CAPÍTULO TRÊS
O PRESIDENTE ESTADISTA
GOVERNO DE CASTELO BRANCO
Uma vez vitorioso o movimento militar de 1964, com a retirada do presidente João Goulart
para Porto Alegre e, depois, para o Uruguai, foi empossado em seu lugar o presidente da
Câmara Federal, Ranieri Mazzili que, ao contrário da rainha da Inglaterra, nem reinava,
nem governava, cabendo-lhe apenas dar uma aparência de legalidade à transição.
Enquanto Mazzili
aproveitava o ar condicionado do Palácio do Planalto, as decisões iam sendo tomadas no
ambiente quente do edifício do Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, onde o general
Artur da Costa e Silva, autonomeado ministro da Guerra, comandava uma Junta Militar
Revolucionária formada por ele, pelo novo ministro da Marinha, almirante Augusto
Rademaker e pelo novo ministro da Aeronáutica, Correia de Melo.
A mais importante de
todas as medidas foi a assinatura do Ato Institucional (até então sem número, pois
deveria ser o único) que concedia poderes revolucionários à Junta, sobrepondo-os aos da
própria Constituição em vigor. Esse ato, publicado em 9 de abril de 1964, deu margem a
que, no dia 10, fossem cassados os mandatos de 40 parlamentares que faziam oposição à
nova ordem. Aberto assim o caminho, no dia 11, o Congresso Nacional elegeu o general
Humberto de Alencar Castelo Branco presidente da República, com o político mineiro José
Maria Alkmin como vice-Presidente. Ambos tomaram posse no dia 15, no recinto do Congresso,
iniciando-se uma nova fase da vida nacional.
Castelo Branco era o
presidente certo, no momento certo. Apresentava-se como rígido militar mas, mesmo sem
nunca ter participado da vida pública, demonstrava ter profunda vivência política. Era,
pois, a um só tempo, militar e estadista. Tinha ideais democráticos e sua presença no
governo surgia como uma suposta garantia à realização de eleições livres e diretas em
3 de outubro de 1965, conforme calendário, restabelecendo com elas (se tivessem
acontecido) a normalidade constitucional no país.
Sua vocação liberal
foi, entretanto, freada, por ser ele um mandatário do Sistema, representante que era de
um movimento militar bem sucedido e que assumiu o poder conjuntamente, tanto que a Junta
Revolucionária fora, toda ela, tranplantada em seu ministério.
A primeira decepção do
novo Presidente foi ter de engolir, meses depois, a prorrogação de seu mandato até
1967. Sua maior contrariedade, todavia, foi ter de assinar o Ato Institucional nº2. Num
primeiro momento, recusou-se a fazê-lo, o que provocou um desabafo do jurista Francisco
Campos ao seu conterrâneo, o vice-Presidente José Maria Alkmin: "Ai, minha Nossa
Senhora, ele pensa que é civil e foi eleito!"
Entre a espada
e a Constituição
Em verdade, esse
tornou-se o grande drama de Castelo Branco: não era, como o presidente Dutra, um general
exercendo o poder civil. Estava ali como militar, representando as Forças Armadas, que
ganharam uma revolução. Não fora eleito legitimamente, em pleito aberto, mas chegara ao
cargo por eleição indireta, sob a garantia de um Ato Institucional que valia por uma
dúzia de constituições. E tinha, atrás de si, a presença nada invisível do poder
político-militar que assumira de fato o governo e nele permaneceria nos próximos 21
anos, adaptando a legislação, casuisticamente, com uma série de Atos Institucionais,
seguidos, cada um deles, por uma enxurrada de Atos Complementares que cuidavam de dar
"sintonia fina" às medidas de exceção.
Como conseqüência,
poucos se lembram das reformas de base realizadas em seu governo e que colocaram o país,
novamente, no caminho do desenvolvimento. E, primeiro que tudo, cuidou ele de restabelecer
o respeito devido à instituição da Presidência da República, desmoralizada no governo
Goulart.
No mais, entre outras
obras, cuidou de restaurar a situação econômico-financeira que vinha se deteriorando
desde o governo Vargas, garantindo com isso a credibilidade do Brasil no exterior e
permitindo novos aportes de capitais, necessários para o crescimento do país.
Em seu ramo específico,
cuidou da reforma das Forças Armadas, refazendo a arcaica estrutura administrativa das
três forças e eliminando querelas e ciúmes entre elas. Aliás, pessoalmente, Castelo
defendia a criação de um Ministério da Defesa, englobando Exército, Marinha e
Aeronáutica, o que não pôde ser ao menos cogitado em seu mandato, pela excepcionalidade
primeiro governo; os que lhe sucederam, não se interessaram no assunto, preocupados que
estavam em estratificar o poder do Estado sobre a Nação.
Na reforma fiscal e
tributária, Castelo eliminou os velhos impostos que emperravam a máquina, a maioria
deles em cascata, substituindo-os por um sistema moderno e eficiente de arrecadação. Foi
dessa época, também, a criação do CGC e do CPF para a identificação e controle do
contribuinte.
No campo, promoveu uma
reforma agrícola (não agrária), garantindo a estabilidade da produção, permitindo o
aumento das exportações, e acabando com as sucessivas crises de abastecimento do mercado
interno.
Tudo isso, é preciso que
se diga, se fez em meio a intenso diálogo dentro do ministério e junto às classes
produtoras; um diálogo ao qual não faltou a imprensa que, durante o período de Castelo
Branco, não sofreu qualquer censura, manifestando-se de forma ampla e irrestrita, até
mesmo acintosamente. Os mesmos jornais que haviam participado do movimento
revolucionário, como a Tribuna de Imprensa, o Correio da Manhã e "O Estado de São
Paulo" abriam suas baterias contra o poder central, atingindo violentamente o
presidente da República.
A História, cujos
contornos o tempo vai clareando, um dia lhe fará justiça, expurgando de sua biografia os
atos revolucionários e trazendo à luz os atos efetivos de governo.
Ah, mais uma coisa: a
cidade do Rio de Janeiro continuava a ser a capital virtual do Brasil. O Palácio do
Planalto, em Brasilia, dava para o gasto do dia-a-dia, mas os grandes assuntos e as
grandes resoluções aconteciam mesmo no Palácio das Laranjeiras, na Guanabara, obrigando
o presidente a viajar, continuamente, de um ponto a outro.
