O Pensador de Rodin chega
ao Rio de Janeiro

..


Texto:
Tribuna da Imprensa - RJ

12/06/2004 - 03h15

Imagens:
Reprodução


01.jpg (42286 bytes)
A escultura foi criada inicialmente para
ficar sobre "A Porta do Inferno"

    
A escultura O Pensador, do artista francês Auguste Rodin ( 1840-1917), já está no Rio. Uma das 20 réplicas autorizadas pelo museu que reúne a sua obra, exatamente a que fica na sede em Paris, chegou ao Museu de Arte Moderna do Rio, onde ficará exposta a partir de terça-feira, antes de viajar para São Paulo (Pinacoteca do Estado), Curitiba (Museu Niemeyer) e Salvador (Museu de Arte Moderna).


02.jpg (23663 bytes)
Mais tarde, Rodin ampliou seu tamanho e autorizou
a emissão de 20 cópias em bronze

     São 800 quilos de bronze, medindo 1,90 metro de altura, que foram trazidos de avião na terça-feira. A embalagem só foi retirada ontem, após cumpridas as exigências dos ministérios da Fazenda e da Cultura da França e do Brasil.

     "A estratégia para dar segurança a essa operação foi mantê-la em segredo. Ninguém sabia quando ia chegar, mas todo mundo perdeu fôlego quando viu de perto", disse Romaric Sulgerbuel, responsável por esta turnê da escultura pelo País.


04.jpg (11108 bytes)
A estátua ainda está no chão porque seu pedestal original, que pesa cinco toneladas, ficou em Paris, e foi preciso construir um novo no Brasil. Mesmo assim impressiona, e já causou admiração.

          O Pensador foi criado originalmente em tamanho pequeno para ficar em cima d'A Porta do Inferno, uma das principais obras de Rodin, de 1884.

     Em 1904, o escultor decidiu ampliá-la para sua medida atual, e apresentou a primeira cópia em bronze. Depois foram feitas mais 20 cópias, que estão espalhadas pelo mundo.


03.jpg (52771 bytes)
O Pensador em uma rocha (1997)
Sátira de Barry Flanagan (1941 )


'O pensador' está à venda

Obra-prima de Rodin que o MAM exibe na terça-feira
pode ser comprada por R$ 3,75 milhões

Texto:
Gilberto de Abreu
JB Online
30 de julho de 2004

Reprodução

     O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro exibe a partir de terça-feira uma das principais referências da arte moderna mundial, a escultura O pensador, do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917). Notável ausência na mega-exposição do artista realizada no Museu Nacional de Belas Artes em 1996, a peça de 800 quilos de bronze e aproximados 1,85 m estará não só à mostra, como também à venda, conforme informou com exclusividade ao JB o curador francês Jean Gabriel Mitterand, responsável pela vinda da obra-prima ao Brasil. O preço da peça? R$ 3,75 milhões.

     - Esta é uma das últimas réplicas disponíveis para venda. Recentemente, pelo mesmo valor, um outro O pensador foi vendido para a cidade de Shangai, na China. Antes disso, o Chile também adquiriu uma réplica da mesma escultura - disse Jean Gabriel, por telefone, pouco antes de embarcar para o Brasil.

     A reprodução da escultura, que representa um homem sentado, apoiando o queixo na mão e o cotovelo na perna é, conforme a avaliação de Jean Gabriel Mitterand, perfeita.

     - A pátina sobre a superfície é sublime. Tenho certeza de que os brasileiros ficarão encantados - disse ele.

     A execução da réplica - esta é uma das 15 já realizadas - só foi possível graças ao aval do Museu Rodin. A matriz é um modelo em gesso goma laqueado, proveniente da coleção do famoso ceramista Jean Mayodon.

     Auguste Rodin é o primeiro escultor moderno da história da arte mundial. Depois de recusado três vezes pela Escola de Belas Artes de Paris, viu-se livre das rígidas fórmulas acadêmicas e tornou-se, aos 20 anos, o maior escultor vivo do mundo.

     Rodin criou O pensador a partir de uma encomenda do governo francês, em 1880, de um grande portal em bronze, a ser instalado no Museu das Artes Decorativas, em Paris. O projeto, que previa a execução de centenas de esculturas em menor escala, não chegou ao fim. Mas por conta dele Rodin produziu esculturas monumentais memoráveis, como O beijo e O pensador.

     Monique Laurent, conservadora geral honorária do patrimônio e ex-conservadora-chefe do Museu Rodin, ressalta que o próprio escultor sugerira compor o portal com inspiração na seção Inferno da Divina comédia, de Dante. A opção pelo grande poema revela a natureza pessimista e introvertida do escultor. ''Rodin não ilustraria a interpretação cristã do texto de Dante. Ele só se interessava pela parte mais dramática, o Inferno, mas seu inferno é laico e humano'', escreveu Monique Laurent, no texto de apresentação da exposição no MAM.

     O pensador foi criado pouco depois de A idade do bronze, o primeiro trabalho relevante de Rodin, produzido em tamanho natural. ''A perfeição era tamanha que os críticos o acusaram de tê-la feito a partir de moldes vivos'', descreve Carol Strickland, Ph.D da Universidade de Michigan, nos EUA. Estudiosos de todo o mundo analisam a peça com admiração. ''A obra atrai a atenção pela liberdade do tratamento anatômico e contorno em grandes planos, que fazem brincar a luz em torno de sua silhueta e contrastam com a fria precisão academicista'', diz Monique Laurent.

