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Texto:
CASSIANO ELEK MACHADO
Folha
Ilustrada Online
28/11/2001 - 03h59
Imagens:
do livro "Secret Knowledge"

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Apesar de suscitado há mais de três anos,
este assunto continua despertando controvérsias, razão pela qual voltamos a publicá-lo.
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Quando chegou
às bancas, a edição de 31 de janeiro do ano passado da revista "The New
Yorker" provocou uma espécie de "11 de setembro" entre historiadores da
arte de todo o mundo.
Nela, um artigo de 14 páginas abalava as "torres
gêmeas" da historiografia artística ao revelar que o mestre contemporâneo David
Hockney, 64, havia descoberto um novo modo de compreender a origem do virtuosismo da maior
parte dos grandes pintores dos últimos seis séculos.

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O "elo
perdido" apresentado por ele era a idéia de que artistas já utilizavam desde 1430
uma técnica semelhante à popularizada por Andy Warhol no século 20. Se o pai da pintura
pop usava slides para projetar no quadro em branco a imagem que pintaria por cima com
fidelidade, grandes mestres o faziam apenas com primitivas lentes e espelhos.
Hockney não poupava quase ninguém. Do mestre holandês Van
Eyck, do começo do século 15, até o francês Henri Fantin-Latour (1836-1904), a maior
parte dos cânones da arte ocidental teria usado truques, ou "colado", como
chegou a brincar a "The New Yorker".

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Lançada a
ofensiva, Hockney teve de se esconder em seu ateliê na Califórnia, como um membro do
Taleban nas montanhas de Candahar, tamanha a repercussão de suas idéias. "O artigo
provocou um Niagara de respostas.
Escrevo sobre
todo tipo de coisa. Estou acostumado a receber cartas. Mas nunca imaginei algo
assim", declarou Weschler sobre seu artigo na "The New Yorker", onde
escreve desde 1980.
A catarata de críticas e elogios parece ter estimulado Hockney.
Menos de dois anos depois, seu livro sobre o assunto ficou pronto.
"Conhecimento Secreto", que sai no Brasil poucas
semanas depois de ser lançado nos Estados Unidos e Inglaterra, vem causando tanto
rebuliço entre os historiadores de arte que a Universidade de Nova York convidou uma
seleção mundial deles para se degladiar com Hockney este fim de semana (leia ao lado).
Não é preciso muita imaginação para prever as principais perguntas que o
artista-teórico terá que rebater.
Em seu livro, ele salienta que era vastamente sabido desde a
antiguidade que quando a luz passa por um pequeno orifício para uma área delimitada e
escura, uma imagem invertida do exterior aparece na parede oposta ao orifício. Era a
chamada câmara escura, tataravó da fotografia.
Tendo esse tipo de experiência como base, artistas já do
século 15 fizeram, para Hockney, projeções dos modelos de suas pinturas usando espelhos
côncavos.
Para chegar a isso, o artista partiu, entre outros elementos, da
célebre pintura "O Casamento dos Arnolfini" (1434), de Van Eyck. No fundo da
cena, que mostra os dois noivos de mãos dadas, há um espelho côncavo como o que seria
necessário para atingir alguns detalhes virtuosísticos da obra.
Cerca de cem anos mais tarde, outros artistas também da atual
Holanda e do norte da Itália teriam resgatado o princípio da câmera escura e adaptado
nesse tipo de projeção natural as primeiras lentes de aumento.
Com elas, em pleno século 17, se podia projetar com bastante
foco a imagem de modelos ou de uma natureza-morta. Com a projeção sobre a tela, o
artista poderia fazer marcações que permitiriam que ele melhorasse muito a
perspectiva e sombreamento de suas pinturas.

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Surgiam assim,
para Hockney, as obras dos artistas considerados os grandes entendedores do funcionamento
do olho humano, como Caravaggio (1571-1610), Velázquez (1599-1660), Vermeer (1632-1675) e
Ingres (1780-1867).
O último deles, cuja habilidade pictórica acendeu pela primeira
vez a lampadinha na cabeça de Hockney, originando a pesquisa, teria usado também um
dispositivo mais sofisticado.
A chamada câmera lúcida é um instrumento patenteado em 1806
que é constituído por prismas anexados a uma haste que permitem que se observe
simultaneamente um objeto e a imagem deste projetada sobre uma folha de papel.
E aí entram as
perguntas dos críticos que vão encontrar com Hockney este fim de semana em Nova York.
Como, até hoje, não se documentou o uso de lentes, como as que Caravaggio teria
utilizado, ou de prismas, como os de Ingres?
"Os artistas estavam simplesmente mantendo sua técnica a
salvo de seus rivais. Você acha que no Vale do Silício as pessoas contam umas para as
outras o que estão fazendo?", respondeu Hockney a uma repórter do jornal inglês
"The Times".
Eis aí o
"Conhecimento Secreto" sobre o qual fala Hockney, agora exposto ao exame de
qualquer lente.

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QUEM É DAVID HOCKNEY

Fonte: Companhia nas Artes
Bradford, Inglaterra, 1937
David Hockney estudou, entre 1959 e 1962, no Royal College of Art
de Londres, expondo em 1961 na Young Contemporaries Exhibition e, em 1964, mudando-se para
a Califórnia, nos Estados Unidos, onde se fixaria definitivamente.
Realizando, além de pinturas, gravuras, desenhos e fotografias, também cenografias para
o teatro (como para a peça Jarrys Ubu Roi, no Royal Court Theatre de Londres, em
1966), o artista recentemente participou da Bienal de São Paulo (1989) e teve uma
exposição retrospectiva dos seus desenhos na Royal Academy de Londres (1995-96), estando
presente na mostra Enconters: New Art from Old, na National Gallery de Londres (2000). Em
2001 Hockney lançou seu polêmico livro Conhecimento Secreto, sobre os procedimentos
técnicos da pintura figurativa ocidental.
Um dos mais importantes artistas vivos, David Hockney iniciou-se
dentro do movimento da PopArt,
destacando-se no panorama da arte inglesa dos anos 60 com imagens irônicas e corrosivas.
Mudando-se para
os Estados Unidos o artista se aproximaria de uma poética mais solar e luminosa, em que
se percebe o prazer da pintura. Dono de uma figuração de índole por vezes algo
abstrata, em retratos, naturezas mortas, paisagens e cenas de interiores trabalhadas
através das mais variadas técnicas, David Hockney revela sempre em suas obras um
extraordinário talento gráfico
"CONHECIMENTO SECRETO"
(O LIVRO)

David Hockney, um dos ícones da pop art, mostra uma
faceta pouco conhecida do público, a de observador perspicaz e profundo conhecedor de
arte. Ele acredita que, no passado, diversos pintores utilizaram objetos ópticos para
solucionar suas obras.
Traduzido para o português e com um texto
bem-humorado, disseca os efeitos da luz em Caravaggio, objetos desfocados em Vermeer,
entre outros, e suscita polêmica. - Editora: Cosac & Naify -
ISBN: 8575030671 - Ano: 2001 - Edição: 1 - Número de páginas: 296 -
Acabamento: Capa Dura - Formato: Grande - Preço de capa: R$167,00
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