Quem era
Castelo Branco
Humberto de Alencar Castelo Branco nasceu em Fortaleza-CE, em 20 de setembro de 1897,
filho do general Cândido Borges Castelo Branco, e de dona Antonieta Alencar Castelo
Branco. Por parte da mãe, era, pois, descendente do romancista José de Alencar. Por
parte do pai, vinha de uma linhagem a que pertencia, por exemplo, a escritora Raquel de
Queirós.
Passou a primeira
infância no interior de seu Estado e, aos 8 anos, foi enviado a estudar em Recife. Como
não conseguisse acompanhar a classe (seu professor o considerava um retardado), sua mãe
trouxe-o de volta ao Ceará, ficando, então, aos cuidados das irmãs Vicentinas, que lhe
proporcionaram os primeiros conhecimentos.
Aos 14 anos seguiu para
Porto Alegre, longe da família, matriculando-se na Escola Militar. Era filho de general,
mas era pobre, e sua idade no registro foi adulterada para 12 anos, a fim de garantir a
gratuidade do ensino. Lá teve como companheiros Juarez Távora, Riograndino Kruel, Amauri
Kruel, Ademar de Queirós, Artur da Costa e Silva e outros que o acompanhariam na carreira
até os postos mais altos do Exército.
Formou-se oficial na
Escola Militar do Realengo (Rio de Janeiro), cursando em seguida a Escola de Comando do
Estado Maior do Exército, a Escola Superior de Guerra da França (o treinamento militar
brasileiro estava conveniado com os franceses) e, finalmente, a Escola de Comando e
Estado-Maior dos Estados Unidos.
Em 6 de fevereiro de 1922
casou-se com dona Argentina Viana, irmã do historiador Hélio Viana, com quem teve dois
filhos: Antonieta (o mesmo nome da avó, que falecera dois meses antes) e Paulo. O
casamento trouxe à mostra o lado profundamente sentimental de Castelo. Dona Argentina foi
o grande elo de sua vida: acompanhava-o, quando possível, a operações de campanha; na
Segunda Guerra Mundial, separados pelo grande oceano, tornou-se a inspiradora de uma
série de cartas nas quais o então tenente-coronel, livre da censura, derramava seus
comentários a respeito da guerra e dos que se achavam à sua volta.
Argentina Viana Castelo
Branco morreu em 1963, quando o general era comandante do 4º Exército, em
Recife. Tornou-se, então, a imagem que lhe seguiria os passos inspirando-o nas decisões.
Enquanto Presidente, sua filha fez-lhe as vezes de primeira-dama, mas a presença
espiritual da esposa serviu para humanizar o velho militar, tornando menos duros os atos
punitivos e incentivando-o no objetivo, afinal frustrado, de restabelecer a democracia
até o término de seu governo.
Ao assumir a
Presidência, o general Castelo Branco passou para a reserva, recebendo em conseqüência
o título de marechal, o que, na época, acontecia automaticamente. Ele mesmo eliminou
essa prática, que chamava ironicamente de "título de pensão", já que a
finalidade maior era a de aumentar o soldo do militar. Mas, antes de eliminar a regalia,
garantiu essa promoção ao general Costa e Silva, que estava vencendo seu tempo para cair
na compulsória.
O Ministério
Empossado
o Presidente em 15 de abril de 1964, a Junta Militar foi incorporada ao governo, surgindo
então os três primeiros nomes do ministério: Guerra, Artur da Costa e Silva; Marinha,
Augusto Hamann Rademaker Grünewald; Aeronáutica, Francisco de Assis Correia de Melo. Este último, em 1931, fora
o primeiro brasileiro a cruzar o Atlântico num avião militar.
Embora alguns outros
militares viessem a ocupar cargos civis, no conjunto, o ministério era essencialmente
técnico, embora considerado por alguns (e até por Carlos Lacerda) um pouco conservador.
Os
outros postos foram assim distribuídos: Relações Exteriores, Vasco Tristão
Leitão da Cunha, substituído, seguidas vezes, por Antônio Borges Castelo Branco Filho; Fazenda,
Otávio Gouveia de Bulhões, substituído na interinidade por Roberto de Oliveira Campos; Agricultura,
Oscar Thompson Filho, substituído mais tarde por Hugo de Almeida Leme, Ney Amintas de
Barros Braga e Severo Fagundes Gomes; Viação
e Obras Públicas, Juarez do Nascimento Fernandes
Távora; Planejamento e Coordenação, Roberto de Oliveira Campos; Educação e Cultura, Flávio Suplicy
de Lacerda, depois, Raimundo de Castro Moniz de Aragão (interino), Pedro Aleixo e
Guilherme Augusto Canedo de Magalhães (interino);
Saúde, Vasco
Tristão Leitão da Cunha, que logo entregou o cargo a Raimundo de Moura Brito; Indústria e Comércio, Daniel Agostinho Faraco, substituido mais tarde por Paulo Egídio Martins; Minas e Energia, Mauro Thibau; Trabalho, Arnaldo Lopes Sussekind, depois, Moacir Veloso Cardoso de
Oliveira (interino), Walter Perachi Barcelos, Paulo Egídio Martins (interino) e Luiz
Gonzaga do Nascimento e Silva; Justiça, Milton Soares Campos, depois, Luís Viana Filho (interino),
Juracy Montenegro Magalhães, Mem de Sá, e Carlos Medeiros da Silva.
Assumiu a
Casa Civil Luís Viana Filho que, na prática, tornou-se secretário particular do
Presidente, reunindo anotações que mais tarde lhe permitiram fazer a biografia de
Castelo Branco. Na Casa Militar, ficou o general Ernesto Geisel.
Criou-se, também, o
Ministério Extraordinário da Coordenação dos Organismos Regionais (Mecor) que mais
tarde ganharia importância fundamental, transformando-se no Ministério do Interior. Sua chefia foi
entregue ao marechal Cordeiro de Farias que, já ao final de governo, renunciou, sendo
substituído por João Gonçalves.
A intensa troca de nomes
nos vários ministérios dá idéia da turbulência nos três anos de governo. Também
houve mudanças nos ministérios militares, assunto que será tratado no momento oportuno.
