Segunda Parte


O DESAFIO DE MONTE CASTELO


(abra o mapa)

O papel da 3ª Seção

     A 3ª Seção, de Castelo Branco, estudava constantemente a situação militar e traçava os planos operacionais, baseados em informações fornecidas por outras seções e serviços, tendo se tornado o ponto focal, em Porreta Terme, sempre visitada, entre outros, pelo general Cordeiro de Farias e outros oficiais de artilharia.

     Crittenberger, que rara vez deixava transcorrer um dia sem visitar os brasileiros, ia freqüentemente à 3ª Seção. O comandante do 4º Corpo tinha um quepe de pala pontuda e um casquete raso. Melhor o casquete. Os brasileiros acreditavam que, quando ele estava de quepe, vinha disposto a fazer críticas.

     Mascarenhas trabalhava em íntima associação com Castelo Branco. Esse tipo de relacionamento, entre os generais e chefes de suas terceiras seções (G-3), como salientou Mascarenhas, era comum entre os exércitos aliados. Mas representava uma mudança em seu relacionamento anterior com o Estado-Maior.

     O chefe deste, coronel Brayner, que não gostou da mudança, atribuiu o novo estado de coisas a uma hipertrofia indevida por parte de Castelo Branco. Mas os oficiais estavam chegando à conclusão de que, quando procuravam Brayner, não obtinham decisões, enquanto que Castelo não tinha hesitação em tomá-las.

O incidente

     Depois que o major João Carlos Gross trouxe o 1º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria, no vale do Sérchio, para uma posição ao Sul de Porreta Terme, recebeu suas ordens de Castelo: devia levar seus homens através de Porreta Terme para uma posição avançada, mais ao norte, a fim de substituir uma unidade sul africana.

     Quando eles chegaram a essa posição avançada, o fogo de barragem do inimigo, com morteiros e artilharia, não se fez esperar e o major Gross considerou-se feliz por não ter morrido.

     Depois disso, Gross foi interpelado por Castelo Branco que, irado, queria saber por que, à sua passagem por Porreta Terme, o major não parara para se avistar com ele. Gross alegou que não recebera ordem para assim proceder.

     Castelo disse que lhe havia dado tal ordem. "Eu não recebi ordem", diz Gross. "Eu dei a ordem," replica Castelo. As frases foram repetidas várias vezes, até que começaram a gritar um com o outro. Essa não era ocorrência usual, pois subordinados não ousavam gritar com Castelo e os que não o conheciam bem tinham medo de enfrentá-lo.

     Gross, antes de deixar o enfurecido Castelo, pediu-lhe que verificasse bem que aquela ordem lhe fora realmente transmitida. Quando voltou a Castelo para tratar novamente desse assunto, o chefe da 3ª Seção lhe disse que fosse falar com Brayner. Gross, que não tinha respeito por Brayner e esperava encontrá-lo praticamente cochilando em sua mesa de trabalho, soltou uma gargalhada desrespeitosa, reação que fez o major crescer ainda mais no desfavor de Castelo.

O vale do Reno

     Em Porreta Terme, em meados de novembro, Castelo Branco estava absorvido nos planos da primeira fase da operação aliada no vale do Reno, operação essa que recebeu o título de Defensiva Agressiva. O plano imediato, formulado pela Força-Tarefa 45, do Quarto Corpo, previa um ataque de surpresa ao maciço do Monte Belvedere.

     Tal plano previa que a força tarefa usasse dois batalhões norte-americanos para tomar o Monte Belvedere e La Torraccia, enquanto o 3* Batalhão do 6* RI devia tomar as elevações nas vizinhanças de Monte Castelo.

     Mascarenhas não gostou da fragmentação de sua Primeira Divisão através de tais empréstimos, mas concordou com a sugestão, depois que Crittenberger  lhe falou entusiasticamente sobre as possibilidades de êxito dessa ação.

Primeiro ataque a Monte Castelo

     Castelo e Amauri Kruel voltaram à frente a tempo para  testemunhar a dura luta de 24, 25 e 26 de novembro de 1944, na área de Monte Belvedere-Monte Castelo, durante a qual a Força-Tarefa americana 45 falhou na consecução de seus objetivos.

Mascarenhas, embora sem responsabilidade por esses ataques, foi com Castelo Branco para a área de combate a fim de observar a luta, de uma casa abandonada, ao lado da igreja que servia de posto de comando ao fatigado 3º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria.   

     O general Crittenberger, provavelmente usando o quepe com pala pontuda, encontrou-se com Mascarenhas, Brayner e Castelo Branco, em Porreta Terme a 26 de novembro, depois que o batalhão brasileiro se vira forçado a recuar de seu avanço inicial em Monte Castelo.

     Embora Crittenberger, general de 55 anos, fosse conhecido pelo estímulo que freqüentemente transmitia aos brasileiros, nessa ocasião surgiram divergências entre os oficiais da FEB e os norte-americanos.

     A presença do major Walters como intérprete foi de grande ajuda, pois, quando lhe pareceu aconselhável, introduziu diplomacia em suas traduções. No final da discussão, o batalhão  do 6º RI, que a Força-Tarefa 45 tomara emprestado, foi devolvido ao comando de Mascarenhas.

     Juntamente com o seu retorno, houve uma mudança da Força-Tarefa 45 e da FEB mais para o Oeste, de modo que Monte Castelo ficasse incluído na jurisdição dos brasileiros. Critenberger, entregando a Mascarenhas a responsabilidade da tomada de Monte Castelo, disse: "Eu lhe passo a bola."

     Mascarenhas devia usar tropas descançadas e mais numerosas que as que tinham sido empenhadas na primeira investida contra Monte Castelo. Devia também receber a cooperação de um pelotão de tanques e outro de destruidores de tanques, transferidos da Força-Tarefa 45.

     Contudo, o comandante da Divisão Brasileira, cuja responsabilidade na Operação Defensiva-Agressiva abrangia agora uma frente de 15 km, não estava inclinado a atacar Monte Castelo imediatamente. O treinamento dos homens da FEB desembarcados na Itália no início de outubro de 1944 tinha sido menos eficiente que o do Primeiro Destacamento.

     Além disso, os alemães, ajudados pelo nevoeiro e pelas fortes chuvas, estavam numa posição geograficamente dominante. Muitos deles tinham se instalado em grotas e fendas que não podiam ser atingidas pela artilharia aliada, ao passo que outros atiravam abrigados em fortificações de cimento armado, construídas em caráter permanente.

