Verônica Toste
Tribuna da Imprensa - RJ
2 de agosto de 2004
Ao receber uma encomenda do governo francês
em 1880 para fazer um portal que figuraria na entrada do Museu de Artes Decorativas de
Paris, cujo tema era "A divina comédia", de Dante Alighieri, Auguste Rodin
(1840-1917) teve a idéia de iniciar um ambicioso projeto a que deu o nome de "A
porta do Inferno".
O artista pretendia fazer uma enorme série de
esculturas tematizando os versos de Dante e representando os personagens do poema, mas
nunca chegou a finalizá-lo, apesar de esboçar cerca de 200 peças. No entanto, obteve
inspiração para produzir seu trabalho mais famoso: "O pensador".
Há oito anos, Romaric Sulger Büel organizou
uma exposição do artista no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), mas a escultura não
veio. Agora, o produtor finalmente conseguiu trazer ao Brasil a enigmática imagem deste
homem que, de acordo com o próprio Rodin, "não pensa apenas com seu cérebro, suas
narinas dilatadas e seus lábios cerrados, mas com cada músculo de seus braços, de suas
costas e de suas pernas, com seu punho crispado e seus dedos dos pés contraídos".
A escultura será exibida no foyer do
Museu de Arte Moderna (MAM/ Av. Infante D. Henrique, 85 - Parque do Flamengo) de amanhã a
19 de setembro. O MAM está aberto à visitação de terça à sexta, das 12h às 18h, e
aos sábados e domingos, das 12h às 19h. Depois da exposição no Rio, a estátua segue
para São Paulo, Curitiba e Salvador. "Fui responsável por aquela exposição e
fiquei ressentido por não conseguir trazer `O pensador' na ocasião. Então, isso é uma
espécie de vingança", diz Romaric Büel.
Originais
Com 800 quilos e quase quatro metros de
altura, a escultura é um dos 25 exemplares da obra existentes no mundo. Durante sua vida,
Rodin permitiu que suas obras fossem reproduzidas sem qualquer controle - "O
beijo", por exemplo, teve diversas tiragens - e, um ano antes de morrer, deu ao
Estado francês a custódia de sua obra e direitos de reprodução.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o Museu
Rodin (fundado em 1908) regulamentou o processo, distinguindo as edições originais das
posteriores. Estes 25 exemplares do "O pensador" integram uma única tiragem da
obra referendada pela instituição, feitas a partir do modelo de gesso de goma laqueado
por Eugène Rudier, fundidor de Rodin a partir de 1902.
Sem perda de qualidade
A escultura de bronze, criada a partir de um
molde de gesso, ao contrário dos trabalhos em mármore, pode ser reproduzida sem qualquer
decréscimo de qualidade. "Cópia não é o termo adequado para se denominar essa
série de 25 reproduções. Os moldes de gesso permitem que se obtenha obras autênticas e
o artista optou pelo bronze em detrimento do mármore justamente para permitir essas
reproduções", destaca o organizador Romaric Sulger Büel.
"O pensador" original tinha apenas
72 centímetros de altura e foi exposto pela primeira vez em 1888, em Copenhague, com o
título de "O poeta". A estátua representava Dante em frente aos portões do
Inferno, ponderando sobre seu poema e transfigurando seus sonhos num ato de criação. No
ano seguinte, a obra recebeu o nome de "O poeta pensador", para depois se tornar
apenas "O pensador".
Em 1902, o escultor decidiu aumentar as
proporções do trabalho e, utilizando-se de uma técnica criada por Henri Lebossé, o
ampliou para 1,83m e acrescentou-lhe um pedestal de 1,63m. Dois anos depois - há
exatamente um século - a estátua monumental tinha sua primeira exibição pública.
É irônico que François Auguste René Rodin
tenha sido rejeitado pela Escola de Belas-Artes da França por três vezes. Apesar do
obstáculo inicial, o artista parecia fadado ao sucesso, já que seu trabalho para
empresários de decoração o levou se tornar aprendiz de Carrier-Belleuse, que o levou à
Itália em 1875, onde conheceu e foi inspirado pela arte renascentista de Michelangelo e
Donatello.
Numa viagem a Londres, em 1882, Rodin conheceu
os trabalhos de artistas contemporâneos que, inspirados pelas pinturas e poemas de
William Blake, ilustravam a obra de Dante. Outra grande referência para o escultor foi o
trabalho de Botticelli, o primeiro grande artista a retratar os cenários da "A
divina comédia".
A encomenda do governo francês veio a calhar,
reunindo todas essas influências sob um único objetivo e abastecendo a imaginação do
artista por quase 40 anos, durante os quais ele fez diversos trabalhos pensando nos versos
de Dante.