A pintura de fra Angelico surpreende tanto por sua qualidade
técnica quanto pela profunda devoção que a inspira.
"Excelente pintor e miniaturista, e
ótimo religioso, ele merece, por ambas as razões, que dele se tenha uma honorável
memória", escreveu Giorgio Vasari.
Pintor italiano, Giovanni da Fiesole, dito
também fra Giovanni, nasceu em Vicchio, aldeia de Mugello, em 1387. Seu nome verdadeiro
pode ter sido Guido ou Guidolino "da Pietro" (isto é, filho de Pedro).
A beleza de sua pintura e a santidade de sua
vida granjearam-lhe o cognome de fra Angelico (ou irmão angélico). Aos vinte anos
ingressou no convento dominicano de Fiesole.
A vocação artística é tardia: o
"Retábulo dos Linaioli", primeira de suas obras assinadas, é de 1433. Tem-se
hoje como certo que estudou a arte da iluminura com Lorenzo Monaco.
Quando os Medici cederam aos dominicanos, em
1436, o convento de São Marcos em Florença, fra Angelico participou das obras de
readaptação, efetuadas sob a chefia do arquiteto Michelozzo, pintando
nas celas afrescos de cenas do Evangelho.
O papa Eugênio V chamou-o a Roma logo depois,
para que pintasse os afrescos da capela do Santíssimo Sacramento, hoje destruídos.
Em sua primeira viagem a Roma, fra Angelico
deve ter encontrado o pintor francês Jean Fouquet,
cujo estilo se assemelha ao seu. Contemporâneo de Ghiberti, Brunelleschi e Donatello, era mais
moço que Masaccio, cujos afrescos da capela Brancacci, no dizer de Vasari,
estudou com minúcia.
Tecnicamente pode ser considerado um pintor da
primeira Renascença; do ponto de vista espiritual, contudo, é um filho da Idade Média.
Esse artista, que o povo denominou Beato sem que a igreja ratificasse o título, buscou em
suas obras prolongar o ideal religioso dos séculos anteriores, já abalado pelo
aparecimento dos primeiros humanistas.
Entre suas obras principais estão o
"Retábulo da Madona", em Perugia; a "Coroação da Virgem cercada por
anjos músicos" (Louvre, Paris); o "Cristo cercado de anjos, patriarcas, santos
e mártires" (National Gallery, Londres); a "Anunciação" (Prado, Madri);
e o "Juízo final" (Galeria Nacional, Roma).
Quem quiser penetrar no âmago da pintura de
fra Angelico deve visitar o convento de São Marcos em Florença, hoje museu; ali verá,
além das cenas religiosas executadas num período de 17 anos nas diversas celas e a
"Grande Anunciação", outras vinte obras do artista, ilustrações de trechos
do Evangelho e de episódios da Legenda áurea.
Nomeado prior de Fiesole, fra Angelico foi
novamente chamado a Roma, por Nicolau V, onde veio a falecer em 18 de fevereiro de 1455. O
papa compôs-lhe o epitáfio, em quatro versos latinos, e mandou que o gravassem numa
simples lápide -- homenagem à modéstia do pintor.