreiro.
Seus olhos dardejam relâmpagos através da nuvem de sua longa barba branca agitada pelo
vento; a lança que só ele pode manejar, como o herói de Homero, é a proa do Amazonas,
e Gustavinho é o seu Automedonte. Uma vez envolvido na peleja, ele renuncia ao mando à
distância, além das bordas do Amazonas; nem um novo sinal da capitânia [navio chefe]:
QUE CADA UM CUMPRA SEU DEVER; ele comanda pelo seu exemplo, pela presença do seu vulto no
passadiço do navio; ele sente que a unidade tática que obedece à sua voz imediata basta
para exterminar toda a esquadra inimiga..."
A vitória do
Riachuelo aniquilara quase completamente o poder naval do inimigo. Os quatro vapores que
os paraguaios puderam salvar e que se recolheram a Humaitá, limitaram-se, dali em
diante, a assaltos e abordagens a navios desgarrados da nossa esquadra. Lopez, então,
voltou suas esperanças para o exército que marcha sobre o Rio Grande. Invadir o império
por aquela província, onde se apresentaria o seu exército como numa cruzada pela
emancipação dos escravos e, simultaneamente, ir ao Estado Oriental fazer com os
"blancos" o que os brasileiros tinham feito com os "colorados" - tais
foram os cálculos que dominaram o espírito do ditador. Para isso, ordenara que a
divisão se separasse em duas colunas, e que seguissem pelas margens do rio Uruguai.
Esse movimento,
atraiu a atenção convergente dos aliados. A coluna paraguaia, que marcha ao longo da
margem direita do rio, é desbaratada em Jataí pelas forças de Flores e de Paunero, de
tal sorte que o próprio comandante paraguaio, major Duarte, caiu em poder dos aliados, em
17 de agosto de 1865. Enquanto isso se passava, pela margem esquerda Estigarribia
[paraguaio], a partir de São Borja, avançou sobre Uruguaiana, um excelente ponto
estratégico, onde se fortificou com cerca de nove mil homens, esperando por reforços. Os
aliados estabelecem, pois, o cerco à praça. No Rio de Janeiro, a ocupação de
Uruguaiana pelos paraguaios produz um verdadeiro pânico e o próprio imperador,
acompanhado de seu genro [conde D'Eu, que havia se casado com a princesa Isabel no ano
anterior] partiu para o Rio Grande, onde sua presença excitou o entusiasmo das
populações. Ao cabo de um mês de sítio, Estigarríbia, exausto, rendeu-se [os aliados
aprisionaram também mais de seis mil soldados].
A Batalha do Tuiuti - 24.5.1866
A esta altura,
Lopez está convencido de que precisa reduzir-se à defensiva e ordena a retirada geral,
concentrando nas fronteiras todas as forças de que pode dispor. Levanta fortificações
em todos os pontos dos rios Paraná e Paraguai, expostos ao ataque e à invasão, cuidando
principalmente de Itapura, Itapiru e Humaitá. Por toda a parte, nas repúblicas do Prata,
e até nas do Pacífico, vozes se erguem clamando pela paz, o que não impediu que os
aliados continuassem fiéis à aliança que tinham feito. Resolveu-se, pois, a imediata
ofensiva contra o Paraguai. As forças aliadas incorporaram-se ao norte de Corrientes,
tratando-se de invadir o território inimigo e atacar Humaitá, onde o ditador se
encontra, pessoalmente, dirigindo as suas hostes. Este é um dos momentos mais solenes da
campanha: os inimigos, um diante do outro, aparentando apreensão, hesitam em partir para
o ataque.