      Mas o 4º Corpo, ainda em dura luta em redor do Monte Belvedere, considerava essencial que os brasileiros entrassem logo em ação, por causa da importância de Monte Castelo, e porque o engajamento das tropas alemãs nessa área ajudaria a evitar um revés para o 5º Exército, na área de Bolonha.

     Para participar do novo ataque, Mascarenhas trouxe os homens da artilharia e da infantaria que estavam treinando perto de Pisa e que foram levados para o vale do Reno em caminhões, durante as frias noites do fim de novembro.

    O ataque da infantaria, sob o comando de Zenóbio da Costa, seria desfechado pelo 1º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria (Regimento Sampaio) e pelo 3º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria (Regimento Tiradentes).

     O primeiro, comandado pelo major Olívio Gondim de Uzeda, chegara ao vale do Reno a 22 de novembro. Mas o segundo, que era comandado pelo major Cândido Alves, e era o único do Regimento Tiradentes a ser enviado do campo de treinamento, só chegou a 28 de novembro, pouco antes de desempenhar seu papel na ação.

Segundo ataque a Monte Castelo

      O ataque com essas tropas inexperientes começou à 7 horas da manhã do dia 29 de novembro, sob a proteção da artilharia de Cordeiro de Farias. Como de costume, Castelo foi para o campo de batalha, ficando a maior parte do tempo junto aos comandantes dos grupos de ataque, a fim de, como escreveu Mascarenhas, traduzir o pensamento do comandante da divisão, no curso de toda a ação.

     A despeito do fato de que, na noite de 28 de novembro os norte-americanos foram forçados a se retirar das vizinhanças do Monte Belvedere, deixando os brasileiros sem apoio em sua esquerda, estes estavam avançando bem durante toda a tarde de 29 e, cedo, o batalhão do 11º Regimento de Infantaria chegou perto de seu objetivo.

     Mas, no fim do dia, pesados bombardeios e contra-ataques infligiram severas perdas ao batalhão do 1º Regimento de Infantaria e este se retirou para o ponto inicial. Quando a noite começou a cair, ficou decidido que era melhor cessar o ataque, em vez de mandar que viessem reforços do 6º Regimento de Infantaria (Regimento Ipiranga). O 1º Regimento teve 29 mortos e 128 feridos, ao passo que o 11º Regimento, mais afortunado, teve cinco mortos e 25 feridos.

      O capitão Newton Corrêa de Andrade Melo, depois de participar da luta com o 11º Regimento, escreveu em seu diário que a ação dos tanques norte-americanos, como em outras ocasiões, deixou muito a desejar. O chefe do Estado Maior, Lima Brayner, defendeu Zenóbio, dizendo que o general não expedira nenhuma das ordens e que toda a operação fora planejada exclusivamente pela 3ª Seção, de Castelo Branco.

Preparando a nova investida

     Para alguns, Monte Castelo permanecia como um desafio e uma zombaria. A cena do revés sofrido durante os seis dias de novembro estava se tornando mal-assombrada e se convertendo, para os brasileiros numa espécie de tabu, deixando, segundo um narrador, profundas marcas no espírito dos homens.

     Castelo Branco, com o empenho que lhe era característico, imediatamente atirou-se ao trabalho, procurando estudar a possibilidade de novos ataques. O Major Walters declarou: "Ele andava pela frente de batalha, falando com os oficiais, os sargentos e os soldados, tentando apurar quais tinham sido as causas do insucesso, quais falhas tinham resultado do treinamento imperfeito, que poderia ser feito para que um novo ataque tivesse êxito mais certo."

     Nesse trabalho, Castelo Branco foi muito ajudado por Zenóbio e recebeu grande estímulo dos norte-americanos, que continuavam a querer distrair os alemães da área de Bolonha, onde o 5º Exército estava atravessando um período difícil. Mascarenhas escreveu:

      "Persistia ainda o comandante do 5º Exército na idéia de retomar a ofensiva antes do inverno. Por isso, acrescentou Mascarenhas, Crittenberger expediu instruções, a 5 de dezembro, pedindo à Divisão brasileira que conquistasse e mantivesse o domínio do espigão que se estendia do Monte Belvedere ao Monte della Torracia."

O teste de resistência

     A 6 de dezembro, Mascarenhas, acompanhado de Zenóbio, Cordeiro, Brayner e Castelo Branco,  foi observar o terreno. Depois disso, com o apoio de dois generais, Mascarenhas novamente escolheu o Monte Castelo como objetivo.

     Imediatamente, a artilharia de Cordeiro começou a martelar as posições alemãs, tendo logo destruído uma das casamatas germânicas no Monte Castelo. Amauri Kruel, usando informações  fornecidas pela 2ª Seção, fez uma avaliação da força inimiga e a entregou à 3ª Seção, a fim de demonstrar que o ataque, tal como havia sido planejado, não teria sucesso. 

     De acordo com as informações dos prisioneiros germânicos e dos "partegiani" italianos em luta contra o fascismo, desde os ataques de novembro os alemães se haviam fortificado, cavando trincheiras e colocando minas por trás de redes protetoras de arame farpado, tendo também aumentado as posições artilhadas no setor de Monte Castelo.

Desentendimentos no comando

     Kruel achou que seria um erro tentar enviar os soldados da infantaria brasileira pelo Monte Castelo acima, em tão longa distância. Ele tinha em mente outros planos, que acreditava serem bem mais eficientes.

     Mas Kruel descobriu que Castelo Branco, agindo de uma forma que lhe pareceu cheia de melindres e de convencimento, relutava muito em aceitar a avaliação da 2ª Seção. A 8 de dezembro numa reunião matinal, presentes Mascarenhas, seus generais e os principais oficiais de seu Estado Maior, Kruel defendeu o seu ponto de vista, prevendo o fracasso dos planos da 3ª Seção.

     Os norte-americanos também acreditavam que o ataque brasileiro,  cuidadosamente planejado pelo Estado-Maior da Divisão, tinha todas as possibilidades de êxito. Fortes chuvas, e estradas muito escorregadias, em conseqüência das primeiras nevascas, atrasaram de tal modo a estocagem dos suprimentos que o ataque foi adiado de 11 para  12 de dezembro.

      Após esse adiamento, Brayner falou com Mascarenhas, às 9 horas da noite do dia 11, para se queixar de que as instruções expedidas pela 3ª Seção eram muito complicadas. Ele as considerava um modelo de puro academicismo, semelhante aos documentos que a Escola de Estado-Maior elaborava para causar dores de cabeça aos seus alunos. Mas descobriu que essas instruções já haviam sido distribuídas aos comandantes das tropas.