Varre,
vassourinha
O Ato Institucional em
vigor desde 9 de abril de 1964 abriu uma temporada de 60 dias para a cassação de
mandatos e suspensão de direitos políticos, estes últimos pelo prazo de 10 anos. Logo
no dia seguinte, experimentando a ferramenta, a Junta Militar suspendeu os direitos
políticos de Jânio Quadros, João Goulart e Luís Carlos Prestes; em seguida, foram-se
mais 40 parlamentares da oposição, abrindo caminho para a eleição do Presidente.
Até o último dia
do prazo, cerca de 400 nomes foram atingidos pelo Ato. Ao contrário do que se pode
pensar, foi uma pechincha. Poderiam ter sido 4.000 ou 40.000, tamanha a quantidade de
"listões" que chegavam de todos os lados, sugerindo nomes para a degola. O
exame detalhado dessas listas evitou uma enormidade de injustiças, mas não todas elas.
Para se ter uma idéia do
frenesi existente nos meios revolucionários, basta lembrar que, entre os nomes sugeridos
para cassação, figuravam os de Afonso Arinos, um dos principais líderes da UDN, partido
do governo; do jurista Santiago Dantas, com inequívocos serviços prestados ao país; de
Hermes Lima, o último chefe de Gabinete do Parlamentarismo; do jurista Evandro Lins e
Silva; do jornalista Carlos Heitor Cony, que ousava criticar o governo; e até do
industrial José Ermírio de Morais, evidente defensor do capitalismo e de cuja
dedicação à empresa privada ninguém poderia duvidar... Todos foram poupados.
Pior do que fazer uma
revolução é controlar, depois, o ímpeto dos revolucionários em garantir a própria
sobrevivência, afastando de sua volta aqueles que possam lhes fazer sombra. Com raras
exceções, esse controle foi exercido.
Ah,
"Minas Gerais" !
Uma
das pendências que, desde o princípio, tumultuou o governo foi o caso da aviação
embarcada, que tomou vulto após a compra, por Juscelino Kubitschek, do porta-aviões
Minas Gerais.
O frágil
"14-Bis" de Santos Dumont, que foi ao ar em 1904, e o "Demoiselle",
que subiu pouco tempo depois, tiveram seguidos aperfeiçoamentos e, em 1910, já era
possível contar-se com aviões de guerra, incipientes ainda, mas que já representavam
uma promessa como arma de ataque. O Brasil comprou alguns aparelhos, anexou-os ao
Exército e, na Guerra do Contestado (1912-1916), pôde testar sua eficiência, abrindo
espaço no campo inimigo para o avanço, por terra, das tropas legalistas. A Marinha
também comprou alguns aparelhos, que ficaram subordinados a ela. Não eram uma força
independente, mas simples acessórios às duas Armas.
Após a Segunda Guerra,
com o advento do helicóptero, a Marinha passou a adquirir esse tipo de aparelhos, mais
adequados a manobras conjuntas com navios de guerra. Só que, a essa época, já existia
uma arma específica para cuidar do espaço aéreo, a FAB, subordinada ao Ministério da
Aeronáutica, criado no governo Getúlio Vargas (1930-1945). Passaram a registrar-se,
então, conflitos esporádicos entre as armas da Marinha e da Aeronáutica, ainda que sem
maiores conseqüencias.
Foi no governo de
Juscelino Kubitschek (1956-1961) que surgiu o grande ponto de atrito, com a aquisição do
porta-aviões Minas Gerais, tendo como objetivo aproximar Aeronáutica e Marinha em
operações conjuntas. O efeito foi o oposto, gerando graves discussões sobre o comando
de tais operações, já que não se tratava de aviação comum, mas de aviação
embarcada.
O problema foi sendo
empurrado com a barriga por JK, Jânio e Jango, vindo a perturbar a paz do presidente
Castelo Branco, que decidiu colocar um ponto final na disputa, chamando para si a
responsabilidade pela solução do conflito. Precisava fazê-lo, e sem demora, pois um
grave incidente acabava de ocorrer em Tramandaí (Rio Grande do Sul), onde a base da FAB
abateu um helicóptero da Marinha em pleno vôo, criando um estado de guerra entre as duas
armas.
Em agosto de 1964,
aproximando-se a data de início da Operação Unitas (treinamento conjunto de militares
de paises panamericanos), Castelo Branco decide que o comando de operações embarcadas
ficará a cargo da Marinha, mas somente com aeronaves da FAB. O ministro da Aeronáutica,
brigadeiro Nelson Lavanére-Wanderley, sucessor de Correia de Melo, demite-se, sendo
substituído pelo brigadeiro Márcio de Sousa Melo.
No início das
operações de treinamento, a FAB constatou a presença de helicópteros da Marinha no
porta-aviões Minas Gerais e, como o comandante se recusasse a retirá-los, o fato
originou outra crise entre as duas armas, provocando a renúncia do novo ministro da
Aeronáutica, brigadeiro Souza Melo. Em consideração ao presidente da República, já
que ninguém mais queria substituir o demissionário, assumiu o Ministério o próprio
brigadeiro Eduardo Gomes, nome legendário nas Forças Armadas, contra quem ninguém
ousaria fazer oposição.
Orientado por Eduardo
Gomes, o presidente retoma a idéia de um comando misto nas operações conjuntas de
Marinha e Aeronáutica. Desta vez, quem se demite é o ministro da Marinha, nesta altura o
almirante Melo Batista. Em 14 de janeiro de 1965 assume o posto o almirante Paulo
Bozísio.
Finalmente, chega-se a um
consenso nos dois ministérios. O comando do porta-aviões Minas Gerais, em sua
totalidade, incluindo os helicópteros da Marinha, fica sob a responsabilidade desta. Os
aviões, operados pela FAB ficam sob o comando da Aeronáutica, em sintonia com o comando
da Marinha.
E foi assim que o Brasil
pode participar, em harmonia, da operação UNITAS. E todos viveram felizes para sempre.
Soa o sinal
de alarme
Contrariando o pensamento do presidente Castelo Branco, já em julho de 1964 o mandato
presidencial foi prorrogado até 1967, jogando por terra as promessas, feitas a líderes
civis da Revolução, de que em 1965 um novo presidente seria escolhido, dentro do
calendário e por eleições diretas.