Alguns meses
ficaram assim, na inatividade, e somente em abril de 1866, os aliados decidiram tomar a
iniciativa da guerra. Enquanto nossa esquadra ataca o forte de Itapiru, o marechal
Osório, com duas divisões, transpõe o Passo da Pátria e desembarca em território
inimigo, na manhã do dia 16 de abril. Apercebidos da extrema audácia, os paraguaios
levantam-se de todos os lados e investem furiosamente contra as forças invasoras. Inútil
é, porém, o desespero com que lutam os soldados de López e os aliados os rechaçam para
o norte, com perdas enormes, ao mesmo tempo que nossa esquadra se apodera de Itapiru. A 2
de maio, dá-se o combate de Estero Belaco e, a 24 de maio de 1866, registra-se a mais
notável batalha de toda a campanha, a Batalha do Tuiuti. Os aliados tiveram 650 mortos e
2.600 feridos; os paraguaios registraram 4.000 mortos e 370 feridos.
No entanto, mesmo
esta grande vitória deixava os aliados em novas dúvidas, diante dos embaraços que estes
iam tendo. Ao norte e ao oeste, tinham as linhas de Rojas, as temerosas fortificações
que serviam de anteparo à formidável Humaitá, onde o ditador paraguaio se achava, a
acender o ânimo de suas legiões. Osório insiste com o general em chefe dos aliados
[Bartolomé Mitre] para que avance imediatamente mas este relutou, preferindo conservar as
posições conquistadas até que chegassem reforços. Levantaram-se trincheiras em frente
às linhas de Rojas e, para diversos pontos, expediram-se algumas tropas avançadas e
piquetes de reconhecimento. O general Mitre, que formalmente se opusera à marcha para o
norte, instava com o Almirante Tamandaré para que atacasse o forte Humaitá pelo rio, mas
este achou que não devia fazê-lo, por considerar esse ato uma loucura, que poderia
sacrificar a causa que estavam defendendo.
O inimigo não
cessava de molestar os invasores, tanto por rio como por terra. O clima inóspito causava
danos enormes aos aliados. Desgostoso daquela inação tão prolongada, Osório
desaveio-se com o general Mitre, comandante em chefe. Então, a 15 de julho de 1866,
passou o comando de seu exército para o general Polidoro e retirou-se de volta ao Brasil.
[Em julho de 1867, Osório volta
ao comando das tropas. Terminada a guerra, dedicou-se à carreira política: foi senador
em 1877, depois Ministro da Guerra. Tornou-se o patrono da Cavalaria do Exército]. (Paulo
Victorino)
Assim que assumiu
o comando, o general Polidoro cuidou de sair daquela situação. Naquela mesma noite, o
general Xavier de Sousa, com a 4ª Divisão de Infantaria, ataca uma nova trincheira que
os paraguaios levantavam e, não obstante a forte resistência, consegue tomá-la do
inimigo. Nos três dias seguintes, as hostes inimigas, ainda que sob fogo contínuo, não
descansaram de seu furor de extermínio. Por fim, os paraguaios recuaram um pouco, mas os
aliados foram barrados, de novo, diante de Curupaiti.
Em fins de agosto
[um mês e meio depois], o Barão de Porto Alegre chegava com os reforços que, tão
ansiosamente, se esperava. Vencendo a obstinação de Mitre, o conselho de generais
resolve avançar sobre Humaitá, combinando-se operações simultâneas da esquadra [ainda
comandada por Tamandaré] e das forças de terra. Era preciso atacar primeiro Curupaiti,
forte bem guarnecido, ao sul de Humaitá, a formidável praça de guerra que era o alvo
dos aliados. No dia 1º de setembro de 1866, o general Porto Alegre, com cerca de nove mil
homens de diversas milícias, em navios da esquadra, segue rio acima, com destino a
Curupaiti. Porém, antes de chegarem àquelas fortificações, os aliados se vem frente ao
forte Curuçu e ali desembarcaram suas forças, travando em terra combates desesperados,
enquanto a esquadra bombardeia o forte.
A derrota em Curupaiti - 22.9.1866
A luta em Curuçu
foi tremenda e ali, os aliados anteviram as surpresas que lhes esperavam no rio Paraguai.