Terceiro ataque a Monte Castelo

     Infelizmente para o ataque brasileiro, o tempo continuou péssimo, no dia 12 de dezembro. Chuvas e intenso nevoeiro prejudicaram aquilo que a artilharia poderia fazer para ajudar as duas principais unidades atacantes, os 2º e 3º Batalhões do 1º Regimento de Infantaria e as tropas do 11º Regimento, que iriam apoiar esses dois batalhões.

     As condições meteorológicas fizeram com que a prometida cobertura aérea  norte-americana deixasse de ser dada e as vastas áreas lamacentas limitavam a mobilidade dos tanques norte americanos.

     O 3º Batalhão do 1º Regimento, comandado pelo major Franklin Rodrigues de Morais, partiu às 6 horas da manhã,  meia hora antes do que fora programado e, logo depois que a artilharia norte-americana começou a atacar o Monte Belvedere, quebrando o silêncio e alertando o inimigo. Abrindo caminho através de um mar de lama, esse batalhão galgou declives e rochedos, depois de alcançar uma encosta inclinada.

     Alguns homens tentaram avançar para a crista do monte, mas foram abatidos. Nesse meio tempo, o inimigo tinha aberto intenso fogo de todos os seus baluartes em frente de Monte Castelo: Mazzancana,  Forace, Viteline, Valle e Abetaia, o corredor da morte.

     O fogo dos morteiros germânicos caia sobre o ponto de partida do 2º Batalhão do 1º Regimento, comandado pelo major Sizeno Sarmento. Esse batalhão, iniciando a marcha às 6 horas da manhã, com uma hora e meia de atraso, não teve êxito na missão de dar apoio ao 3º Batalhão do major Franklin.

Erro fatal de comunicação

     Cerca das 9h30 da manhã. a falsa notícia de que Mazzancana, Valle e Abetaia tinham sido tomadas ao inimigo, levou a artilharia brasileira a suspender o bombardeio na direção daquelas áreas. Fez ainda com que fossem dadas ordens ao 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria para limpar as referidas áreas, missão impossível de cumprir em face da violenta reação do inimigo.

     O coronel Aguinaldo Caiado de Castro, comandante do 1º Regimento, pediu a ajuda dos tanques americanos, mas foi informado de que eles estavam atolados na lama. O violento fogo de barragem dos alemães forçou uma retirada em ordem, mas de caráter geral. Durante essa calamidade,   o 1º Regimento sofreu 112 baixas e o 11º Regimento teve 33 baixas.

     Mascarenhas ainda estava no quartel-general de Porreta Terme, pois tinha de receber importantes visitantes, o Ministro da Aeronáutica do Brasil, Joaquim Pedro Salgado Filho e sua comitiva. Crittenberg estava presente. E também o major Walters, segundo Brayner, um homem de cujo trabalho Mascarenhas dependia exageradamente.

Ataque suspenso irrita americanos

     Castelo Branco, coberto de lama, irrompeu às 3 horas da tarde nessa distinta reunião. Ele já havia persuadido Zenóbio de que, para evitar inúteis sacrifícios, os esforços ofensivos deveriam terminar, e queria obter a aprovação do mais alto comando. Pouco depois, o próprio Zenóbio entrou no quartel-general de Porreta Terme e avisou que a operação contra Monte Castelo havia terminado.

     Crittenberger, irritado, criticou essa decisão, a seu ver, tomada cedo demais, enfatizando a circunstância de terem os brasileiros usado apenas 3.500 dos 12.000 projéteis de artilharia e morteiros colocados ao seu dispor.

     O Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, encontrando-se no meio dessa discussão, recebeu alguns esclarecimentos do coronel Brayner: "Na guerra, Sr. Ministro, as coisas nem sempre vão bem."

     Na tarde desse mesmo dia, as causas do fracasso brasileiro foram analisadas. Entre elas foram citados o mau tempo, as dificuldades do terreno, a ausência de qualquer elemento de surpresa e a falta de apoio dos aviões norte-americanos.

     Alegaram os brasileiros que, sem boa visibilidade, não seria possível fazer bom uso dos 12 mil projéteis de artilharia e morteiros. E alguns deles insistiram em que o plano de ataque da infantaria, sem diferença essencial do anterior,  que não dera bons resultados, deixara de inspirar aos soldados a confiança necessária para a demonstração da máxima combatividade.

     Depois, ainda no mesmo dia, por volta das 5 horas da tarde, Crittenberger e outros oficiais norte-americanos se reuniram com Mascarenhas, Zenóbio e Cordeiro, no Quartel General do 4º Corpo, em Taviano, ao sul de Porreta Terme.

Americanos duvidam de nossos "pracinhas"

Mascarenhas, de crista baixa, assumiu a responsabilidade do revés. Os brasileiros fizeram alegações em sua defesa, mas os norte-americanos continuaram a criticar a conduta das tropas da FEB, as quais, repetiam seguidamente, não tinham recebido suficiente treinamento.

Depois de ouvir a sugestão, feita por alguns norte-americanos, de que as tropas brasileiras deviam ser retiradas da frente de combate por falta de espírito ofensivo, Cordeiro assegurou-os de que eles estavam errados em seu juízo, e citou a promessa de ajuda norte-americana, que não foi cumprida.

No fim, os brasileiros não foram retirados da frente, mas foram dispensados, ao menos por algum tempo, de desempenhar um papel agressivo na Operação Defensiva-Agressiva. Eles deveriam passar os próximos meses de inverno defendendo uma frente de 15 km (na faixa entre Monte Belvedere e Lissano) e acompanhando todos os movimentos do inimigo.

Planejando o quarto ataque

     Em fins de janeiro, Mascarenhas foi da frente para Nápoles (Sul da Itália) a fim de inspecionar as unidades de apoio e conhecer as mais recentes notícias do Brasil, trazidas por Brayner, então de regresso.

     Brayner disse ter ouvido no Rio rumores de que Mascarenhas devia ser substituído e que havia desencorajado tal idéia. Mascarenhas propôs a Brayner que Ademar de Queiroz permanecesse como chefe da 3ª Seção e que Castelo Branco assumisse um novo posto, o de assistente do chefe do Estado-Maior, encarregado da 2ª e 3ª seções. Esse plano, que deixaria o Chefe do Estado Maior com autoridade direta apenas sobre a 1ª e 4ª Seções, foi rejeitado por Brayner.

     Mascarenhas e Brayner estavam ainda afastados da frente, a 8 de fevereiro de 1945, quando o comandante do Quarto Corpo, General Crittenberger, realizou uma reunião em Lucca, com os representantes do Brasil, Zenóbio da Costa e Castelo Branco.

