ÉPOCA DE FORMAÇÃO
PRIMEIRO PERÍODO: 1816-1826
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ADENDO
Folha de S. Paulo - 22 de março de 2008.
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Estudo ataca mito da missão francesa

Em "O Sol do Brasil", de Lilia Moritz Schwarcz, trajetória do pintor Taunay
evidencia que artistas não foram recrutados

Resultado de oito anos de trabalho, livro mostra que grupo francês
teria se autoconvidado para vir ao país na corte de dom João 6º

MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCAL

A discussão não é nova. Em 1957, o crítico Mario Pedrosa já investia contra o confortável conceito de uma missão francesa oficial que teria trazido para a corte de dom João 6º artistas como Debret, Nicolas-Antoine Taunay e Grandjean de Montigny. Agora, reunindo o trabalho acumulado de pesquisadores e acrescentando novos documentos, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz pretende derrubar definitivamente um dos mitos fundadores do Brasil.
Nunca houve a famosa "Missão Francesa".
Encerrando oito anos de trabalho, Schwarcz lança "O Sol do Brasil", minucioso estudo sobre a difícil e mal compreendida passagem da colônia de artistas franceses pelo Brasil joanino, tendo como fio condutor a biografia do maior pintor do grupo: Nicolas-Antoine Taunay (se você pensou em Debret, se enganou).
Taunay e outros artistas se autoconvidaram, não foram recrutados, e esse é apenas um dos mal-entendidos que cercaram esse grupo organizado pelo influente Joachim Lebreton, dirigente da academia de artes francesa.
Ele, como os outros membros da comunidade que registrou em imagens as glórias francesas no período, caiu em desgraça e fugia das perseguições que se seguiram à queda de Napoleão.

Trópicos difíceis
Schwarcz procura explicar os "trópicos difíceis" de Taunay. Ela demonstra que a expressão "missão" só foi introduzida em 1916 por Afonso Taunay (bisneto do pintor) e faz um minucioso levantamento do fascínio que o Brasil "edênico" exerceu desde o século 16.
Além do interesse econômico, a força do imaginário paradisíaco levou os franceses a duas tentativas frustradas de colonização (a França Antártica no Rio e a França Equinocial no Maranhão).
Moldados na França revolucionária, preparados para a arte a serviço do Estado, os artistas que evitavam a crise durante a Restauração (dos Bourbons) se defrontaram no Brasil com uma sociedade iletrada e de relações precárias, marcada pela escravidão.
Taunay, o veterano e mais reputado do grupo, já na faixa dos 60 anos quando aqui chegou em 1816, viu além disso ser frustrada sua expectativa de dirigir uma futura academia de belas-artes.
Paisagista refinado, o artista introduziu com ironia pequenas figuras do cotidiano que faziam o contraponto a um lugar idealizado. Sempre se sentiu torturado com a escravidão. Também com ironia se retratou em alguns quadros como um pequeno personagem.
"Ele é um rousseauniano, trabalha com a idéia de que a natureza civiliza, o que vai emplacar no Segundo Reinado", diz Schwarcz, autora de "As Barbas do Imperador" (Prêmio Jabuti de melhor ensaio em 1999). "Taunay leu todo o pensamento ilustrado e todos os viajantes. Mas se desanima totalmente. É um pintor que representa um drama, carrega um paradoxo", afirma.

O velho e o novo mundo
O livro pretende mostrar que o artista desenvolveu alegoricamente o diálogo entre o velho e o novo mundo, foi uma figura ambígua que encarnou uma certa incompreensão entre os dois universos.
"Como o Frans Post, ele mostra os escravos de maneira diminuta. Por mais que seja uma imagem pacífica, ele cria nos detalhes pequenas subversões da hierarquia", afirma a autora.
No Brasil, Taunay tentou adaptar a paisagem tropical aos seus códigos forjados no neoclassicismo, na tradição paisagística e na sua passagem como pensionista em Roma. Nunca se desligou da França e mandava suas pinturas aos salões oficiais. Mas os trópicos de Taunay não foram bem compreendidos na Europa.
Quando voltou ao seu país (em 1821), o romantismo estava em ascensão, e novamente Taunay ficou deslocado, ainda que tenha se reintegrado à academia, da qual de fato nunca se desvinculou.
Foi com a sua família, curiosamente, que ele cumpriu sua missão no Brasil. Quatro filhos permanecerem e deixaram descendentes (como o o já citado historiador Afonso Taunay). Um dos filhos, Félix, acabou ocupando cargo proeminente na Academia Imperial de Belas Artes.
Outro deles, Adrien, foi desenhista e ocupou importante papel na iconografia deixada pela expedição Langsdorff, nos anos 1820, antes de morrer afogado.