De repente, no meio do combate, do troar dos canhões e da fuzilaria, ouve-se um
estampido. Era a explosão de um torpedo que, em poucos minutos, pôs a pique um dos
nossos vasos de guerra, o couraçado Rio de Janeiro, cuja tripulação foi, quase toda,
sacrificada. Esta medonha catástrofe, no entanto, não diminui o vigor da investida. Em
poucas horas, o forte é tomado de assalto, apesar dos prodígios de heroísmo com que foi
defendido, até o último instante. Uma vez senhor do forte de Curuçu, o general Porto
Alegre tratou de avançar, o mais rápido possível, sobre Curupaiti, esperando apenas a
chegada de reforços do acampamento geral.
É nesta ocasião
que, entre os chefes aliados, sobrevêm divergências tais que quase chegam a comprometer
a sorte da Tríplice Aliança e o êxito da campanha, até aqui levada com tanto
sacrifício. Mitre [argentino, comandante em chefe] continuava parado em Tuiuti, quando
recebe um emissário do ditador paraguaio Solano López, pedindo uma conferência com os
generais aliados. O general Polidoro [comandante brasileiro] recusa-se, terminantemente, a
entrar em negociações com o ditador e insiste pela avançada imediata sobre os fortes de
Curupaiti e Rojas. Entretanto, o general Flores [comandante uruguaio] e Mitre resolvem
tratar com o chefe inimigo. Com efeito, celebra-se a conferência, na qual não toma parte
o general brasileiro. O ditador teve uns lampejos de esperança e pretendeu entrar em
acordo só com os dois generais, mas Flores protestou e Mitre impôs a Lopez que
renunciasse ao poder e se retirasse do Paraguai, condição absoluta de paz, nos termos
firmados pela Tríplice Aliança.
Ficou, assim,
burlada aquela tentativa do tirano e os aliados deliberaram atacar, sem mais demora,
Curupaiti, sendo que, desta vez, Mitre resolveu comandar pessoalmente o ataque [que
ocorreu em 22 de setembro de 1866]. A fortaleza era considerada inexpugnável, não só
pelos grandes recursos de combate de que dispunha, como pelas linhas de trincheiras que
era preciso destruir para chegar até ela. Ao cabo de longas horas de fogo, o general
Mitre manda tocar a retirada. Nesta altura da batalha, os aliados já haviam perdido 4.000
homens, entre mortos e feridos e, ante o recuo, os paraguaios já se consideravam
vitoriosos. Grande desânimo invade os exércitos aliados e se agravam as divergências e
os descontentamentos entre os chefes. O general Flores abandona seu posto e retira-se para
o Uruguai. O almirante Tamandaré também se exonera do comando da esquadra, por
divergências com Mitre. A situação se tornara embaraçosa.
Caxias assume o comando geral
(novembro de 1866)
Enquanto os
aliados sofrem esses reveses, López incendeia os ânimos dos seus, e aumenta suas obras
de defesa. Nas duas repúblicas platinas [Uruguai e Argentina], as condições da
política interna eram muito precárias e dificultavam a ação dos respectivos
governos. Via-se bem que, doravante, o Brasil, sozinho, tinha de sustentar o peso da
campanha. O governo imperial, alarmado ante o curso dos acontecimentos, tomou novas e
enérgicas medidas. Então, o comando em chefe das forças brasileiras foi confiado ao
marquês de Caxias, o qual partiu logo para o teatro da guerra, chegando a Tuiuti em
meados de novembro de 1866. Para substituir o marquês de Tamandaré no comando da
esquadra, foi nomeado o vice-almirante Joaquim José Inácio, Visconde de Inhaúma. As
condições dos exércitos aliados eram penosas. Além das imensas dificuldades que tinham
de vencer numa ofensiva, cujo êxito era cada vez mais custoso, pela morosidade das
operações, a peste lavrava nos acampamentos com intensidade assustadora.