     Os brasileiros, acompanhados por Vernon Walters, souberam que chegara o momento de ser preparada uma ofensiva geral, que recebeu o nome de Operação Encore [encore = repetição] O papel dos brasileiros, decidido na reunião de Lucca, seria a tomada de Monte Castelo, em íntima associação com a recém-chegada 10ª Divisão norte-americana da Montanha.

     Os brasileiros marchariam contra Monte Castelo depois que aquela Divisão da Montanha tivesse dominado os baluartes do oeste (Monte Belvedere, Monte Gorgolesco e Capela de Ronchidos) e dado início ao ataque a Monte della Toraccia. Depois da esperada queda de Monte Castelo, a missão da FEB era avançar na direção do Oeste, atacando Santa Maria e Villiana, Torre de Nerone e Castelnuovo.

Feijoada à italiana

    Para levantar o moral dos combatentes, todos os dias, até chegar o momento da ofensiva programada, os soldados da FEB foram alimentados com feijão-preto e arroz. A comida brasileira, de quando em quando servida, dependendo da chegada dos navios, era grandemente preferida por todos eles, às rações C ou K, consumidas durante os combates, e mais do que a comida fornecida pelos norte-americanos, que os nossos cozinheiros não sabiam preparar.

     Na noite de 18 de fevereiro a 10ª Divisão de Montanha surpreendeu o inimigo, tomando-lhe pontos a oeste de Belvedere, alguns dos quais tão escarpados que os soldados montanheses tiveram de usar cordas para chegar ao seu topo. Na noite seguinte (dia 19) a  Divisão norte-americana iniciou seu duro ataque a Monte Belvedere, sem cobertura de artilharia, enquanto os brasileiros, a distância do Leste, criavam uma diversão, por meio de um ataque com metralhadoras e pequenas armas de fogo.

     Ao alvorecer de 20 de fevereiro, Monte Belvedere caia e, horas depois, Monte Gorgolesco também estava nas mãos dos norte-americanos. Quando os resolutos soldados americanos atacaram Mazzancana, encontraram poderosa resistência, mas dessa vez tiveraram a ajuda de quase 150 canhões, inclusive da artilharia brasileira, cuja precisão muitos consideraram superior à da norte- americana.

Montando o Posto de Observação

     Mascarenhas, pronto para assumir pessoalmente o comando da nova ofensiva brasileira mudou-se na manhã seguinte (dia 20) para seu ponto de observação, uma modesta casa de campo a 5 km ao Sul de Monte Castelo. Ali dispunha ele de telefones para comunicar-se com os comandos do Quarto Corpo, da 10ª Divisão da Montanha, da Artilharia brasileira e do 1º Regimento de Infantaria. Entre os que se achavam ao seu lado estavam Zenóbio, Brayner e Walters. Os dias ensolarados e sem nuvens favoreciam de forma perfeita a aviação e a artilharia. Com a ajuda dos ataques da Força Aérea Brasileira, os montanheses norte-americanos forçaram  os alemães a evacuar a área de Mazzancana, ao redor de 5 horas da tarde (dia 20).

Quarto (e último) ataque a Monte Castelo

     Na manhã seguinte (21 de fevereiro de 1945) às 5h30, a vitoriosa Divisão de Montanha marchou sobre o Monte della Torraccia, ao Norte de Monte Castelo. Esse era o sinal para a FEB que, usando dois terços de sua infantaria e praticamente toda a artilharia, desfechou contra Monte Castelo o seu mais formidável ataque.

     Enquanto o coronel Nelson de Mello, que assumira o comando do 6º RI,   se incumbia de ações diversionárias ao leste, o principal assédio foi confiado aos 1º e 3º batalhões do 1º Regimento de Infantaria, sendo o último deles o Batalhão Franklin, que lutara com grande bravura durante o revés de 12 de dezembro de 1944.

     Castelo Branco e o oficial de artilharia,    Ademar de Queiroz passaram grande parte de seu tempo no posto de comando do coronel Caiado de Castro, que estava à frente do 1º Regimento. Como fora especificado no plano de ataque de Castelo sob a forma de duas pinças, o 1º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria, comandado por Olívio Gondim de Uzeda, avançou para Monte Castelo de Mazancana e do oeste, enquanto à sua direita o batalhão Franklin fazia um ataque frontal pelo sul. O batalhão de Orlando Ramagem (o 2º do 1º RI) marchou contra Abetaia e deu cobertura ao flanco direito do Batalhão Franklin. Importantes papéis de apoio foram também desempenhados pelos batalhões de Sizeno Sarmento (o 2º do 1º RI) e de Cândido Alves da Silva (O 3º do 11º RI).

     O Batalhão Uzeda fez bons progressos a partir de Mazzancana, mas se atrasou quando uma companhia da 10ª Divisão de Montanha tomou alguns de seus homens por alemães e fez fogo contra eles. O Batalhão Franklin, incumbido do ataque frontal, enfrentou as maiores dificuldades da operação, sob o fogo cruzado das casamatas germânicas.

Finalmente, Monte Castelo é nosso

     Assim, o avanço brasileiro não estava fazendo muito progresso às 4 da tarde (dia 21), quando Mascarenhas, em seu posto de observação, recebeu a visita de um grupo norte-americano, que incluia Clark, Truscot e Crittenberger. Antes da partida do grupo, Crittenberger fez observações quanto ao adiantado da hora. A fim de apressar as coisas, Mascarenhas telefonou a Uzeda e enviou Zenóbio e Brayner para falar  com Caiado de Castro.

     A Infantaria brasileira, ajudada por estrondoso bombardeio da artilharia dirigida por Cordeiro, alcançou seu objetivo cerca das 6h30 da tarde, sob a luz crepuscular.

     Estamos de posse do monte, exclamou Zenóbio, jubilosamente, ao telefonar para o posto de observação de Mascarenhas. Anunciou que os batalhões de Uzeda e Franklin tinham escalado o monte, fazendo alguns prisioneiros, embora muitos houvessem escapado. Enquanto a 10ª Divisão da Montanha ainda lutava para dominar o Monte della Torraccia, os brasileiros já preparavam a defesa de Monte Castelo. Ao redor das velhas edificações de pedra, de formidável aparência, mas grandemente danificadas, os italianos beijavam seus libertadores.

Resgatando os heróis do 3º ataque

     Como resultado da luta pela posse de Monte Castelo (21 de fevereiro de 1945) apenas 41 feridos brasileiros receberam cuidados médicos no posto de tratamento, enquanto que, em cada uma das derrotas anteriores, a 29 de novembro e a 12 de dezembro, o número de feridos havia subido para mais de uma centena.