     Dono de uma carreira marcada pela incompreensão da crítica, Rodin cultivou a admiração de intelectuais e políticos e o amor de algumas mulheres da alta sociedade européia.

     Das amantes de Rodin, a escultora francesa Camille Claudel (1864-1943) talvez tenha sido a mais famosa - e jovem. Rodin a conheceu aos 43 anos, quando Camille tinha apenas 19. Extremamente bonita e talentosa, Claudel foi modelo-vivo do escultor. Conhecedora de anatomia, contribuía com os pés e as mãos das obras de Rodin. Depois de 15 anos de convívio, Camille e Rodin separaram-se. Colocada num asilo pelo irmão, Claudel morreu 40 anos depois.


Penso, logo existo

Exemplar da famosa escultura "O pensador", de Rodin,
chega enfim ao Brasil e será exposta no foyer
do Museu de Arte Moderna

Verônica Toste
Tribuna da Imprensa - RJ
2 de agosto de 2004

     Ao receber uma encomenda do governo francês em 1880 para fazer um portal que figuraria na entrada do Museu de Artes Decorativas de Paris, cujo tema era "A divina comédia", de Dante Alighieri, Auguste Rodin (1840-1917) teve a idéia de iniciar um ambicioso projeto a que deu o nome de "A porta do Inferno".

     O artista pretendia fazer uma enorme série de esculturas tematizando os versos de Dante e representando os personagens do poema, mas nunca chegou a finalizá-lo, apesar de esboçar cerca de 200 peças. No entanto, obteve inspiração para produzir seu trabalho mais famoso: "O pensador".

     Há oito anos, Romaric Sulger Büel organizou uma exposição do artista no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), mas a escultura não veio. Agora, o produtor finalmente conseguiu trazer ao Brasil a enigmática imagem deste homem que, de acordo com o próprio Rodin, "não pensa apenas com seu cérebro, suas narinas dilatadas e seus lábios cerrados, mas com cada músculo de seus braços, de suas costas e de suas pernas, com seu punho crispado e seus dedos dos pés contraídos".

      A escultura será exibida no foyer do Museu de Arte Moderna (MAM/ Av. Infante D. Henrique, 85 - Parque do Flamengo) de amanhã a 19 de setembro. O MAM está aberto à visitação de terça à sexta, das 12h às 18h, e aos sábados e domingos, das 12h às 19h. Depois da exposição no Rio, a estátua segue para São Paulo, Curitiba e Salvador. "Fui responsável por aquela exposição e fiquei ressentido por não conseguir trazer `O pensador' na ocasião. Então, isso é uma espécie de vingança", diz Romaric Büel.

Originais

     Com 800 quilos e quase quatro metros de altura, a escultura é um dos 25 exemplares da obra existentes no mundo. Durante sua vida, Rodin permitiu que suas obras fossem reproduzidas sem qualquer controle - "O beijo", por exemplo, teve diversas tiragens - e, um ano antes de morrer, deu ao Estado francês a custódia de sua obra e direitos de reprodução.

     Ao final da Segunda Guerra Mundial, o Museu Rodin (fundado em 1908) regulamentou o processo, distinguindo as edições originais das posteriores. Estes 25 exemplares do "O pensador" integram uma única tiragem da obra referendada pela instituição, feitas a partir do modelo de gesso de goma laqueado por Eugène Rudier, fundidor de Rodin a partir de 1902.

Sem perda de qualidade

     A escultura de bronze, criada a partir de um molde de gesso, ao contrário dos trabalhos em mármore, pode ser reproduzida sem qualquer decréscimo de qualidade. "Cópia não é o termo adequado para se denominar essa série de 25 reproduções. Os moldes de gesso permitem que se obtenha obras autênticas e o artista optou pelo bronze em detrimento do mármore justamente para permitir essas reproduções", destaca o organizador Romaric Sulger Büel.

     "O pensador" original tinha apenas 72 centímetros de altura e foi exposto pela primeira vez em 1888, em Copenhague, com o título de "O poeta". A estátua representava Dante em frente aos portões do Inferno, ponderando sobre seu poema e transfigurando seus sonhos num ato de criação. No ano seguinte, a obra recebeu o nome de "O poeta pensador", para depois se tornar apenas "O pensador".

     Em 1902, o escultor decidiu aumentar as proporções do trabalho e, utilizando-se de uma técnica criada por Henri Lebossé, o ampliou para 1,83m e acrescentou-lhe um pedestal de 1,63m. Dois anos depois - há exatamente um século - a estátua monumental tinha sua primeira exibição pública.

     É irônico que François Auguste René Rodin tenha sido rejeitado pela Escola de Belas-Artes da França por três vezes. Apesar do obstáculo inicial, o artista parecia fadado ao sucesso, já que seu trabalho para empresários de decoração o levou se tornar aprendiz de Carrier-Belleuse, que o levou à Itália em 1875, onde conheceu e foi inspirado pela arte renascentista de Michelangelo e Donatello.

     Numa viagem a Londres, em 1882, Rodin conheceu os trabalhos de artistas contemporâneos que, inspirados pelas pinturas e poemas de William Blake, ilustravam a obra de Dante. Outra grande referência para o escultor foi o trabalho de Botticelli, o primeiro grande artista a retratar os cenários da "A divina comédia".

     A encomenda do governo francês veio a calhar, reunindo todas essas influências sob um único objetivo e abastecendo a imaginação do artista por quase 40 anos, durante os quais ele fez diversos trabalhos pensando nos versos de Dante.