Para compensar, o Sistema
que controlava o poder permitiu que se realizassem, na forma da Constituição, as
eleições marcadas para 3 de outubro de 1965, renovando o governo de 11 dos 21 Estados:
Alagoas, Goiás Guanabara, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná,
Rio Grande do Norte e Santa Catarina.
Tacitamente, confirmava-se
também o calendário para 3 de outubro de 1966, quando, além da renovação do
parlamento, seriam eleitos também os governadores dos demais Estados: Acre, Amazonas,
Bahia, Ceará, Espírito Santo, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul,
São Paulo e Sergipe.
Vão-se os anéis, ficam
os dedos. Nem tudo estava perdido e, afinal, alguns dos candidatos à Presidência, como
Magalhães Pinto, estavam acordes em que o ambiente não era propício para eleições
presidenciais já em 1965.
Excluída a disputa
presidencial, no mais, o pleito se realizou a seu tempo, livremente, tudo fazendo crer que
o Brasil caminhava para o restabelecimento das liberdades democráticas.
Os resultados, se não foram
desanimadores para o Sistema, ainda assim fizeram soar o sinal de alarme. O governo venceu
no Pará, onde o governador Jarbas Passarinho conseguiu fazer seu sucessor Alacid Nunes
(mais tarde os dois se tornariam adversários); na Paraíba, a UDN elegeu Agripino Maia;
no Maranhão, saiu vitorioso José Sarney; em Alagoas, não havendo maioria absoluta, o
governo federal nomeou como interventor o general João Batista Tubino. Até mesmo em Mato
Grosso e em Santa Catarina, onde o PSD conseguiu a vitória, respectivamente, com Pedro
Pedrossian e Ivo Silveira, não havia maiores preocupações.
Onde rebentou a corda foi
em Minas Gerais e Guanabara que, junto com São Paulo, formavam os três centros
políticos mais importantes do país. Em Minas Gerais, elegeu-se Israel Pinheiro, um dos
construtores de Brasília e braço forte de JK; na Guanabara, ganhou Negrão de Lima, uma
sombra de Getúlio Vargas, o mesmo Negrão que, em 1937, a pedido de Getúlio, percorreu o
país, buscando adesão dos governadores ao golpe do Estado Novo que seria dado ao final
daquele ano. Em São Paulo, as eleições se dariam em 1966 e uma derrota não improvável
naquele Estado seria fatal para a revolução.
A simples possibilidade
de retorno do getulismo reacendeu a ação da "linha dura" nas Forças Armadas,
não só na Vila Militar, como em vários pontos do país. A alta oficialidade, composta
sobretudo por coronéis da ativa, exigia um endurecimento do regime para que o movimento
militar, havendo atravessado um oceano de dificuldades, não viesse a morrer na praia.
O Ato
Institucional nº2
As eleições ocorreram a 3 de outubro. Poucos dias depois, recrudescem os boatos de um
novo golpe militar. Carlos Lacerda, de sua Tribuna de Imprensa, exigia intervenção em
Minas Gerais e Guanabara. Ao Palácio das Laranjeiras, onde se achavam Castelo e seu
"staff", chegavam notícias de movimentação nos quartéis.
O primeiro passo, foi
acalmar os militares, baixando a tensão da caserna. O segundo, preparar medidas que
mantivessem a temperatura baixa, permitindo ao Presidente cuidar de assuntos do governo,
ao invés de envolver-se numa crise militar mais prolongada.
Por fim, cuidava-se de
preparar o governo para o pior. Vários projetos e emendas à Constituição tramitavam no
Congresso, objetivando aumentar os poderes do presidente da República, inclusive
dando-lhe o direito de decretar estado de sítio sem precisar de autorização do
Congresso. Não estava o governo seguro de ter esses instrumentos à mão no devido tempo;
não era sequer lícito supor que fossem aprovados pelo legislativo.
No Ministério, outra
crise: o ministro da Justiça, Milton Campos, prevendo um fechamento do regime, de cujo
ato não pretendia tornar-se cúmplice, demitiu-se; e após uma interinidade de Luís
Viana Filho, foi nomeado para o cargo o ex-governador da Bahia, Juraci Magalhães.
Premido pela gravidade da
crise, e procurando evitar o pior, em 27 de outubro de 1965, o presidente Castelo Branco
assina o Ato Institucional nº2, iniciando o processo de radicalização do regime que, de
Ato em Ato, levou o país ao absolutismo nos dois governos seguintes.
De Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa - RJ
9 de agosto de 2003
O
Mauro Braga, na TRIBUNA DA IMPRENSA, diz que "em sua biografia, distribuída pela
Globo, há um engano: o então chanceler Juracy Magalhães foi citado como autor do pedido
aos donos de jornais para que demitissem os comunistas. Na verdade, foi o ministro da
Justiça, Gama e Silva, que o fez".
Errado. Foi Juracy mesmo. Era
embaixador em Washington, Milton Campos, ministro da Justiça, negou-se a fazer o AI-2 e
Castelo nomeou Juracy para fazer todo o papel sujo: fechou os partidos, reabriu as
"punições extralegais" e cassações, "disposto a punir jornais e
jornalistas que continuavam infringindo o AI-2" (DHBB-FGV). E fez a lista dos 61
"comunistas" e cassados de jornais, revistas e televisões para demitir.
Juracy só foi chanceler em 66. Gama
e Silva foi ministro da Justiça em 67, de Costa e Silva. O erro da Globo é que não foi
só Roberto Marinho que reagiu. Niomar Muniz Sodré, diretora do "Correio da
Manhã", também.
O que foi alterado
São estas as principais
alterações proporcionadas pelo AI-2:
- As eleições presidenciais passam a ser indiretas;
- Ficam extintos todos os partidos políticos;
- Fica o Presidente com a prerrogativa de decretar estado de
sítio por 120 dias, ad-referendum do
Congresso, e prorrogá-lo, se necessário, por um prazo máximo de 180 dias;
- Os atos praticados pelo governo federal ou pelo Sistema
(Comando Supremo da Revolução) ficam
excluídos de apreciação judicial;
- O Presidente passa a ter o direito de pôr em recesso o
Congresso Nacional, as Assembléias
Legislativas e as Câmaras Municipais, mesmo que o
país não esteja sob estado de sítio.