     Em seguida à vitória, 14 cadáveres de brasileiros, mortos na fracassada investida de 12 de dezembro, foram retirados da neve, onde se achavam congelados. Para retirá-los das encostas, amarrados com cordas, foram necessárias muitas cautelas, pois os alemães haviam colocado armadilhas explosivas perto de cada morto.

     A vitória de Monte Castelo, importante no contexto da estratégia aliada, teve decisivo efeito sobre os brasileiros que, daí por diante, avançaram com mais confiança em si mesmos e com mais sucesso.

      Para ajudar a 10ª Divisão de Montanha, empenhada na batalha do Monte della Torracia, o major Sizeno Sarmento (um dos cadetes treinados por Castelo em 1927) levou o 2º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria à vitória, nas proximidades de La Serra (noite de 23-24 de fevereiro). Horas depois, Monte della Torraccia caia em poder dos norte-americanos.

Preparando o ataque a Castelnuovo

     O ataque do Grupo Leste, levado a efeito pelo 6º e 11º Regimentos de Infantaria (Regimentos Ipiranga e Tiradentes) a Castelnuovo, o último e mais oriental dos pontos elevados em poder dos alemães na Rodovia 64, foi planejado por Castelo e sua equipe, sendo subseqüentemente aprovado por Mascarenhas, numa reunião assistida por Zenóbio, Cordeiro e Brayner.

     Programado para 5 de março de 1945, não teve início sem que, antes, o sinal fosse dado pelos norte-americanos, a fim de sincronizá-lo com a operação da 10ª Divisão de Montanha ao Norte e a Leste, contra Castel d'Aiano e Monte della Castelana. Mas isso não impediu que os brasileiros marchassem para melhores posições, ao amanhecer do dia 5.

     Em Palazzina, local que dominava uma excelente vista do terreno onde a batalha de Castelnuovo seria travada, Brayner instalou o posto de observação da FEB. Aí, a partir do amanhecer de 5 de março de 1945, Brayner e Kruel esperaram Mascarenhas.

     Estavam sob a impressão de que Palazzina seria o posto mais avançado do comando, mas foi em vão que o esperaram. Mascarenhas, desejoso de exercer pessoalmente o controle da operação, decidiu instalar seu posto de comando em Riola, ao lado do posto de comando do 11º RI.

    Na opinião de Brayner, faltando a Riola a vista do campo de batalha, tal local não poderia inspirar grandes decisões. Além disso, a concentração de comandos, que descreveu como incluindo as fontes de decisões da 3ª Seção, da 1ª Divisão brasileira e do Quarto Corpo norte-americano, acabou por atrofiar a autoridade do coronel que comandava o 11º RI. Mas Mascarenhas permaneceu em Riola, com Ademar de Queiroz ao seu lado, tendo designado Castelo Branco para representá-lo em Palazzo, no posto de comando do 6º RI.

Iniciando o assalto

     Tal como fora planejado pela 3ª Seção, o ataque contra Castelnuovo devia ser desenvolvido sob a forma de um cerco. O cerco começou de manhã cedo (dia 5 de março), antes que os norte-americanos dessem o sinal para o início do ataque.

     O lº Batalhão do 11º Regimento de Infantaria, comandado por Manoel Rodrigues de Carvalho Lisboa, conquistou o controle de Precaria, ao Sul de Castelnuovo, enquanto o 2º Batalhão do mesmo Regimento, comandado por Orlando Ramagem, num movimento que lhe custou 22 baixas, alcançou o terreno a Sudeste de Castelnuovo.

     Com o sinal dos norte-americanos, dado ao meio-dia, o 1º e 2º Batalhões do 6º RI, comandados por João Carlos Gross e Henrique Cordeiro Oeste, iniciaram sua primeira missão, que era a de dominar as eficientes posições de fogo dos alemães em Soprassano, ao Sudoeste de Castelnuovo. Ao redor de Precaria, o 1º Batalhão do 11º RI cobriu o flanco do 6º RI e, ao mesmo tempo, apoiou o principal ataque imediato a Castelnuovo, executado do leste, pelos homens de Ramagem.

     Campos minados e pesado fogo inimigo retardaram o progresso do batalhão de Ramagem. Crittenberger, chegando a Riola, às 5 da tarde, queixou-se da demora pelos brasileiros e telefonou ao comandante do 6º RI, coronel Nelson de Mello, para enfatizar a tomada de Castelnuovo antes de cair a noite. O coronel então ordenou que o batalhão do major Gross continuasse rumo a Castelnuovo, sem esperar a tomada de Soprassano. Às 6 da tarde, com ajuda considerável da artilharia, Castelnuovo caia em poder da FEB. Ao mesmo tempo, o batalhão de Cordeiro, a Oeste, conquistava o controle de Soprassano.

A vitória e o reconhecimento americano

A relativa facilidade desses êxitos do 6º RI foi devida, em parte, à ação do 11º RI no sul e no leste. Foram aprisionados 98 alemães. Das quase 70 baixas brasileiras, cerca de metade foi sofrida pelo 2º Batalhão do 11º RI (o de Ramagem), que enfrentou dificuldades a leste, no início do dia.

     Crittenberger, tal como já havia feito por ocasião da vitória brasileira em Monte Castelo, enviou uma mensagem de congratulações a Mascarenhas, dessa vez mencionando também o valioso trabalho de Zenóbio na proteção do flanco esquerdo da Divisão da Montanha.

     Mascarenhas elogiou o trabalho de muitos, inclusive dos grupos de Artilharia de José de Souza Carvalho, Waldemar Levi Cardoso e Hugo Panasco Alvim, e os engenheiros do Cel. José Machado Lopes. O comandante da Divisão Brasileira declarou que a tomada de Castelnuovo foi notável pela precisão do planejamento e fidelidade da execução.

A "Ofensiva da Primavera"

     No início de abril de 1945, a linha de frente da FEB, estendendo-se ao Noroeste por cerca de 10 km, ia do sul da Região do Monte della Torraccia, perto do Monte Castelo, até as proximidades da Colina de Sassomolare, na direção Noroeste. Em torno da Colina de Sassomolare, a FEB estava em contato com a 10º Divisão de Montanha americana, cujo flanco Sul, à esquerda, os brasileiros deviam proteger.

     Com a Ofensiva da Primavera prestes a começar, a 8 de abril, Crittenberger convocou os generais ao quartel-general do 4º Corpo, em Castelluocio, bem ao sul das áreas disputadas, a fim de passar em revista as respectivas tarefas.

