Argentina vibra e se emociona
com Cândido Portinari

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Texto:
Mercedes Pérez
Jornal "Clarin" de Buenos Aires

20 de julho de 2004

Imagens:
Reprodução


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Clareira (1955)

    
Cândido Portinari, o pintor que contou
a historia da América Latina


Esta é a primeira exposição do brasileiro que acontece em Buenos Aires desde 1947. Equivalente a Berni em seu país, Portinari retratou as migrações nos pés de trabalhadores que fugiam da miséria.

Em Buenos Aires, a partir de hoje (20/07/2004) será possível ver os caminhos do café e dos escravos, os conquistadores, as pedras, as migrações e a miséria. Os pães de ouro, a fome e o livro. Ou seja: será possível ver a história da América Latina, contemplando a obra do pintor brasileiro Cândido Portinari.


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Menina (1955)

     Depois de mais de cinqüenta anos de ausência, as obras de Portinari voltam para mostrar que era um mestre e, como ele próprio se definia, um pintor social. Vale dizer, "aquele que crê que os homens podem participar dos prazeres do universo."

     Nascidas da violência da própria terra natal, suas imagens falam da realidade de seu povo de origem (Brodowski, no interior de São Paulo), ainda que elas bem poderiam representar qualquer outro povo.

     Assim como Antonio Berni na Argentina ou Diego Rivera no México, Portinari pintava uma história de retirantes. Como escreve Andrea Giunta no catálogo da mostra, é a história de "um contexto específico: o das migrações provocadas pelas secas".

     A partir de Brodowski, Portinari viu como o povo fugia, caminhando até as grandes cidades, buscando escapar da pobreza. Portinari pintou seus pés, "pés sofridos de muitos e muitos quilômetros de caminhada: pés que só os santos têm". De tanto caminhar, "eles se confundiam com as pedras e com os espinhos", como descreveu o pintor.

     Portinari ressaltava em suas pinturas a presença de negros, o que lhe causava muitos problemas. Portinari arriscava: "Não interessava a muitos que eu pintasse negros; então, por precaução, passei a pintar os migrantes", dizia.

     Portinari testemunhou um fato. Em 1940, já reconhecido internacionalmente, fez a exposição "Portinari of Brazil", no MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). Convidou dez negros para a inauguração, mas não os deixaram entrar. Quando lhe perguntaram se os negros do Brasil eram mais felizes que os negros americanos, respondeu: "Sim, porque, apesar de pobres, são tão livres e iguais aos brancos".

    De firme posição de esquerda, diante do recrudescimento da perseguição aos comunistas, durante o governo do general Eurico Dutra no Brasil (1946-1951), Portinari decide exilar-se no Uruguai, entre 1947 e 1948. Nesse período, viaja várias vezes à Argentina, onde expõe suas obras no Salão Peuser (1947) e realiza uma conferência com o título "O sentido social da arte".

    Quando, em 1962, o poeta Vinícius de Moraes lhe perguntou como havia chegado a tomar uma posição política, o pintor respondeu:

     "Não pretendo entender de política. Cheguei às minhas próprias convicções por experiência própria, por minha infância pobre, minha vida de trabalho e luta, e porque sou um artista".


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Retirantes (1955)

      As pinturas Retirantes e Menino morto, ambas de 1948, são obras fundamentais do artista, presentes à exposição. Imensas, densas, exibem figuras esqueléticas caminhando pelos desertos até as cidades, acompanhadas por urubus, que buscam cadáveres para comer.

     Estas pinturas, além de mostrar uma realidade específica, expõe também a fusão de diversas tradições artísticas européias, latino-americanas e modernas dessa época: influências de Yves Tanguy, Picasso, Orozco, Siqueiros. Como diz Adriana Rosenberg, diretora da Fundação Proa, Portinari criou "um novo universo estético", que ainda hoje segue deixando seqüelas.

     "Sonha e brilha. Um homem de mão dura, feito de sangue e pintura, grita na tela", escreve em 1947 Nicolás Guillén em seu famoso Son a Portinari. – "E o peito esfarrapado cura ao homem de mão dura que está gritando na tela".

     Sozinho, num extremo do mundo, Portinari soube falar a beleza do homem latino-americano. Talvez, depois de tudo, essa beleza lhe sirva como remédio.


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NA PITORESCO

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Negrinha (1958)