Fonte: Revista «Veja» -
08.10.97
Tem branco no
terreiro
Carybé pintou o
candomblé como ninguém
e partiu entre deuses de um culto na Bahia
Geraldo Mayrink
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Carybé: versatilidade
formal do maior cronista visual da Bahia, para onde se mudou nos anos 50 |
| Foto: Fernando Vivas |
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Alto,
elegante e magro, envolto em paletós de tweed e foulard de renda negra no pescoço,
sempre que a temperatura permitia, Hector Julio Paride Bernabó era argentino de
nascimento, italiano de formação, carioca quando se tornou brasileiro e cidadão do
mundo com seus murais nos aeroportos de Nova York e Londres.
Quando
morreu do coração, durante uma sessão no terreiro de candomblé Ilê Axê Opô Afonjá,
em Salvador, ele já era tão baiano quanto outro estrangeiro, o etnólogo francês Pierre
Verger, havia sido em vida.
Carybé, como era conhecido, tinha 86 anos, estava terminando novas telas e não podia
mais subir escadas, proibido pelo seu médico. Ainda assim, insistia em continuar
produzindo.
Pintor
de recursos limitados, mas um desenhista brilhante, pertence à mais depurada crônica
visual da Bahia, que tanto pode ser vista nos desenhos que criou para os livros de Jorge
Amado quanto na vasta galeria de tipos de deuses do candomblé.
Amante
da vida, Carybé era tocador de pandeiro, bom dançarino e contador de histórias. Acima
de tudo, tinha um título de Obá de Xangô, o posto mais alto dado pelo candomblé, seu
maior orgulho.
"Sou amoroso e devoto da religiosidade afro-brasileira, de seus deuses modestos e
humanos, que hoje se defrontam com estes deuses contemporâneos, terríveis e vorazes, que
são a tecnologia e a ciência", ele dizia.
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Casa de Exu: vendo
a religião afro-baiana
por dentro e recriando-a
de memória |
| Foto: Luciano Andrade |
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Certamente por isso, as cenas do candomblé ocupam boa parte da vasta produção deixada
por Carybé. A porção mais grandiosa de seu trabalho é justamente o desenho, a aquarela
e o nanquim. De maneira nervosa e moderna, com poucos golpes de pincel, ele era capaz de
resumir a forma de baianas prostradas de joelhos como magníficos círculos coloridos.
Segundo
o amigo Jorge Amado, foi como um observador de dentro, envolvido com a religião, que o
artista se dispôs a retratá-la. "Outros podem reunir dados frios e secos, violentar
o segredo com as máquinas fotográficas e os gravadores e fazer em torno dele maior ou
menor sensacionalismo, a serviço dos racismos mais diversos, mas apenas Carybé e
ninguém mais poderia preservar os valores do candomblé da Bahia."
Esboços
Sua mulher durante cinqüenta anos, a argentina Nancy, com quem teve dois filhos,
o artista plástico Ramiro e a bióloga Solange, costumava contar que o marido era um
homem de tanta fé que jamais levava papel ou lápis para as cerimônias de candomblé.
Achava falta de respeito. Guardava tudo de cabeça e desenvolveu uma memória visual fora
do comum.
Dono de
uma obra vasta, na qual se estimam cerca de 5.000 trabalhos, entre pinturas, desenhos,
esculturas e esboços, Carybé trabalhou com vários materiais.
Criou
também esculturas, a vertente menos importante de sua produção, e até esboços de
cenas de filmes, como as mais de 1000 que fez para a primeira versão de O Cangaceiro
(1953), do diretor Lima Barreto, e ilustrações para livros. Além de Jorge Amado,
emprestou seus traços a obras de Rubem Braga e Gabriel García Márquez, entre outros.
Carybé, o nome de um mingau que adorava tanto que o adotou como nome artístico, ainda
era Hector quando chegou a Salvador pela primeira vez com um projeto ambicioso: fazer uma
reportagem com Lampião. Teve de se contentar em desenhar as cabeças do rei do cangaço e
seus capangas, já decapitadas.
Sua
família morava no Rio e ele já tinha no currículo trabalhos em publicidade para jornais
de lá, de São Paulo e de Buenos Aires, além de ter pintado muitos cartazes de rua. Já
se considerava um "branco suspeito", como dizia. Ouvira dizer que na sua
família (mãe gaúcha, pai italiano) havia uma tia preta que até fumava cachimbo. Sua
morenização parecia uma fatalidade.
Com uma
carta do escritor Rubem Braga ao então secretário de Educação da Bahia, Anísio
Teixeira, em 1950, Carybé arrumou o emprego que pediu a Deus: desenhar cenas baianas.
"Foi a sopa no mel. Nunca mais fui embora. A Bahia tem tudo que um pintor procura,
luz, água, mar aberto, a gente sempre vê o corpo humano funcionando", contou.
No
mesmo ano conheceu o marchand Valdemar Szaniecki, que mais tarde colocou suas obras numa
galeria de São Paulo ao lado das de Mário Gruber, Di Cavalcanti, Aldemir Martins, Manabu
Mabe e Clovis Graciano.
Com o
passar dos anos, os trabalhos de Carybé não pararam de se valorizar e ele passou a viver
só de arte. "Um quadro grande meu vale 10000 dólares", orgulhava-se ele, no
começo deste ano, embora alguns possam chegar a até 30000. Para ele, não tinha muita
importância. "A economia é a peste negra. Nada sei sobre ela", dizia.
Falsificações
No começo dos anos 80, diante da valorização crescente de sua obra, houve um
derrame de quadros falsos atribuídos a ele em Salvador. As telas, com figuras chapadas na
praia ou em casarios coloniais, eram vendidas por um quarto do preço de tabela. Com o
passar do tempo, os larápios trocaram de alvo, preferindo falsificar artistas mais caros,
como Di Cavalcanti e Guignard.
No
decorrer da vida, Carybé foi muito pouco premiado
primeiro lugar em desenho numa bienal de São Paulo e por duas vezes
sala especial em outras bienais. Gostava de pintar, mas não de ficar expondo,
"emoldurar quadros, fazer catálogos, dar entrevistas, essas coisas
aborrecidas".
Para
ele, a única coisa insuportável na vida era ficar parado, esperando um estalo de
criatividade. "Inspiração é besteira", achava.
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| Fotos: Lalo de Almeida |
| Cabeças do filho-de-santo Abia
no rito de iniciação do candomblé e figura feminina de costas: traço telegráfico |