     Aí, Mascarenhas, acompanhado por Castelo Branco e Vernon Walters, ouviu o Gal. George Hays, da 10ª Divisão de Montanha exprimir suas preocupações com o poderio alemão nas colinas ao redor de Montese, a pequena cidade a oeste de Sassomolare. Mascarenhas sugeriu que a participação da FEB na Ofensiva da Primavera incluísse um ataque nessa área, oferta que logo foi aceita.

     O quartel general avançado da FEB foi mudado para Gaggio Montano, um pouco ao sul de Monte Castelo, enquanto que em Sassomolare foi instalada a 2º Seção, de Amaury Kruel, juntamente com um Posto de Observação. Olhando desse posto para Oeste, podia-se ver, da esquerda para a direita, alguns pontos da linha defendida pelos alemães: Montese, Monte Buffoni, Elevação 888 e Montello.

     Os brasileiros deviam avançar a Oeste de Sassomolare a 12 de abril, contra Montese e Sorreto, enquanto a 10ª Divisão de Montanha devia avançar contra Monte Pigna, Le Coste e Tole, ao norte e nordeste. Mas o nevoeiro e o tempo nublado na costa ocidental italiana, onde os americanos tinham suas bases aéreas, levaram o general Lucian Truscott, comandante do 5º Exército, a adiar o ataque até que as condições meteorológicas permitissem melhor apoio aéreo.

     Somente na manhã de 14 de abril, quando se soube que os aviões americanos de combate poderiam decolar sem problemas, Truscott comunicou a Crittenberger que "o show pode começar".

O ataque a Montese

     Às 9h45min da manhã a 10ª Divisão começou a desfechar os primeiros golpes. Mascarenhas, partilhando o posto de observação de Sassomolare com Zenóbio, Brayner, Kruel, Walters e outros, preparava-se para dirigir o ataque brasileiro, quando chegou o sinal de Crittenberger.

     Como nas batalhas anteriores, Castelo servia como representante de Mascarenhas do posto de comando do regimento a que tinha sido atribuído papel mais importante no ataque: desta vez, o 11º Regimento de Infantaria, comandado pelo Cel. Delmiro Pereira de Andrade.

     Às 12h15min do mesmo dia 14, Crittenberger notificou Mascarenhas que podia iniciar a ofensiva assim que desejasse. As 13h30 o 1º e 3º Batalhões do 11º RI, com apoio do 2º Batalhão do 1º RI avançaram sob o fogo do inimigo. Cada um dos batalhões do 11º RI tinha a ajuda de uma dezena de tanques leves e médios e de dois tanques pesados.

     Como o terreno estava inteiramente minado, os homens do batalhão de engenharia do coronel José Machado Lopes trabalharam exaustiva e heroicamente na limpeza da área, removendo as minas e armadilhas explosivas.

Tomando a praça

     O pelotão ousadamente liderado pelo tenente Iporã Nunes de Oliveira foi a primeira tropa a entrar em Montese. Imediatamente, o tenente enviou um mensageiro comandante de sua companhia e, como resultado disso, o comandante do 11º RI, Delmiro Pereira de Andrade fez sustar o fogo de artilharia contra Montese.

     Depois dessa penetração na cidade, ocorrida às 2h45 da tarde, a tropa de Iporã, e mais outro pelotão, passaram mais três horas conquistando os edifícios arruinados ainda em poder dos alemães.

     Enquanto Montese assim caiu em poder do 1º Batalhão do 11º RI, comandado por Manuel Rodrigues de Carvalho Lisboa, o 3º Batalhão do mesmo Regimento, comandado por Cândido Alves da Silva, cumpria sua tarefa a nordeste de Montese, ocupando a aldeia de Serreto, no caminho da posição que os alemães mantinham no Monte Buffoni e alcançava a Colina do Paravento, ao nordeste de Serreto. De grande ajuda ao Batalhão de Cândido, foi o avanço paralelo, feito à sua direita, pelo 2º Batalhão do 1º RI, comandado por Sizeno Sarmento.

O pesado confronto

     As batalhas de Montese, ainda por terminar ao fim do dia 14 de abril foram  as maiores de que os brasileiros participaram na Itália. Elas exigiram grandes demonstrações de coragem. Escreve o comandante do 11º RI, Delmiro Pereira de Andrade: "Durante os duros combates de Montese, Serreto e Paravento, os nossos batalhões foram castigados terrivelmente pelo fogo inimigo."

     Brayner, contudo, teve pontos a criticar. Apreciando as dificuldades encontradas pelos brasileiros na última parte desse dia 14 de abril, chegou ele à estarrecedora conclusão de que Mascarenhas foi um mero espectador e ignorava o que estava acontecendo. E todos se contentavam com a conquista de Montese, quando a missão impunha outros objetivos.

     Para os ataques do dia 15 de abril Mascarenhas tinha em mente substituir o já muito castigado 3º Batalhão do 11º RI, comandado pelo major Cândido Alves da Silva. O objetivo era o de avançar da Colina Paravento para os baluartes germânicos da Elevação 888 e em Montelo. Mas o coronel Delmiro Pereira de Andrade  insistiu em que seus homens fossem mantidos, uma vez que seu moral continuava alto.

     Considerando isso, e também porque atendia à economia de tempos e meios Mascarenhas deixou ao batalhão do major Cândido o ataque a ser desfechado da Colina de Paravento, que ficaria ocupada pelo 2º Batalhão do 1º RI.

A resistência alemã

     A resistência inimiga, porém, transformou Montese num inferno. Isso paralisou o corajoso avanço  inciado pela 7º Companhia, mas o tenente Iporã Nunes Oliveira, como seu bravo pelotão, utrapassou uma aldeia em ruínas além da Elevação 726. Enquanto isso, a 10ª Divisão de Montanha conquistava o controle do Monte Pigna e de La Coste.

     Mascarenhas, cuja Divisão em três dias, perdera 426 homens, incluindo 34 mortos (mas fazendo 452 prisioneiros) sentiu que um intervalo era necessário para a recuperação das tropas brasileiras. No dia 17 de abril, ainda cedinho, Mascarenhas recebeu ordens do 4º Corpo para suspender o ataque, isso porque a 10ª Divisão de Montanha penetrara nas defesas germânicas, apoderando-se de Tole e de Monte Mosca, e abrindo uma brecha que poderia ser aprofundada.

Continuam as intrigas

     Na noite de 21 de abril, durante a fase que se seguiu à luta na área de Montese, Mascarenhas foi ao gabinete de Brayner para lhe perguntar se Kruel tinha ou não ordenado que o Esquadrão de Reconhecimento, com seus 140 homens, fosse substituir os 3.200 homens do 1º RI ao longo do rio Panaro.

