«Embarcando para Paris,
fiz o sacrifício, imposto pelas minhas condições de pensionato, de matricular-me na
Academia Julian, onde apenas estudei seis meses. Não tive mais paciência para suportar
aquela severa disciplina, a que nove anos de Escola me acostumaram, passivamente.
Revoltei-me com o ambiente, com os processos, com os artistas e tratei de fundar em Paris
o meu ateliê, onde trabalhei durante os cinco anos que lá permaneci. Os meus envios
obtiveram sempre reclamações da Congregação e os pareceres dados sobre eles observavam
o meu afastamento dos moldes consagrados pela orientação da Escola.»
Deixando os velhos
ensinamentos de seu mestre na Academia Julian, Adolphe Déchenaud, Cavalleiro abandonou
pouco a pouco a sua maneira inicial impressionista por uma arte mais construída e
pensada: não mais as sutilezas cromáticas ou atmosféricas, porém a procura de uma
solidez estrutural baseada em Cézanne, um artista que exerceu sobre o jovem brasileiro
extraordinário fascínio, em começos da década de 1920.
Do período que vai de
1923 ao fim do seu estágio em França datam obras importantes, como Vestido Rosa, ainda
impressionista, Nu diante do Espelho e Mimi o Modelo, telas essas que, no dizer do
próprio Cavalleiro, "já revelam tendências no sentido de volumes e valores tonais,
segundo o princípio de Cézanne".
Expondo em 1924 na
Société Nationale des Beaux Arts, Cavalleiro tem seu trabalho aproximado de Kees Van
Dongen pelo crítico do Le Journal - aproximação pertinente, porquanto certos elementos
fauves e expressionistas revelavam-se na pintura do brasileiro.
Retomando em 1925, o
pintor realizou duas individuais, no Rio e em São Paulo, encontrando nessa última
"uma elite artística mais avançada nas teorias modernas, que soube dar melhor
aceitação à minha maneira de sentir e pintar". Menotti del Picchia gabou-lhe, por
exemplo, "a construção sólida, a plasmação de volumes realizados por linhas mais
precisas e massas de cor mais sintéticas", enquanto no Rio, Virgílio Maurício
disse de sua obra ser "original e pessoal demais em um meio onde só se admiram as
cópias fotográficas da natureza".
É de 1926 uma bela
têmpera, Juventude, representando uma ruptura no caminho do artista. Trata-se de duas
figuras femininas, uma desnuda, a outra amparando na mão uma pomba de asas abertas. Toda
a composição, muito estilizada, obedece aos postulados do Art Déco, então em voga na
Europa e, através de John Graz e sobretudo Brecheret, também no Brasil.
Em 1927 era-lhe
concedida no Salão a medalha de ouro; logo depois, em 1930, por curto tempo retornaria à
Europa, para estudar arte decorativa. Cabe aqui um parêntese sobre sua intensa atividade
como ilustrador e caricaturista, iniciada em 1906 em O Malho, com colaborações
posteriores em Fon-Fon, A Manhã, O Teatro, O Jornal, Ilustração Brasileira e, após
1929, O Cruzeiro.
Por volta de 1940 a arte
de Henrique Cavalleiro exibe revitalização, caracterizada por acentuada busca de textura
pictórica e um sentimento passional da cor. É o momento das paisagens de Teresópolis,
dos nus e figuras construídos mediante uma matéria ricamente expressiva, com larga
utilização de cores truculentas, entre as quais se destacam os violetas e os azuis, os
amarelos e os laranjas, os verdes, os vermelhos.
Professor da Escola
Nacional de Belas-Artes desde 1938 até jubilar-se em 1962, coube a Cavalleiro orientar
grande número de alunos, entre eles Martinho de Haro, Roberto Burle-Marx e Ubi Bava, bem
como, mais recentemente, Júlio Vieira e Píndaro Castelo Branco, demonstrando, a
amplidão desse espectro, a largueza de sua orientação.
Cavalleiro, que era
casado com a pintora Yvonne Visconti Cavalleiro, faleceu a 26 de agosto de 1975, poucos
dias após a abertura de sua grande retrospectiva no Museu Nacional de Belas Artes. No
curto depoimento que escreveu para essa mostra, o velho artista deixou aliás grafadas
essas frases, que se revelariam tristemente proféticas:
«Finalmente, farei aqui
uma referência toda especial ao meu querido Marques Júnior, que nunca me saiu nem me
sairá da memória. Figura excelsa de artista, professor emérito, esse inesquecível
amigo foi para mim um guia, um animador que me ajudava a vencer dificuldades, tão
freqüentes na vida do artista. Recordando-o com emoção, encerro este trabalho, citando
reverentemente o seu nome. Até breve, Marques Júnior!»