Coagido pelo Sistema, o
presidente Castelo Branco, até o fim de seu mandato, ainda viria assinar mais dois Atos
Institucionais: o AI-3, de 5 de fevereiro de 1966, criava a figura do governador
"biônico" e suspendia as eleições de prefeitos nas capitais e cidades
consideradas de segurança nacional; o AI-4, de 12 de dezembro, condicionava o Congresso
para a votação da nova Constituição.
Numa luta desigual, a
Nação sofreu vários golpes rudes. O nocaute viria no governo seguinte com a edição,
pelo sucessor de Castelo, do Ato Institucional nº5, o mais cruel e perverso, sufocando o
que ainda restava das liberdades individuais e fazendo morrer as esperanças de retorno, a
médio ou longo prazo, à prática democrática. Esse é assunto para o próximo
capítulo.
O embaixador
americano
é consultado
Por
solicitação do Presidente do Brasil, o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon
reune-se com Castelo Branco e ambos analisam o impacto que o AI-2 causaria nas relações
internacionais, conforme relata o próprio diplomata, a pedido de Luís Viana Filho:
"Castelo Branco
estava inteiramente ciente da reação tempestuosa da imprensa estrangeira ao 1º
e 2º Atos e preocupado com o impacto negativo nas relações exteriores,
generalizadamente, e, em particular, nas relações com os Estados Unidos. Por isso, ele
me pediu que o visitasse, numa manhã calma do feriado de 2 de novembro [Finados].
"Nossa conversa
durou duas horas a mais longa das nossas entrevistas. Castelo fez um resumo dos
acontecimentos-chave das quatro semanas anteriores, incluindo a recusa do Congresso em
aceitar a reforma proposta das relações do governo federal com os demais Estados.
"Ele pediu meu
comentário sincero, e eu o fiz em toda extensão. Entre outros pontos, salientei minha
preocupação de que a situação pudesse se transformar inteiramente em ditadura militar.
O presidente sentiu que eu estava pessimista demais, que o Brasil evitaria qualquer tipo
de ditadura, a tradicional Latino-Americana ou tipo Nasser [Egito], e que a nova base
política podia e seria construída para apoiar as metas da revolução.
"Três semanas mais
tarde, quando o secretário [de Estado] Dean Rusk visitou o Rio, o Presidente saiu de seus
hábitos para referir-se ao meu temor de ditadura militar e para reassegurar sua
confiança na restauração da normalidade constitucional em 1966.
"Não
obstante, estava claro que a crise de outubro tinha sido um choque para ele, que o general
Costa e Silva estava, em todo sentido prático, seguro da sucessão, e que Castelo Branco
não tinha mais o controle da situação."
A CIA (Agência Central
de Inteligência dos Estados Unidos), em seu relatório interno nº3101/65, registra as
mesmas preocupações, prevendo um fechamento gradual do regime até o total controle do
país pelo Sistema. Aponta o ministro da Guerra, general Costa e Silva como o catalisador
das pressões da "linha dura", irritado que estava pela falta de apoio
governamental à sua pretensão para suceder Castelo Branco.
São mencionadas pela
CIA, também, as pressões empresariais, principalmente da Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo (que é citada nominalmente) para o endurecimento do regime,
incentivando a ação de conhecidos radicais, como o almirante Silvio Heck. Essas
pressões estariam anulando a ação dos moderados ligados ao presidente Castelo Branco,
entre eles o chefe do SNI (Serviço de Inteligência do Brasil), general Golbery do Couto
e Silva, e o chefe da Casa Militar, general Ernesto Geisel. Em resumo, Castelo perdera, a
esta altura, o controle da sucessão presidencial.
Quase que o
Brasil
ganha um "Partidão"
"Partidão" era
o nome que se dava ao PC soviético que, por ser o único partido político legal,
dominava todo o sistema político da União Soviética, transformando-se num governo
paralelo. Pois o Brasil por pouco não ganha seu partidão, tal a rigorosidade do Ato
Complementar nº4, que regulava a organização de novos partidos políticos, em
substituição àqueles que foram extintos.
Surgiram, de início,
três opções partidárias: a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), reunindo os
governistas, o MODEBRA (Movimento Democrático Brasileiro), que pretendia concentrar a
oposição e o PAREDE (Partido de Renovação Democrática), de tendências indefinidas.
Este último não resistiu os primeiros embates, ficando apenas nas preliminares de sua
organização.
A Arena rapidamente
conquistou o espaço, pois todo político, por razões de sobrevivência, prefere estar
com o governo, garantindo verbas para obras públicas (e votos) em seus redutos
eleitorais.
Já o Modebra, que em boa
hora mudou sua sigla para MDB, não conseguia atender as regras do AC-4, que exigia um
mínimo de 120 deputados federais e 20 senadores filiados, para garantir o registro. Isso
representava quase um terço do Congresso Nacional.
Quanto a deputados, o MDB
até que os conseguiu, mas, na busca de senadores, apenas 19 se dispuseram a fazer
oposição ao governo. Faltava um e, se o quorum não fosse atingido, o Brasil passaria a
ter um sistema político de partido único. Isso de maneira alguma interessava ao Sistema,
pela repercussão negativa no exterior. Assim, o governo passou a ser o maior interessado
na formação de um partido de oposição a ele.
Vieram, então, os
governistas, auxiliar a oposição, doando um de seus senadores para que o número fosse
completado. A sorte caiu sobre o senador Aarão Steinbruck que assinou a ficha partidária
do MDB, trazendo paz ao arraial.
Já nos contatos
preliminares, o governo sentiu a artificialidade do bipartidarismo no Brasil, não tanto
por ideologia, mas por diferenças regionais e de comportamento. Líderes da UDN, que
combateram ferozmente o PSD, tinham que viver em harmonia com seus adversários de ontem.
Em São Paulo, opositores do governador Ademar de Barros, que colocavam em dúvidas sua
honestidade, tiveram de aceitá-lo como indigesta companhia. No Nordeste, onde líderes
que se degladiavam, literalmente, até a morte, repentinamente, precisaram se compor. Se
isso vinha causando disputas irreconciliáveis na organização partidária, imaginem só
quando chegassem as eleições!
Com uma boa caneta e um
pouco de tinta, não há problema que não se resolva. E os dois partidos políticos
passaram a ter, dentro deles, 3 sub-legendas, as quais poderiam, nas eleições diretas,
apresentar candidatos em separado. O Brasil tornou-se, pois, o único país do mundo em
que o sistema bipartidário era composto de seis partidos...