     Os rumores que Mascarenhas ouvira sobre o conscencioso chefe da 2ª Seção eram, na verdade, estranhos. E Brayner assegurou ao comandante-geral que tudo era falso.

     Mas, do incidente, surgiu a decisão de Kruel de deixar a FEB. E acrescenta Brayner:  "Às 3 horas da madrugada, estava pronto, com o jipe equipado, para partir a Nápoles. Não o permiti."

Brasileiros, sozinhos, conquistam Collechio

    O avanço contínuo levou a FEB a cruzar os rios que corriam para o norte, indo despejar suas águas no rio Pó: Panaro, Séchia, Enza, Parma e Baganza. Entrando em cidade após cidade, os soldados da vanguarda brasileira (o Esquadrão de Reconhecimento comandado pelo capitão Plínio Pitaluga) ouviam dos italianos o grito de "Viva os libertadores!"

     E notava que grupos de guerrilheiros "partegiani", favoráveis aos comunistas, e outros italianos há longo tempo espezinhados pelo fascismo, começavam a exercer suas vinganças sobre os chefes fascistas locais.

     Em 26 de abril ataques foram feitos a Collechio primeiro a sudeste e depois pelo nordeste. Durante a noite, quando caiu uma chuva torrencial, tais ataques foram suspensos e, ao serem renovados, na manhã do dia 27, a força brasileira tinha sido aumentada com mais duas Companhias.

     Às 8 horas da manhã a maior parte de Collechio tinha caído em poder do Mj. Ramagem. Algumas horas depois, o último bolsão de resistência foi dominado. Num castelo perto da estação rodoviária, os brasileiros emergiam de uma luta vitoriosa na qual não houve, segundo Brayner, nenhuma interferência de americanos para desfigurar o ritmo da operação.

     A ação dos brasileiros em Collechio aliviou a perigosa situação à esquerda do 4º Corpo. Dela resultou a captura de 400 alemães, juntamente com muito equipamento pertencente à vanguarda da 148ª Divisão de Infantaria germânica. Os brasileiros tiveram 16 feridos e um morto.

Bloqueio à 148ª Divisão germânica

     Os prisioneiros capturados em Collechio confirmaram a notícia já dada pelos "partegiani" de que a 148ª Divisão germânica, que viera do golfo de Gênova, alcançara a área em torno de Fornovo de Taro, 10 km a sudoeste de Collechio.

     Esta situação foi comunicada ao general Truscott e ao general Crittenberger na manhã de 27 de abril, quando, em sucessão, eles visitaram o quartel-general avançado da FEB em Montechio, onde encontraram Brayner.

     Este, que preferia o tato diplomático do bem educado Mark Clark, recebeu penosa impressão dos dois generais norte-americanos, em especial de Truscott, que lhe pareceu taciturno e aparentemente pouco cordial.

     Os dois generais insistiram em que os alemães em Fornovo, de modo algum, deveriam atravessar o rio Pó e tomar rumo ao Norte. "A 148ª Divisão não passará, general", declarou Brayner, calmamente, a Crittenberger.

     Mas, escreve Brayner, essa garantia não satisfez os norte-americanos, pois, depois de deixarem Montecchio, o comandante do 4º Corpo enviou pelo rádio uma mensagem a Mascarenhas dizendo contar com ele para evitar que elementos hostis, inclusive a 148ª Divisão alemã, cruzassem o rio Pó, acentuando: "Esta é uma grande oportunidade para aniquilarmos as forças hostis".

     E acrescentou que o comandante brasileiro devia trabalhar nesse sentido, em coordenação com o general Comandante da 34ª Divisão Americana. Mascarenhas, na área de Collechio, estava providenciando, com a ajuda de Zenóbio e Castelo, para que a Divisão brasileira se aproximasse de Fornovo, defendida pela 148ª Divisão germânica e pelos remanescentes da 90ª Divisão Blindada (Panzer), além de uma Divisão de Bersaglieri italianos (bersaglieri = atiradores).

Ataque a Fornovo

     Enquanto ao nordeste e ao noroeste de Fornovo contingentes do 1º RI e do 11º RI bloqueavam as possíveis saídas do inimigo, o 6º RI do coronel Nelson de Melo preparava ataque a Fornovo com ajuda de duas baterias de artilharia, do Esquadrão de Reconhecimento, de uma companhia de engenharia e de uma companhia norte-americana de tanques.

     Na manhã de 28 de abril Zenóbio telefonou a Mascarenhas, que se achava em Montecchio, propondo que mais um batalhão fosse lançado à luta, para ajudar o 6º RI.  Mascarenhas, apoiando-se na avaliação que Castelo fez da situação, declarou que esse batalhão adicional não seria necessário. Por isso, o movimento de cerco e ataque foi efetuado por três batalhões, como anteriormente fora planejado.

     A principal ofensiva foi desencadeada pelo major Gross, que avançou da região de Collechio, pelo sul. Quando se encontrava a 6 km de Fornovo, encontrou séria oposição, resistindo a violentos contra-ataques, às 9 horas da noite do dia 28, e à 1 hora da madrugada do dia 29.

     Enquanto isso, a curta distância de Fornovo, o 3º Batalhão do major Silvino, e o Esquadrão de Reconhecimento do capitão Pitaluga atacava  pelo sudoeste. Escreve Wondolowski: "Os brasileiros, muito decididos, estavam esmagando todas as tentativas alemãs de romper o cerco." Pode-se acrescentar que os brasileiros ainda dispuseram de tropas para mandar a Piacenza e a um bolsão ao Norte de Cremona e, assim, não precisaram de toda a sua força para a missão de bloquear a Rodovia 62.

Vigário negocia rendição alemã

     Na tarde de 27 de abril, um dia antes da ofensiva contra Fornovo, o major Cordeiro Oeste persuadiu o vigário de uma aldeia a levar aos alemães a sugestão de que se rendessem. O vigário caminhou 6 km até Respício, perto de Fornovo, e aí falou com oficiais alemães. Perguntado sobre o poderio e a localização das forças brasileiras, o vigário disse que os alemães estavam cercados e deviam se render.

     Um dos mais velhos desses oficiais, que aprimorara o seu italiano durante um período em que servira como Embaixador da Alemanha em Roma, pediu ao vigário que obtivesse por escrito condições para a rendição e voltasse com elas.

     Como resultado disso, na manhã do dia 28, muito cedo, antes de ser desfechado o ataque do 6º RI, Nelson de Mello, redigiu um ultimato de rendição incondicional e, através de Castelo Branco, pediu a aprovação de Mascarenhas aos seus termos.