Enfim, ao cabo de
mais de seis meses em que as tropas permaneceram estacionadas em Tuiuti, o marquês de
Caxias, a quem Mitre passara o comando geral, estava preparado para avançar. Em
princípios de julho de 1867, o general Osório, amigo de Caxias, era novamente
incorporado aos exércitos aliados. Com a divisão de Osório, composta de sete mil
homens, o efetivo total subia para quarenta mil soldados. Vencendo obstáculos enormes, o
exército se pôs em marcha sobre Humaitá, e foi fortificar-se em Tuiucué, em frente à
temerosa praça de guerra. É neste momento que Mitre volta de Buenos Aires e reassume o
comando das forças aliadas, encontrando-as em bem melhores condições. Durante todo este
tempo, em que a capacidade de Caxias punha os aliados em condições de fazer uma
avançada segura sobre Humaitá, em Mato Grosso os paraguaios sofriam grandes reveses e
eram expulsos de quase todos os pontos que ocupavam naquela província.
A carnificina da guerra
Em agosto de
1867, os aliados vão rechaçando o inimigo até Pilar e fortificam-se em Tagi, vencendo
incríveis embaraços. A esquadra devia operar, simultaneamente, com as forças de terra.
Subindo o rio com os dez couraçados, o almirante Joaquim Inácio [ao contrário de
Osório, Tamandaré não mais voltou], não obstante a resistência desesperada que
encontrou, conseguiu passar Curupaiti, mas teve de estacar logo acima, como bloqueado
pelas fortificações daquele posto e de Curuçu, que os nossos tinham abandonado. Foi
nessa ocasião que o acampamento de Tuiuti, onde se achava o general Porto Alegre, sofreu
um ataque de surpresa, felizmente sem outras conseqüências além da perda de 800 homens,
entre mortos e feridos. Até o fim de 1867, os aliados continuam diante de Humaitá, sem
conseguir avançar.
[Observe-se a grande mortandade
nas guerras de antigamente. Enquanto, por exemplo, o Brasil perdeu 500 homens na Segunda
Guerra Mundial, já na Guerra do Paraguai, qualquer batalha tinha uma baixa em torno de
4.000 soldados. Neste ataque, Rocha Pombo narra que "não houve outras
consequências, além da perda de 800 homens". Como se fosse coisa de nada...] (Paulo
Victorino).
Logo em
princípios de 1868, o general Mitre, uma vez mais, deixa o comando geral, voltando para
Buenos Aires, onde complicações da política interna reclamavam sua presença. De novo,
o marquês de Caxias assume esse comando. Enfim, no dia 19 de fevereiro de 1868, a nossa
esquadra, combinada com as forças de terra, investe sobre Humaitá e, à custa de
prodígios de heroismo, força o passo e chega a Tagy. Este efeito épico entusiasma os
aliados. No dia 23, alguns navios chegaram a subir o rio até Assunção, alarmando, com
alguns tiros, a capital inimiga. Em fins de março de 1868, o general Argolo se apoderava
das fortificações de Rojas e de Curupaiti e os paraguaios se concentravam no forte de
Humaitá, onde Lopes, antes de se retirar para Tebiquari, deixara forças incumbidas de
resistir até a morte.
Mas quatro meses
se passaram, sem que mudasse a situação dos beligerantes, registrando-se somente
escaramuças, assaltos e tentativas frustradas dos paraguaios contra a nossa esquadra,
ancorada em Tagi. Seria grande imprudência, neste momento, prosseguir a caminho de
Assunção, deixando Humaitá na retaguarda, fortificado como estava. Assím, Osório
tenta tomar de assalto a fortaleza, sem resultados. Afinal, por fins de julho, é evacuada
a tão famosa praça de guerra. Os seus últimos defensores atravessam o rio e refugiam-se
na mata fronteira, onde, alguns dias depois, muitos se rendem. A nossa esquadra domina o
rio até a capital inimiga mas acham imprudente ocupá-la, pelo menos enquanto Lopez
estivesse fortalecido em Tebiquari, onde havia levantado poderosas fortificações em
grande extensão do rio. Além do mais, a cidade de Assunção era uma presa inútil,
porque tinha sido abandonada e estava quase deserta. Lopez, como chefe de legiões
desmanteladas, agora obrigava seu povo a segui-lo, em verdadeira debandada, pelas
florestas e montanhas do interior.
