João Candido - "Portinari
era um nome esmagador
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Texto:
Fábio Farah
Revista "Isto É Gente"
Edição 223 - 10/11/2003

Imagens:
"Isto É Gente" e "Agência Radiobrás"


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O filho de Candido Portinari comemora o centenário de nascimento do pintor e fala pela primeira vez da relação terna e difícil com seu pai.
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     João Candido Portinari, 64 anos, cresceu acompanhando o pai, o pintor Candido Portinari, em visitas a galerias de arte ao redor do mundo. "Achava chatíssimo. Como lamentei mais tarde não ter aproveitado aquilo", diz ele. Aos 40 anos, em visita ao Museu Van Gogh, na Holanda, ele teve a idéia de criar o Projeto Portinari, cujo objetivo é divulgar a obra do pintor, e percorreu mais de vinte países catalogando as obras do pai. Para ele, um dos pontos altos da celebração deste ano de centenário do nascimento de Portinari, nascido em 30 de dezembro de 1903, será a inauguração da exposição Portinari Pintor da Paz, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, dia 19 de novembro. Matemático com doutorado em engenharia de telecomunicações, João é pai de três filhos e identifica na caçula Maria Cândida, de sete anos, o gene artístico. "Ela é uma grande desenhista", diz ele.

Quando descobriu que tinha um pai pintor?
Aos 8 ou 9 anos perguntei para minha mãe porque meu pai não trabalhava. Ela disse:
"Como não trabalha?" Respondi: "Ele fica aí, pintando o dia todo". Enquanto os pais dos meus colegas saíam de manhã, iam para seus escritórios e voltavam à noite, ele ficava pintando em casa. Eu não tinha idéia do que era isso e sentia um pouco de vergonha de dizer aos colegas que ele era pintor. Como se fosse uma coisa meio pejorativa, meio boêmia, embora ele fosse o oposto de um boêmio.

Como Portinari era como pai?
Severo e exigente – e essa exigência começava por ele próprio –, mas tinha uma ternura muito grande. Nas fotografias de infância estou sempre pendurado no pescoço dele. Me lembro da mão dele na minha testa quando eu ficava doente. É uma lembrança muito forte, muito nítida. Eu não sabia ainda o tamanho e o poder daquela mão.


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Ele era brincalhão?
À noite ele me contava uma história que não acabava nunca. Não lia livro nenhum, ele mesmo inventava. Era a história do canela de vidro: um artista de circo – acho que era trapezista –, que sofre um acidente, quebra a perna e coloca vidro no lugar. Eu sempre esperava ansioso o capítulo seguinte.

Ele lhe incentivava a desenhar ou a pintar?
Ao contrário. Ele achava que eu não deveria seguir esse caminho por uma razão prática. Dizia: "Você pode ser um engenheiro mais ou menos, um médico mais ou menos,
um advogado mais ou menos, mas se for um pintor mais ou menos, você morre de fome". E minha paixão mesmo sempre foram as ciências exatas, a matemática. Desde pequeno
tinha essa inclinação.

O que ele achava disso?
Embora não tivesse feito curso formal – estudou até o terceiro ano do ensino fundamental –, ele era muito inteligente, curioso e consciente. Tinha fascínio pela ciência, Einstein, astronomia. Era uma coisa quase mística. Muito cedo ele me deu um microscópio e, quando eu entrava em uma livraria, saía com um carregamento de livros.


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Quem freqüentava a casa de vocês no Rio?
As macarronadas que minha mãe fazia reuniam facilmente 30, 40, 50 pessoas. Entrava e saía gente o tempo todo. Os amigos dele eram pessoas fascinantes, como Manoel Bandeira, Graciliano Ramos, Villa-Lobos. Era a nata intelectual da época.

Como foi sua relação com seu pai na adolescência?
Entre os 16 e 17 anos comecei a achar o mundo da rua mais interessante do que minha casa. Eu morava no Leme, jogava futebol de praia, pegava jacaré e tinha minha turminha. Então passei a ter mais prazer na companhia desse pessoal e a não entender quem era aquele homem dentro da minha casa. Acho que ele ficou magoado de sentir que aquele carinho tão grande que tínhamos quando eu era criança havia se transformado em incompreensão e desconhecimento da minha parte.

Era difícil ser filho de Portinari?
A coisa mais difícil era a presença monumental daquele nome na minha vida. Na inauguração de suas exposições estavam, com freqüência, o presidente da República e toda a intelectualidade. Portinari era um nome esmagador para mim. Se eu fosse a alguma festa com três ou quatro colegas, na hora das apresentações as pessoas diziam: Esse é o Pedro, esse é o Carlos, esse é o José e esse é o filho do Portinari. Aquilo começou a me incomodar e com dezoito anos fui
embora do Brasil.


