Maria Martins - Uma artista
adiante de seu tempo

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Texto:
Paulo Victorino (Pitoresco)

Imagens:
Reprodução


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"Oitavo Véu" (1948) 102 x 112 x 92 cm
Nesta obra, a escultora usou como modelo a sua filha Anna Maria. Uma releitura do tema levou, mais tarde à criação de Salomé. Em mais de uma ocasião, a artista se serviu de temas cristões para sua esculturas. "Oitavo Véu" está avaliado em mais de 500 mil dólares.
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Escultora, mais que pintora, conhecida mais na Europa e Estados Unidos do que em sua terra natal, a brasileira Maria de Lourdes Faria Alves Martins, cujo nome artístico era Maria Martins (ou "simplesmente Maria" como diz um catálogo de exposição) vai ter sua biografia lançada pela editora Gryphus.

Quem a escreveu foi a jornalista Ana Arruda Callado, viúva do escritor Antônio Callado e terá um título tão singelo quanto o nome da artista: "Maria Martins – Uma biografia".


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"A mulher que perdeu a sombra" (1946)
Exposta na 24ª Bienal de São Paulo

     O nome pode ser trivial, comum a outras tantas Marias que vivem por este Brasil afora. Mas a artista não é. Avançada para sua época, desprezando convenções e preconceitos, interpretando uma "George Sand" tupiniquim, Maria Martins atirou-se à luta destacando-se na escultura, um nicho de arte reservado aos homens e onde uma mulher dificilmente triunfaria.

     Na vida particular, desafiou a sociedade e se sobrepôs a ela, vivendo romances proibidos, como o que manteve em Nova York com Marcel Duchamp, quando ela era ainda casada com o embaixador brasileiro Carlos Martins.

     Maria Martins nasceu em 1900 em Campanha, uma pequena cidade mineira próxima a Varginha e morreu no Rio de Janeiro em 1973. Estudou pintura em Paris mas breve se interessou pela escultura. Ainda na França começou a trabalhar a madeira e, no Japão, aprendeu a modelar terracota.


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"Sem título" (1951) - 42 x 44 x 13 cm
Acervo do MAC-SP

     Somente a partir de 1939 passou a utilizar o bronze, que passou, daí em diante, a ser o principal suporte à sua obra. No Brasil, sua presença maior se deu na Bienal de São Paulo, da qual participou desde o primeiro evento, em 1951. Na Bienal de 1955 chegou o reconhecimento, ao ser premiada com o título de melhor escultor nacional.

     Mas sua carreira encontrou maior brilhantismo no exterior. Em 1941 foi destaque na Corcoran Gallery of Art em Washington e um dos trabalhos expostos foi adquirido pelo Museum of Modern Art in New York. Estava aberto o caminho. Nomes influentes passaram a se interessar por ela e, em breve, suas esculturas começaram a fazer parte do acervo de importantes colecionadores, como Max Jimenez, da Costa Rica, Federico Cantu, do México e Mário Carreño, de Cuba.

     Em "Oitavo véu" Maria Martins usa como modelo sua filha Anna Maria, mas avança declaradamente para o surreal, distorcendo a cabeça, as mãos e os pés, numa representação grotesca da forma das raízes das plantas, que a fascinaram no contato com a flora amazônica.

     Todavia, o título conduz à simbologia cristã. Uma releitura deste mesmo tema, conduziu-a, mais tarde a executar a escultura de Salomé, posicionada de forma idêntica ao "Oitavo véu", mas com maior destaque à sensualidade da personagem que seduziu a realeza e fez João Batista perder a cabeça.

     A Segunda Guerra Mundial,  levando ao exílio grandes artistas europeus, traçou o destino de Marcel Duchamp e Maria Martins, que se encontraram em Manhattan, onde a artista vivia, iniciando-se um romance a portas fechadas, para não escandalizar a sociedade da época, dado que Maria era ainda casada. A grande aproximação entre os dois, permitiu que a artista, em momentos, passasse para a condição de modelo, posando para Duchamp na realização de alguns esboços.


SAIBA MAIS
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Menina (1955)
Desenho a nanquim


O livro - Biografia capta o perfil
transgressor de Maria Martins

Luiz Fernando Vianna
JB Online (Caderno B)
14 de novembro de 2004


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Sem título - 126 x 115 x 43

     Ela se recusou a ser apenas mais uma Maria. Foi amante de Benito Mussolini e de Marcel Duchamp, amiga de Picasso e Mondrian, entrevistou Mao-Tsé Tung e fez, no início do século passado, coisas que eram impensáveis para uma mulher. Não bastasse tudo isso, ainda foi uma das maiores artistas plásticas brasileiras. A escultora Maria Martins (1894-1973) ganha, enfim, uma biografia, escrita pela jornalista, escritora e professora Ana Arruda Callado, viúva do escritor Antonio Callado. Maria Martins - Uma biografia (Gryphus) mostra como Maria de Lourdes Faria Alves, nascida na pequena Campanha da Princesa, em Minas Gerais, driblou seu previsível destino de dondoca e foi ser gauche na vida.