Em fins de agosto
de 1868, os aliados avançam sobre Tebiquari e vão rechaçando os paraguaios. Lopez é
obrigado a levantar acampamento de São Fernando. Ao chegarem nesse ponto, os aliados se
deparam com o espetáculo mais horroroso, que repugna a nossa imaginação. Aos seus
olhos, se desvenda os vestígios da ferocidade de um bárbaro: o campo abandonado
achava-se coberto de cadáveres. Sob o pretexto de que estava havendo uma conspiração
contra o seu poder, Lopez ordenara o sacrifício de 400 homens, entre os mais notáveis
que o tinham servido com lealdade e dedicação. Entre os mortos estavam, por exemplo,
Carrera, ex-ministro de estrangeiros no Estado Oriental e que se refugiara no Paraguai,
quando Flores entrara em Montevideu; estavam o bispo de Assunção, o cônsul português,
o irmão do ditador, Benigno López, seu cunhado Barrios, e até a velha mãe do coronel
Martinez.
Lopez ordenara
essas execuções na véspera de sua partida de São Francisco. E a carnificina continuou
durante a marcha de retirada. Testemunhas irrecusáveis narram os horrores que
presenciaram e asseguram que, sempre que o tirano se retirava, vencido, de um campo de
batalha, fazia punir e martirizar todos os prisioneiros, "poupando apenas aqueles que
preferia levar consigo para continuar o martírio!" Também os oficiais e soldados
que perdiam um combate eram, inexoravelmente, sacrificados, por mais fiéis que tivessem
sido à causa daquela sacrílega tirania.
"Quando as
primeiras notícias de tais carnificinas chegaram à Europa - diz Thomas Fix - ninguém
acreditou nelas: pareciam espantosas, absolutamente contrárias ao conceito até então
formado acerca do caráter heróico de um homem que resistia, sozinho, a luta contra três
nações.
Último capítulo de uma grande
tragédia
Levantando
acampamento geral de São Fernando (no Tebiquari), Lopez fora fortificar-se entre
Angustura e Vileta, a cerca de quinze quilômetros de Assunção. Os aliados avançavam
tanto por terra como pelo rio e, pelo caminho, iam encontrando enormes dificuldades.
Tentam operar uma manobra diversionista pelo noroeste, fingindo ameaçar a capital
inimiga. O ditador, porém, não se preocupa em defender Assunção [que está vazia] e
cuida apenas de mostrar-se forte diante dos exércitos aliados. Todavia, o
próprio marquês de Caxias põe-se à frente de cerca de 10.000 homens, atravessa o rio
Paraguai, sobe esse rio pela margem direita, atravessa de novo para o lado esquerdo e,
então, ataca o inimigo pela retaguarda. Em toda aquela redondeza a luta é firme durante
muitos dias, ficando reduzida a um único e vasto campo de batalha formado por Vileta,
Angustura, Piquiciri e Itororó. Até que a vitória dos aliados obriga Lopez a fugir para
Lomas Valentina..
Esta nova
posição era ligada a Angustura e a outros pontos onde as guarnições paraguaias ainda
resistiam. Estamos, já, em 27 de dezembro de 1868. Ao romper do dia, o general em chefe
[Caxias] ordena o ataque a Lomas Valentina e o inimigo não resiste por muito tempo. Lopez
foge para Cerro León. Três dias depois, Angustura capitulava. Pensou-se então que o
tirano tinha recebido o golpe de morte e os aliados marcham sobre Assunção e, no dia 1
de janeiro de 1869, os aliados entram na capital inimiga. Agora era necessária uma nova
suspensão de armas, para localizar a rota de fuga do ditador vencido, errante nas
montanhas, arrastando consigo toda uma população, fiel e obediente até o martírio e a
morte. O marquês de Caxias e o Visconde de Inhaúma adoecem e são obrigados a abandonar
o campo de batalha. Inhaúma teve seu estado tão agravado que veio a falecer pouco depois
da chegada ao Rio de Janeiro.