Com quantos atos
se faz um governo
O governo Castelo Branco
editou três Atos Institucionais. Nem necessitava de mais outros, pois tamanha foi a
quantidade de Atos Complementares que estes subverteram totalmente o processo. Eles
regularam o funcionamento das CGIs (Comissões de Inquérito), cuidaram de dispensas,
remoções e aposentadorias, atingiram o Judiciário, alteraram a composição do Supremo
Tribunal Federal, fizeram tudo o que se possa imaginar, dentro do maior casuísmo,
assinados sempre que surgisse um obstáculo a ser removido.
Nesse processo, com a
edição do AI-3 e respectivos complementos, criou-se a figura do governador
"biônico", o qual passou a ser escolhido pelo Presidente dentro da Arena (o
partido do governo), a partir de uma lista tríplice, confirmado depois pelas respectivas
assembléias legislativas. A oposição podia apresentar seu candidato, mas não para
ganhar. Foi criada a fidelidade partidária, impedindo os parlamentares de votar em outro
candidato que não o de seu próprio partido. Como o MDB (oposição) ameaçou com
renúncia coletiva, o AC-16 proibiu também a renúncia. Dizia o AC-16 que o parlamentar
que renunciasse ao mandato teria seus direitos políticos cassados (por dez anos).
Nesse clima de paz
absoluta (a paz dos cemitérios), desenvolveu-se, pois, o calendário eleitoral de 1966:
em 3 de setembro, elegeram-se os governadores "biônicos" de 12 Estados; em 3 de
outubro, Costa e Silva fez-se Presidente, tendo como vice o civil Pedro Aleixo; e em 15 de
novembro, realizaram-se as eleições parlamentares, renovando as Assembléias
Legislativas, a Câmara Federal e um terço do Senado.
Na eleição para
Presidente, só dois pequenos incidentes: O deputado João Herculino subiu à tribuna
vestindo luto pela "morte da democracia" e o senador João Abraão mencionou o
nome de Juscelino como o preferido do povo. Um e outro foram sem seguida cassados.
Nas eleições para
governador, o Presidente cassou o mandato de todos os deputados que se mostraram
descontentes com o nome do candidato único apresentado para seu Estado. Era mais seguro
do que ser surpreendido com alguma traição.
Em São Paulo, elegeu-se,
pois, Roberto de Abreu Sodré, udenista histórico e cunhado de Carlos Lacerda; no Rio
Grande do Sul, Peracchi Barcelos; no Estado do Rio, Geremias Fontes; na Bahia, Luís Viana
Filho, chefe da Casa Civil da Presidência; em Pernambuco, Nilo Coelho; no Ceará,
Plácido Castelo; em Sergipe, Lourival Batista; no Acre, Jorge Kalume; no Amazonas, Daniel
Aerosa; em Alagoas, Antônio Lamenha Filho; no Piauí, Helvídio Nunes de Barros; e no
Espírito Santo, Cristiano Dias Lopes.
Planos para
uma
nova Constituição
Ao
final de 1966, resolvidos os problemas emergenciais e criados os mecanismos que
permitiriam desenvolver as reformas preconizadas, o governo achou-se em condições de
providenciar uma mudança radical na Carta Magna, criando uma Constituição moderna,
capaz de colocar o país no caminho do desenvolvimento.
Sem pensar na
convocação de uma Assembléia Constituinte (que Deus o livre de tamanho pecado) Castelo
preferiu criar uma comissão de notáveis, formada por Orozimbo Nonato, Levi Carneiro e
Temístocles Cavalcanti, entregando a ela a missão de redigir o novo texto, na forma de
anteprojeto, o qual ficou pronto em 19 de agosto de 1966.
O trabalho não agradou
nem ao Presidente, nem ao seu ministro da Justiça, Carlos Medeiros. O primeiro desejava
uma Carta mais liberal, embora resguardando a autoridade presidencial para combater
situações de perigo à vida ou ao regime; o segundo, ao contrário, preferia uma
concentração maior de poderes, que desse ao Presidente instrumentos para enfrentar
crises políticas e sociais, dando ao país condições de governabilidade.
O anteprojeto foi,
então, discutido com o Conselho de Segurança Nacional e, em seguida, reformulado pelo
próprio ministro Carlos Medeiros.
O governo poderia até
outorgar a nova Carta, dispensando o Congresso, tais os poderes já concentrados em suas
mãos com os dois Atos Institucionais, todavia essa medida seria mal recebida na
comunidade internacional. Era preciso correr o risco, entregando-a ao Congresso Nacional,
para discussão, após o que o próprio Congresso iria promulgá-la. Melhor seria que se
fizesse com o atual legislativo, já em fim de mandato, já que ele era mais previsível
em suas reações. O próximo ainda não tinha sido eleito e ninguém sabia qual a sua
composição.
Foram tomadas todas as
providências para evitar um prolongamento indesejável. O anteprojeto seguiria ao
Congresso em regime de urgência e, se a Constituição não fosse promulgada no prazo
estabelecido, o Presidente chamaria a si a responsabilidade de outorgá-la. Seria também
uma medida extrema, porém, mais fácil de se explicar, jogando sobre o Congresso a
responsabilidade pelo eventual retardamento.
Foi aí que surgiu o
incidente mais grave entre Executivo e Legislativo, colocando em perigo o cronograma
traçado.
O Congresso
é posto
em recesso
Dentro da rotina do
governo revolucionário, em 12 de outubro de 1966, chegaram às mãos do Presidente mais
seis processos de investigação, já concluídos, envolvendo deputados federais. O
Presidente decidiu pela cassação de todos eles, assinou o ato e encaminhou-o à Câmara
Federal, cujo presidente era Adauto Lúcio Cardoso, parlamentar fiel ao Sistema, já que
fora eleito com a ajuda de Castelo Branco.
Para surpresa geral,
Adauto se opôs a essas cassações, recusando-se a consultar os demais parlamentares e
declarando que cabia ao presidente da República consultá-lo primeiro. Tudo isso era
inútil, pois os atos revolucionários não estavam sujeitos a consultas ao legislativo ou
a quem quer que fosse.