O SOL DO BRASIL
Autora:
Lilia Moritz Schwarcz
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 55 (400 págs.)


Folha de S. Paulo - 22 de março de 2008.

Taunay foi melhor pintor que Debret, diz especialista

Autora do catálogo raisonné de Taunay, Jouve discorda,
no entanto, da tese de inexistência de uma missão francesa

Especialista diz que dificilmente os franceses teriam vindo ao Brasil
sem autorização de d. João e que Taunay foi "pintor-filósofo"

DA REPORTAGEM LOCAL

É possível que a polêmica sobre a "lenda" da missão francesa continue e que "O Sol do Brasil", de Lilia Schwarcz, não encerre o assunto. Mas sobre a superioridade de Taunay há pouca dúvida. Ao menos se depender da francesa Claudine Lebrun Jouve, autora do catálogo raisonné "Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830)". Ela foi integrante da "comissão de autenticação" que analisou trabalhos de Debret no recém-lançado "Debret e o Brasil: Obra Completa -1816-1831".
Em entrevista, a pesquisadora diz que o papel de Debret foi importante como documentarista do Brasil, por meio de suas aquarelas. E afirma que dificilmente os franceses teriam vindo ao Brasil sem autorização de dom João 6º. (MARCOS STRECKER)
 
FOLHA - Qual foi o papel de Taunay na colônia de artistas franceses que vieram ao Brasil?
CLAUDINE LEBRUN JOUVE -
Taunay não se submetia, como fez Debret, às exigências da corte. Debret obteve encomendas dos quadros oficiais. Taunay recebeu poucas encomendas, de retratos. Taunay pintava para si aquilo que o agradava: a natureza, da forma como ele a havia imaginado, como leitor devotado de Jean-Jacques Rousseau. Ele descreve em suas cartas o quanto ficava desolado (ele se sentia transportado a um período anterior à Revolução Francesa, 30 anos atrás), com o que encontrava nas bibliotecas do Brasil, repletas de livros religiosos. Sentia falta de Paris, dos salões, do espírito democrático.

FOLHA - Como se pode comparar a obra de Debret e a de Taunay?
JOUVE -
Debret é muito conhecido por suas aquarelas, que são documentos preciosos sobre a vida no Rio no começo do século 19. Mas seus quadros são irregulares, e Taunay foi um pintor melhor. Taunay foi um "pintor-filósofo", que introduzia algumas fábulas morais em suas obras, que sempre davam um significado a elas. Ele não podia se permitir críticas, mas pintava com eqüidade índios, brancos e negros.

FOLHA - Quem é mais reputado atualmente?
JOUVE -
É difícil dizer. Na França, Taunay. Mas no Brasil é Debret, porque ele proporciona um testemunho maravilhoso, que foi difundido pela gravura, sobre a vida do Brasil nos anos 1816-1830. Pena que Taunay tenha morrido tão jovem. As suas aquarelas tinham uma maravilhosa qualidade documental e grande talento artístico.

FOLHA - Lilia Schwarcz demonstra em seu livro que não houve uma "missão oficial" de artistas franceses. A senhora concorda?
JOUVE -
Acho difícil imaginar, naquela época, que ministros tenham tomado sozinhos uma decisão tão importante. É impossível em uma corte tão tradicional que a decisão tenha sido tomada sem o acordo do rei. Há uma hierarquia que cada um devia respeitar.

FOLHA - Qual é a importância da viagem ao Brasil para Taunay?
JOUVE -
Foi uma necessidade de exílio político. A morte precoce do protetor da missão [o conde da Barca] e a do diretor da missão [Joachim Lebreton] permitiram ao partido português [sob influência inglesa] retomar a direção da Academia. Taunay, decepcionado, retornou à França. Ele não mudou seu estilo ao trabalhar no Brasil. Mas, de volta à França, suas paisagens européias se tornaram mais exuberantes, invadidas por uma vegetação viva.

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