     O vigário levou esse ultimato aos alemães e voltou com uma mensagem, assinada pelo major Kuhn, chefe do Estado-Maior da 148ª Divisão, dizendo que a resposta seria dada depois de consulta a seus superiores.

E toda a Divisão se rende

     Enquanto os alemães procrastinavam a decisão, o 6º RI procedeu de acordo com o plano. Então, às 10h30 da noite, depois que os homens de Gross repeliram forte contra-ataque inimigo, o major Kuhn e dois outros oficiais alemães cruzaram as linhas brasileiras para negociar os pormenores da rendição. Gross os conduziu ao posto de comando do 6º RI, em Collecchio.

     Nelson de Melo, sabedor de que a missão dos três alemães fora autorizada pelo comandante da 148ª Divisão, Otto Fretter Pico, dirigiu-se rapidamente a Montecchio para falar com Mascarenhas. Este ordenou a Brayner e Castelo que se entendessem com os negociadores alemães. Por isso, sobre a chuva, os dois oficiais foram levados a Colecchio.

     "Aí," conta Castelo Branco, "numa sala de uma vivenda de campo, fui apresentado a três oficiais alemães do Estado-Maior de uma Divisão (uma divisão prussiana se rende aos brasileiros!). Pediram condições para a rendição. Dissemos que só podia ser incondicional. Falaram, falaram em honra militar e em princípios de humanidade... e aceitaram a rendição!

     "São alguns milhares de homens,    dois generais, etc. Como resultados dos termos impostos na reunião de Collecchio, que durou toda a noite, que foram modificados apenas pela insistência de Mascarenhas de que depusessem imediatamente as armas (a 29 de abril e não a 30), a primeira Divisão germânica a capitular na Itália se rendeu aos brasileiros.

     "Nada menos de 14.779 alemães e italianos se tornaram prisioneiros em dois campos próximos, instalados pelos brasileiros. O general alemão Otto Fretter Pico e o general italiano Mário Carloni foram escoltados até Florença pelo general Falconiere e general Zenóbio, que os entregaram ao 5º Exército norte-americano, juntamente com 6 milhões de liras também tomados pelos brasileiros."

     Numa luta, nos arredores de Fornovo, cinco brasileiros foram mortos e cerca de 50 foram feridos. O que tinha sido conseguido era notável em operações de guerra: a rendição de uma Divisão alemã a uma única Divisão aliada, a brasileira.

Viva, a guerra acabou !!!
(8 de maio de 1945)

     A 30 de abril, enquanto se processava a rendição da 148ª Divisão germânica, a FEB foi instruída pelo 4º Corpo norte-americano para continuar a cortar os movimentos dos alemães no sul e a ocupar, a oeste de Fornovo, a área ao redor de Alessandria, onde era sabido estar o 75º Corpo do Exército germânico.

     A fim de trocar idéias sobre essa nova ofensiva contra o inimigo, Castelo Branco voou, a 2 de maio, para o posto de comando do 4º Corpo, recentemente instalado em Milão. Aí, quando ele se encontrou, uma noite, com um general norte-americano, mais um general inglês e dois intérpretes, novos e surpreendentes desenvolvimentos foram discutidos.

      As notícias da morte de Adolf Hitler tinham sido recebidas a 1º de maio e, em Milão,  já os corpos de Mussolini, de sua amante e de seus últimos colaboradores, estavam dependurados pelos pés nas traves de um posto de gasolina.

     Quando os oficiais discutiam táticas militares a serem empregadas no noroeste da Itália, receberam as notícias de que generais alemães se dirigiam ao quartel-general de Milão a fim de se renderem.

     Os semblantes de todos se tornaram radiantes. Os papéis em que trabalhavam no planejamento de operações táticas foram postos de parte, e cumprimentos mútuos foram trocados, quando um general alemão foi introduzido no recinto. Polidamente, ele se congratulou com os vencedores.

Epílogo

[ Em 8 de maio, a Alemanha se rende incondicionalmente, determinando o fim da guerra na Europa. O Japão permanecia obstinado no prosseguimento da Guerra, mas duas bombas, uma sobre Hiroshima e outra sobre Nagasaki (iniciando a era atômica), não deixaram dúvidas de que o poderio japonês estava abalado.

E, no dia 14 de agosto, o governo japonês aceitou os termos de rendição propostos pelos aliados e o Imperador Hiroito, em mensagem radiofônica, anunciou ao seu povo a derrota do Japão. Terminava a última fase da guerra, e se iniciava o duro e longo processo da paz. ]

     Castelo Branco, em face dos festejos da vitória aliada em Verona e em Milão, e dos preparativos de Mascarenhas para um almoço comemorativo em Alessandria, no dia 13 de maio, sugeriu que seria apropriado relembrar os que haviam morrido na campanha da FEB, em torno de 451 pracinhas.

     Assim, a 11 de maio, na Catedral della Madona, em Alessandria, foi celebrada uma missa cantada solene, com um coro italiano magnífico e um sermão comovente do capelão. Mascarenhas depositou flores num sepulcro simbólico.

     O mês de maio foi um mês de banquetes, nos quais a FEB apresentou cardápios impressos, com pratos como Salada a Monte Castelo, Filé a Montese, Pastéis a Castelnuovo, etc. Foi também um mês de paradas e de entregas de medalhas e de citações.

     Quando os generais Truscott e Crittenberger foram a Alessandria, a 19 de maio para conferir decorações aos brasileiros, Castelo Branco recebeu do Exército americano a Estrela de Bronze, entregue pelo comandante do 5º Exército. 

     Maio de 1945 foi também um mês de diversões para os soldados brasileiros. Eles receberam permissão para visitar as cidades do Sul da França e a região dos lagos, ao Norte da Itália. Depois, a FEB formou clubes de oficiais e de soldados para danças,  exibição de filmes e jogos.

     Os italianos descobriram que os brasileiros eram entusiásticos professores de samba e bons jogadores de futebol.

     Finalmente, a 6 de julho de 1945, o primeiro contingente brasileiro, de 4.660 soldados e 27l oficiais deixou Nápoles no navio "General Meiggs", sob o comando do Gal. Zenóbio da Costa.

     Cordeiro de Farias se tornou comandante superior dos homens que permaneciam na Itália, pois Mascarenhas, achando que devia chegar ao Brasil antes daquele contingente, no mesmo dia 6 de julho, deixou a Itália de avião, com um major e dois capitães, mais o chefe interino do Estado-Maior, Castelo Branco.


F I M

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