Para substituir o
marquês de Caxias, o governo imperial nomeou o príncipe Gaston de Orleans, conde
DÉu [casado com a princesa Isabel), o qual assume em 16 de abril de 1869, cuidando
de reorganizar as forças para perseguir o inimigo nas cordilheiras do interior. Lopez
aproveitou-se dessa pausa, dada involuntariamente pelos aliados, para construir
fortificações e formar novo exército numa extensa planície ao leste de Assunção,
afastando-se de Cerro León e, em seguida, de Vila Rica, seguindo para o norte até
Ascurra e fazendo de Peribebui a sua nova capital.
Em fins de julho,
começam as operações aliadas contra aquele reduto onde Lopez, desesperado, concentrara
os seus últimos recursos. Enquanto as forças aliadas perseguiam, no interior, as
legiões dizimadas de Lopez, em Assunção, tratava-se de organizar um governo
provisório, sob as inspirações de nosso plenipotenciário, José Maria da Silva
Paranhos, visconde do Rio Branco. A população de todos os pontos que já estavam livres
da tirania elegeu Diaz de Bedoya, Cirilo Rivarola e Carlos Loixaga para constituirem a
Junta de Governo do Paraguai, que foi solenemente instalada em 15 de agosto de 1869.
Enquanto esses
acontecimentos se passavam em Assunção, no campo de guerra o Conde D'Eu atacava
Peribebuí, tomando-a de assalto em 12 de agosto de 1869, após o que os aliados marcharam
sobre Caacupê e, em seguida, sobre Ascurra. Uma divisão de 8.500 homens, incumbida de
cortar a retirada de Lopez pelo norte chegara tarde para impedir a fuga do tirano.
Lopez,
destroçado e fugitivo, com o resto dos seus fiéis, vai fortificar-se em Caraguataí,
pretendendo, por sua vez, tolher o passo dos aliados. Durante muitos dias, travou-se um
combate contínuo junto ao rio Iagari. e diante do forte de Campo Grande, levando os
paraguaios ao desespero. Então, Lopez procurou refúgio no sertão, entre os índios. De
Estanislau, o tirano vai para S. Isidro, onde tenta defender-se. Para lá vai também, em
sua perseguição, o conde D'Eu, enquanto o general Câmara vai operar ao norte de
Jejuí. De S. Isidro, o ditador acossado estaciona em Iguatemi, de onde tem de fugir logo
para Panadero. E dali se internou, outra vez, pela serra do Maracaju, talvez com o intento
de fugir para a Bolívia, passando por Mato Grosso. Teve, porém, de mudar de plano.
Desceu de Maracaju para as margens do rio Paraguai e apoderou-se de Conceição. Dali, é
perseguido, fugindo para Aquidabã, onde é alcançado pelo general Câmara e intimado a
se entregar. Lopez, já ferido e completamente exausto, ainda assim resiste, e tem um
gesto hostil contra o soldado que o quer prender. Foi, então, morto.
Terminara, assim, essa tremenda guerra, que durou cinco anos, conseqüência da loucura de
um só homem, a cujas veleidades de mando e a cujo instinto sanguinário se sacrificou
todo um povo, e se pôs em risco a paz entre as nações.
Ressurgimento
Nacional
O fim da guerra do
Paraguai marca uma nova era em nossa história. Livres das aflições daquela dolorosa
campanha, começamos agora a encarar, com mais coragem, o nosso destino. A vitória das
armas brasileiras no exterior nos deu um sentimento mais vivo da própria força e valeu
um grande prestígio para a monarquia, parecendo, mesmo, que ela havia se firmado
definitivamente nesta parte da América. Regularizou-se a vida constitucional do país. As
reformas liberais já se faziam sem grandes abalos e com lógica, como se a legislatura
não fizesse mais do que ir fixando como direito as tendências e injunções do espírito
nacional.
|
|