O assunto ferveu no
plenário da Câmara, já que alguns arenistas eram contra essas cassações e, por seu
lado, a oposição aproveitou o ensejo para fazer suas manifestações de repúdio ao
autoritarismo, causando tremendo desgaste ao governo junto à opinião pública.
Naquele 19 de outubro, o
dia e a noite foram agitados no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, local das
grandes decisões. O ministro da Justiça tem pronto o decreto que põe em recesso o
parlamento. Outra medida, bem pior seria a sua dissolução, encerrando as atividades
parlamentares três meses antes do término do mandato. Bem comparadas as duas medidas, a
do recesso se mostrava mais leve, dando tempo suficiente para esfriar as cabeças e tornar
à realidade possível naquela conjuntura.
Achava-se, entre outras
coisas, que a atitude do presidente da Câmara tinha por fim embaraçar as eleições
legislativas que se realizariam no mês seguinte, o que não ficou provado.
No dia 20, o Presidente
assina o recesso parlamentar, por tempo indeterminado, ficando incumbido de executar o ato
o coronel Meira Matos, comandante da Polícia do Exército em Brasília. Conta Luís Viana
Filho:
"Meira Matos
executou o decreto. O Presidente recomendara-lhe a maior prudência e, nessa mesma noite,
isolado o Congresso, os seus membros foram retirados tranqüilamente. Não houve incidente
de monta, e as anunciadas ameaças de resistência ruíram silenciosamente. Apenas breve e
áspero diálogo entre Adauto e Meira Matos inquietou o episódio." (Leia, em
detalhes, no testemunho do jornalista Carlos Chagas).
Os acontecimentos,
então, se desenrolam dentro desta seqüencia:
12.10.66 Cassados os mandatos de 6
deputados federais.
20.10.66 O Congresso Nacional (Câmara e Senado) é posto em recesso.
15.11.66 Realizam-se eleições diretas para a renovação da Câmara Federal, de
um terço
do Senado e das Assembléias Legislativas.
21.11.66 É suspenso o recesso e o Congresso volta às atividades.
13.12.66 O anteprojeto da nova Constituição é entregue ao presidente do
Congresso,
senador Auro Soares de Moura Andrade.
24.01.67 A nova Constituição é promulgada pelo Congresso Nacional.
Estava superada a crise.
O Brasil ganha uma nova Constituição que, se dizia, deveria durar várias décadas. Não
foi bem o que aconteceu. Os acontecimentos caminharam mais rápido que as boas intenções
e, dois anos depois, o texto constitucional foi quase que totalmente alterado por uma
Junta Militar que assumiu o poder. Esse também é um assunto a ser tratado em momento
oportuno.
A reforma
financeira
O primeiro dos problemas
a ser enfrentado pelo Presidente foi o do descontrole financeiro do país. O Brasil havia
saído do governo Dutra (1946-1951) com uma situação confortável nas finanças
públicas, e com uma dívida externa administrável.
Os governos posteriores
reverteram esse estado de coisas, gastando mais do que arrecadavam e levando o país a um
estado quase que pré-falimentar. Getúlio Vargas e Café Filho viveram enliados em
sérios problemas políticos que lhes tomaram a maior parte do tempo.
Juscelino Kubitschek
construiu Brasília e levou seu plano de governar 50 anos em 5, emitindo moeda
descontroladamente para cobrir os gastos e comprometendo os próximos governos com um
aumento sensível da dívida externa.
Jânio Quadros fez um
diagnóstico do doente mas não ministrou-lhe os remédios, tanto mais que não parou 7
meses no poder. Por fim, João Goulart largou o governo à corda solta, como se o problema
não fosse com ele.
Agora, o paciente
necessitava de um tratamento de choque, uma política séria de contenção de despesas,
que levou o país, em 1965, a processo recessivo, danoso à produção e aos
trabalhadores, causando o desemprego e uma semi-paralisação do comércio e das
atividades produtivas.
O amargo remédio era a
infalível receita do Fundo Monetário Nacional, engolido a duras penas, e que só pôde
ser aplicado sem maiores contestações porque o Brasil vivia em regime excepcional,
suprimindo, se preciso à força, qualquer manifestação de descontentamento.
Respeitadas todas
indicações do receituário, por fim, o FMI colocou à disposição do Brasil um crédito
"stand-by" (para ser requisitado quando preciso) de 125 milhões de dólares.
Era uma insignificância, mas, por outro lado, representava um sinal verde aos
investidores internacionais de que o Brasil deixava de ser um risco iminente ao capital
estrangeiro.
O PAEG-Plano de Ação
Econômica do Governo, sob a responsabilidade do Ministro do Planejamento, Roberto Campos
e do ministro da Fazenda Otávio Gouveia de Bulhões, estabeleceu uma nova ordem
econômica no país.
"O PAEG
escreve Luís Viana Filho traçava os pontos principais da nova estratégia
política econômica, apontava os instrumentos de combate à inflação no campo
monetário, fiscal e salarial; os mecanismos de incentivos às exportações e de
correção no desequilíbrio no balanço de pagamentos; os instrumentos de estímulo à
poupança no mercado de capitais, com o princípio da correção monetária; e as
concepções para o problema da habitação popular e, conseqüentemente, o aumento da
construção civil. Também se incluía um elenco de investimentos públicos e programas
setoriais de crescimento."
Era uma intervenção
pesada do poder público sobre a iniciativa privada, gerando protestos das classes
liberais, com discursos violentos do deputado Herbert Levi e de outros parlamentares que
haviam apoiado o movimento militar. Não foram menores as reações nos meios estudantis,
sindicais e intelectuais, registrando-se a prisão, entre outros, do professor Florestan
Fernandes. A repressão econômica, mais do que a repressão política, é que tornou
odiado o governo de Castelo Branco.
Os resultados desse
saneamento foram colhidos pelos governos seguintes, quando a liberação da economia, com
a geração de empregos e melhoria das condições de vida, acabou escondendo a
repressão, que atingiu seu apogeu com o presidente Médici, considerado injustamente como
o grande realizador.
No governo Castelo Branco
foram criados o BNH-Banco Nacional da Habitação, a primeira tentativa realmente séria
de fazer uma política habitacional permanente e contínua; as ORTN-Obrigações
Reajustáveis do Tesouro Nacional que, a um só tempo, instituíam a correção monetária
e representavam títulos de captação interna.