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O motivo foi esse?
O motivo oficial era estudar matemática na França. Mas acho que o grande motivo mesmo era que eu queria fazer meu próprio caminho. Não queria percorrer um caminho já traçado para mim. Eu tinha uma tia casada com um francês que era um grande professor de matemática. Como bom francês, ele me convenceu de que o único lugar onde eu poderia estudar matemática de verdade era na França. Evidentemente ele estava errado, mas me convenceu com tanta paixão que nem discuti. Na época ele era uma figura que, para mim, rivalizava em importância com meu pai. Ele era cientista, esportista, herói de guerra. Então ele podia ser um herói para mim também. Só fui redescobrir o meu herói muitos anos mais tarde, que era o meu pai.

Que imagem fazia da França?
Tinha estado lá pela primeira vez após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946. Havia um clima de devastação e era grande a desconfiança e a agressividade entre as pessoas, pois muitos franceses colaboraram com os nazistas. Lembro do inverno frio, cinza, de uma vida um pouco tensa. Lembro de um restaurante onde entrei com meu pai e no final da refeição eles serviram café e cubinhos de açúcar. Peguei dois cubinhos e o garçom me deu uma bronca, perguntando se eu não sabia que o açúcar estava racionado e que cada pessoa só tinha direito a um cubinho. Isso dava uma idéia do clima tenso. Mas as lembranças não são ruins.

Estudou em outros países além da França?
No Uruguai e na Argentina. Meu pai viajava muito e eu ia a reboque. Isso incomodava um pouco, pois eu tinha de chegar em um lugar desconhecido, ingressar na escola e mudar os colegas.

Quando se reaproximaram?
O marco divisor foi a nossa estadia de seis ou sete meses em Israel. Eu tinha 17 anos e ele foi convidado para fazer uma grande exposição itinerante no país. Foi o primeiro pintor não judeu a ser convidado pelo presidente da República de Israel e foi um estrondo. Ele estava um pouco depressivo, mas lá tomou uma injeção de motivação.


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Ele já havia recebido o diagnóstico do
envenenamento por tintas?

Isso aconteceu dois anos antes, em 1954. Ele teve uma hemorragia digestiva e pela primeira vez se diagnosticou a doença que iria matá-lo. Ele foi proibido de pintar. Temos no Projeto Portinari recortes da imprensa na época. Em um ele diz: "Estou proibido de viver". Foi quando começou a fazer o trabalho com lápis de cor.

Conversaram sobre a doença?
Eu não tinha intimidade para falar sobre um assunto desse.

De que forma a experiência em Israel o transformou?
Eu era garotão de praia, jogava futebol e andava com o pessoal meio malandro do morro da Babilônia, no Leme. De repente me vi em um kibutz onde havia uma juventude seriamente empenhada em construir comunitariamente
uma nação. Aquilo foi um choque. Voltei de Israel com
outra cabeça, resolvido a estudar. Durante o dia eu
fechava as venezianas do meu quarto e ligava o abajur
para não ver a praia.

Como essa viagem aproximou vocês?
Estávamos juntos o tempo todo. Talvez o ambiente que estava me impactando e transformando estivesse também impactando a ele. Estávamos vendo juntos uma coisa nova para ambos. Quando voltamos ao Brasil, tenho a impressão de que ele ficou muito do meu lado, inclusive quando comecei a preparar a minha ida para a França logo depois. Ele me apoiou imediatamente e de todas as maneiras, apesar da separação.

Qual foi o momento mais difícil de sua vida solitária
no Exterior?

Eu estava fazendo barra fixa na sala de ginástica quando escorreguei, bati o rosto no chão e me machuquei. Saiu muito sangue. Na enfermaria eles colocaram na ferida sais da medicina francesa daquela época e me deram um papelzinho para ir ao hospital. Fui andando sozinho até chegar lá. O lugar estava cheio de soldados feridos, pois a França estava em guerra com a Indochina e a Coréia. Fui costurado e a situação toda me chocou muito.

Como foi o reencontro com seus pais?
Foi depois de um ano que eu estava lá. Quando eu os encontrei na estação de trem, achei os dois pequenos. Meu pai e minha mãe pareciam menores do que eu imaginava. Talvez pela primeira vez eu tenha sentido na vida que eles eram frágeis. Tive muita vontade de protegê-los. Foi uma sensação curiosa. Também vi meu pai com olhos de alguém que também já tinha tido uma experiência sozinho.


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Que passeios fez com eles?
Eu levei os dois ao planetário. Enquanto as luzes se apagavam e as estrelas apareciam no teto, violinos tocavam uma peça de Wagner. Ficamos encantados. E meu pai me perguntava coisas. Ali se criou um outro nível de diálogo entre nós. Foi muito gratificante poder falar com ele como alguém que também detinha uma pequena parcela de saber que ele não detinha.

Alguém da família recebeu o gene artístico?
Minha filha Maria Cândida, de 7 anos. Ela fez um desenho
que me deixou absolutamente estupefato. É um desenho
típico da cena do nascimento de Cristo. Ela me disse: "Olha papai, essa aqui é a menina Jesus". Eu nunca tinha ouvido isso e pensei: "Já é feminista desde pequena". Desde que se entende por gente ela desenha. É sua grande paixão. Ela é uma grande desenhista. Pode ser que tenha passado um pouquinho do gene aí.


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Responsável: Paulo Victorino
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