     - Ela gostava de ser do contra. Vestia-se como cigana, dizia que era meio hippie, queria ser o centro das atenções. Mais do que namorar, seduzia os homens e era muito vaidosa, o que a fez ficar reclusa na velhice - conta Ana Arruda, 67 anos.

     Com a biografia, ela diz ter tentado decifrar ''que tipo de gente foi Maria Martins''. Para cumprir esse objetivo, a jornalista fez duas opções: não seguiu a cronologia dos fatos, contando a vida da escultora a partir de vários fragmentos de tempo (''Combina muito mais com a personalidade dela''), e evitou fazer uma biografia escandalosa, recheada de casos de alcova.

     - Não acho que uma biografia precise ser um buraco de fechadura. Contei o que me pareceu importante para traçar o perfil dela - explica a biógrafa.

     Assim, o caso de Mussolini, ocorrido em 1923, ganha apenas duas menções e está no livro porque foi confirmado pela filha da escultora, Anna Maria. A biógrafa não se arrisca a tentar explicar o que levou Maria a se envolver com o Duce, que iniciava sua trajetória de ditador, mas diz que ela ''gostava de autoritarismo e tinha fixação no pai''.

     João Luiz Alves, o pai, era um obstinado: recusou-se a ser apenas um advogado provinciano e se tornou senador e ministro da Justiça. Em 1924, quando o pai era ministro, Maria largou o marido, Otávio Tarquínio de Souza, para viver com o diplomata Carlos Martins Pereira e Sousa, gaúcho que era colega de infância de Getúlio Vargas - de quem a artista se tornaria amiga - e que gostava de festas e da vida mundana. Exatamente como Maria.

     - Eles tinham uma relação aberta, um tendo conhecimento de casos do outro. Mas também tinham uma solidariedade completa e se ajudaram muito em seus objetivos - diz Ana Arruda.

     Um dos objetivos de Maria era se tornar uma escultora conhecida internacionalmente, o que conseguiu: foi um nome importante no Surrealismo da Europa. Estranhamente, segundo sua biógrafa, nunca teve o mesmo reconhecimento no Brasil.

     - Ela foi uma artista tão ou mais importante do que Tarsila do Amaral - acredita Ana Arruda, que é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ e, entre outros livros, publicou a biografia da poetisa e jornalista Adalgisa Nery.


Biografia decifra arte e mistérios
de Maria Martins

Beatriz Coelho Silva
Arte e Lazer - Estadão
17/12/2004 - 15h07


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Sem título - bronze - 104 x 57,3 x 94 cm

     Maria Martins nasceu em berço de ouro e viveu em palácios seus quase 80 anos. Maria foi personagem da mais alta elite política brasileira e uma das primeiras artistas premiadas na Bienal de São Paulo, da qual era uma das mentoras assim como influiu na criação do Museu de Arte Moderna do Rio. Sua história está em Maria Martins, Uma Biografia, da jornalista Ana Arruda Callado, publicada pela editora Gryphus.

     Filha do político mineiro João Luiz Alves, ministro da Velha República, casou-se pela primeira vez com o jurista e historiador Octávio Tarquínio e depois com o diplomata Carlos Martins, que era embaixador do Brasil no período anterior e posterior à 2.ª Guerra Mundial, serviu no Japão e também na Europa.

     Maria se trancava em seu ateliê durante o dia e à noite fazia seu trabalho de embaixatriz, usando todo o charme que as duas profissões lhe conferiam. Por isso, conviveu também com líderes mundiais como Harry Truman, Mao Tsé Tung, e nacionais, como Getúlio Vargas, com quem trocava correspondência num tom informal, e Juscelino Kubitscheck, que foi a seu enterro, no Museu de Arte Moderna do Rio, um verdadeiro happening.

     No mundo das artes ela é citada com destaque em quase todos os estudos sobre o surrealismo, devido à sua amizade com os artistas e, principalmente, seu romance com Marcel Duchamp, que a teve como musa e modelo de obras fundamentais, como Prière de Toucher, capa do catálogo da exposição Le Surrealisme en 1947. A peça, que fez mais sucesso que a mostra que anunciava, era um seio (o de Maria) e pedia-se para tocá-lo, paródia dos cartazes espalhados pelos museus franceses.

     Uma de suas esculturas, O Rito do Ritmo, está no jardim do Palácio da Alvorada e há outras espalhadas em (poucos) museus brasileiros e americanos e em coleções particulares. O vigor de suas esculturas expostas na mostra sobre o surrealismo no Centro Cultural Banco do Brasil em 2001 surpreendeu a jornalista Ana Callado, que resolveu escrever sua história.

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