O FGTS-Fundo de Garantia
por Tempo de Serviço, transferindo o passivo trabalhista das empresas, dali por diante,
para o controle estatal, foi outra fonte de arrecadação que permitiu a aplicação de
capitais em serviços básicos, como o de saneamento. O Banco Central do Brasil, recém
criado, chamou a si o controle da moeda e das atividades financeiras, antes atribuído ao
Banco do Brasil.
A reforma
fiscal
e tributária
Antes de se aventurar na
modificação do sistema de arrecadação de impostos e taxas, o governo teve de
identificar o contribuinte, pois, tal era a desordem, pela falta de um cadastro
centralizado, que a sonegação tornou-se prática comum em todo o país.
Para organizar e agilizar
o recolhimento de tributos foram criados o CGC-Cadastro Geral de Contribuintes e o
CPF-Cadastro de Pessoa Física. Os velhos impostos, em cascata, foram substituídos por
novos, nos quais o setor produtivo podia creditar-se dos impostos pagos sobre matérias
primas, reaplicando-os por ocasião da venda dos produtos acabados. Assim, a tributação
real incidia apenas sobre o consumidor final.
O IC (Imposto de Consumo)
deu lugar ao IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). O IVC (Imposto de Vendas e
Consignações) foi substituído pelo ICM (Imposto de Circulação de Mercadorias). O
Imposto do Selo, que vinha dos tempos do Império, foi eliminado e, em seu lugar, surgiu o
IOF-Imposto sobre Operações Financeiras. Acabaram-se para sempre os quiosques que
vendiam estampilhas aos quatro cantos do país, as quais eram pregadas sobre todo papel
que ousasse insinuar uma operação financeira.
Como se pode imaginar,
com melhor controle, a arrecadação aumentou prodigiosamente e, em contrapartida,
concentrou uma boa parte do dinheiro circulante nas mãos do governo, o qual, através das
obras públicas, passou a controlar com mais eficiência o fluxo da moeda e, por
conseqüencia, o nível de inflação aceitável.
A reforma
agrícola
O espaço é insuficiente
para comentar todas as modificações ocorridas no período de governo de Castelo Branco,
mexendo no âmago dos problemas, e preparando a estrutura necessária para um
desenvolvimento integrado do país.
Era preciso revolver o
solo onde se consolidou a estrutura agrícola do Brasil, apoiada principalmente na
política do café e descuidando de planejamento global. Para isso Castelo foi buscar um
novo ministro da Agricultura onde melhor se conhece o assunto, a Escola Superior de
Agricultura Luís de Queirós, em Piracicaba-SP. Era ele o professor Hugo de Almeida Leme,
homem que dedicou toda sua vida aos problemas da terra, um dos poucos que se poderia
considerar capaz de desemperrar a máquina e colocá-la em movimento.
Contrariando a política
geral de contenção de despesas, o governo liberou verbas para o setor, de forma a
permitir a implantação de uma política de preços mínimos. Com esse incentivo dado à
iniciativa privada, o resultado não se fez esperar: as próximas safras acusaram um
aumento expressivo na colheita de grãos, que o governo adquiriu e armazenou.
Procurando diversificar a
cultura, passou a incentivar derrubada de plantações de café com baixa produção,
substituindo-as por lavouras mecanizadas e de maior rendimento. Foi a partir de então que
o norte do Paraná começou a conhecer o valor econômico da soja, mais adequada em
regiões sujeitas a fortes geadas.
Não foi adiante,
todavia, o propósito de realizar também uma reforma agrária, reduzindo o poder dos
latifúndios. O Estatuto da Terra, sancionado em 30 de novembro de 1966 e as medidas
tomadas em fins de governo, punindo com maiores impostos as terras improdutivas não foram
suficientes para impedir a concentração de terras.
Os governos que se
seguiram, pelas características do próprio Sistema a que estavam atrelados, não se
interessaram em promover no país uma verdadeira reforma agrária, com participação real
do homem do campo. Esta foi a grande oportunidade perdida, que empurrou para o ano 2000 um
problema sério, agravado em décadas pelo processo de mecanização rural, que resultou
no êxodo da mão-de-obra excedente para as cidades.
A figura do colono foi
substituída pela do boia-fria e, nos grandes centros urbanos, a concentração de
trabalhadores não qualificados resultou no desemprego e no sub-emprego, gerando a
favelização e a miséria.
Conclusão
Castelo Branco saiu em 15
de março de 1967 sem cumprir a promessa de que fora fiador, qual seja, a de entregar o
governo a um civil, escolhido por eleições diretas. Foi, pelo menos em parte, refém do
Sistema, invisível mas real, o qual lhe ditava os passos e condicionava-lhe os
movimentos. Teve de aceitar a prorrogação de seu próprio mandato, a edição de mais
três atos institucionais, o fechamento do regime e, por fim, precisou passar as rédeas
do poder ao marechal Costa e Silva, o mais legítimo representante da "linha"
dura nas Forças Armadas.
Morreu em colisão aérea
no Ceará, em 18 de julho de 1967, quatro meses depois de deixar o governo. Uma estranha
colisão, dessas de acontecem uma em um milhão. O choque aconteceu com um avião militar,
fora da rota, longe do tráfego aéreo e nenhuma das aeronaves arremeteu para evitar o
acidente.
O "Painel" da
Folha de São Paulo, em 16 de julho de 1988, publica uma nota intrigante. Diz ela:
"João Wamberto, que foi secretário de Castelo Branco revela: no dia de sua morte
(18-7-67), em desastre aéreo, o ex-presidente havia comunicado a ele, pelo telefone, que
decidira romper o silêncio e comentar a grave crise política que o país atravessava,
então sob o governo Costa e Silva. O avião de Castelo caiu em conseqüência de choque
com um jato da FAB."
Acidente ou não, o
desaparecimento de Castelo Branco se insere entre outras mortes, igualmente estranhas, que
ocorreram durante o período militar, entre elas a de Juscelino Kubitschek e a do próprio
marechal Costa e Silva. Mas História não se escreve em cima de suposições, colocadas
aleatoriamente no processo. O único fato concreto, neste caso, é que Castelo Branco
morreu no choque entre duas aeronaves, numa das quais ele viajava. E ponto final.