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Fonte:
Luiz Caversan
Folha Ilustrada
Online
20/09/2003 - 03h11

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Enquanto familiares de artistas já falecidos entram numa guerra sem fronteiras para
dificultar a divulgação de sua obra, surge, no caminho oposto, um sinal promissor: a
família de Vinícius de Moraes acaba de disponibilizar na Internet toda a obra do grande escritor, poeta e compositor. Eu disse TODA. São poemas, crônicas, composições, gravações completas dos CD's e
tudo o mais que você possa imaginar. É uma grande dádiva à cultura brasileira e um
exemplo a ser seguido. Que bom seria se
todos fossem iguais a você!
(Paulo Victorino, Webmaster da Pitoresco)
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No último dia
11, o movimento "Livros Cruzados" ("bookcrossing') propôs que livros
fossem abandonados em locais públicos para que um número maior de pessoas pudesse
desfrutá-los.
Uma
ação isolada inspirada na iniciativa agregou poder de fogo respeitável ao ato de
disponibilizar gratuitamente a leitura. Não só de um livro, mas de uma obra; não de um
autor qualquer, mas de um dos maiores poetas brasileiros, Vinicius de Moraes.
Desde o dia 11, tudo o que foi escrito e publicado por Vinicius
(1913-80) pode ser acessado gratuitamente na internet, pelo site (www.viniciusdemoraes.com.br).
Detalhe fundamental: erros que permaneciam havia anos no trabalho do escritor publicado em
papel foram eliminados na versão eletrônica.

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Com exceção da
correspondência de Vinicius (lançada recentemente em livro), a produção poética, a
prosa, as letras de música e as críticas de cinema estão ali, somando mais de 1.500
tópicos, além de dezenas de fotos, capas de livros e discos, trechos de áudio das
músicas, notas informativas, biografia e textos sobre o autor.
"A
idéia dos herdeiros do Vinicius foi resgatar o lado literário, que ficou obscurecido
pela presença marcante do autor de música popular", diz André Vallias, 40,
designer e responsável pela criação, bancada pela VM Produções, empresa dos herdeiros
do poeta.
Além da novidade de permitir o acesso gratuito à obra integral
de um autor ("Não existe nada parecido no Brasil", afirma Vallias), o site
oferece também a oportunidade de o internauta criar sua própria antologia de textos.

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Se possui uma ou
outra falha passível de correção (como a precária identificação das fotos ou a
ausência de algumas letras de música), o site impressiona pela riqueza do material,
integrado por raridades como uma letra inédita de Vinicius feita no final dos 70 para
canção de Francis Hime, ou o texto de Rubem Braga (1913-90) para a "orelha" da
primeira antologia poética (1954).
A revisão do trabalho e a detecção e eliminação de erros
ficou a cargo do professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de
Janeiro Eucanaã Ferraz, 42. "Ao longo da obra de Vinicius havia pequenos erros que
foram sendo esquecidos com o tempo", diz ele, que aponta um desses problemas na mais
do que célebre "Garota de Ipanema".
Nas sucessivas edições da letra, dois versos que deveriam ser
indagações acabaram se tornando afirmações. Em vez de "Ah, por que estou tão
sozinho?/ Ah, por que tudo é tão triste?", consagrou-se "Ah, porque estou tão
sozinho/ Ah, porque tudo é tão triste".

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Outro desses
detalhes determinantes para o entendimento, agora não de um poema apenas, mas da própria
trajetória do autor: na primeira reunião de sua poesia realizada em 1968 pela editora
Aguilar, Vinicius concordou com o organizador da coletânea, Afrânio Coutinho, em agrupar
livros e realocar poemas.
"Isso fez, por exemplo, com que o livro "Poemas, Sonetos e Baladas",
publicado em 1946 e considerado um divisor de águas na obra de Vinicius, deixasse de
existir como tal."
No site, os versos dele estão de novo juntos, há uma
reprodução da capa e nota introdutória na qual consta, entre outras, a informação
segundo a qual houve uma tiragem de "20 exemplares em papel bufon creme numerados de
23 a 42, tendo cada exemplar um poema manuscrito do autor".

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Na edição mais
recente das obras completas, de 1998, foi encontrado um tipo diverso de problema, também
corrigido: o poema "Amor nos Três Pavimentos" foi publicado sem título,
emendado ao "Soneto da Intimidade".
"Só
quem tem conhecimento de poesia poderia perceber a mudança de um soneto para um
poema", diz Ferraz.
Outro erro
retificado, desta vez no "Soneto da Fidelidade": o correto no terceiro verso da
segunda estrofe é "E rir meu riso e derramar meu pranto", nunca "E rir
meus riso...", como está na versão em papel.

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Ao reformatar as
poesias musicadas e letras (cuja versificação foi modificada para atender a limites de
espaço nas capas dos discos), Ferraz detectou alterações que comprometiam o sentido.
Como no
caso de "Pelos Caminhos da Vida", cuja letra correta é "Ouvirás na voz do
vento/ meu constante adeus/ e meu coração batendo/ no mesmo passo dos teus", e não
"Ouvirás a voz do vento..."

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