Em Nova York, arte é crime
e crime se torna arte

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Clinton, o artista


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A arte que gerou pânico no Metrô


Por uma estranha coincidência, o índice de crimes na cidade de Nova York foi divulgado, ontem, como sendo o menor entre as 25 maiores cidades dos Estados Unidos, colocando Nova York na 197ª posição entre as cidades com pelo menos cem mil habitantes. Ela está atrás da calmíssima Provo, em Utah, mas (ainda bem) à frente de Rancho Cucamonga, na Califórina.

Ao mesmo tempo foi descoberto que aquelas 37 caixas com a palavra "Medo" escrita nelas, que misteriosamente apareceram presas a vigas e muros na estação de metrô da Union Square na última quarta-feira, eram, como você devia saber desde o começo, um projeto de arte.

Michael Kimmelman
New York Times

     As caixas, que espalharam pânico e fizeram com que a polícia fechasse a estação por horas e chamasse o esquadrão antibomba, eram o trabalho de Clinton Boisvert, um calouro de 25 anos da School of Visual Arts de Manhattan, que se apresentou, na segunda-feira, ao escritório do procurador do distrito de Manhattan, que quer processá-lo por risco imprudente.

     Então agora sobrou para os coitados e jovens estudantes de arte, recém saídos de Michigan, manter a reputação do crime na cidade. Pelo menos Nova York ainda pode se orgulhar, como a capital cultural do país, de que até nossas contravenções são obras de arte. Tome isso, Rancho Cucamonga.

     Mas vamos começar do começo. Clinton, que projeto idiota. Como diz o ditado, arte ruim como essa deveria ser crime. "O garoto não tem idéia, basicamente", afirmou um oficial da polícia na segunda-feira, demonstrando perspicácia notável como crítico de arte.

     O estado da arte pública e política caiu, agora, a um ponto em que muitas pessoas que o seguem simplesmente presumiram, na semana passada, que o que aconteceu na Union Square deveria ser uma obra de arte, e não uma bomba falsa colocada por um terrorista ou uma ameaça de um membro de sindicato contemplando uma greve.

     Nos anos 60 as pessoas poderiam ter achado que era um ativista trabalhista lunático; nos anos 70 do filho de Sam, apenas um lunático. O lunático de ontem é o artista conceitual de hoje.

     Boisvert não pôde ser encontrado para comentar o assunto ontem. Seu advogado disse a ele para não falar com a imprensa por um tempo. Tentando imaginar o que pretendia, eu só posso achar que ele pode dizer que as caixas com a palavra "Medo" fariam com que fosse tangível, como escultura, o que os nova-iorquinos sentem desde 11 de setembro - dar uma forma física para a emoção prevalecente.

     Mas isso é falatório de arte. Ao provocar o medo, a obra mexeu com a violência emocional. Levada ao extremo, a violência como arte chega à afirmação notória do compositor Karlheinz Stockhausen, que ele tentou retirar desesperadamente, de que o ataque ao World Trade Center era "a maior obra de arte que é possível em todo o cosmo".

     A inspiração de Boisvert foi, evidentemente, Keith Haring, que fez sua reputação nos anos 80 desenhando felizes personagens dançarinos de quadrinhos e cachorros bravos em giz sobre papéis pretos colados em espaços vazios de propaganda em estações do metrô.

     Ele era um grafiteiro, o que fazia dele um pequeno criminoso inocente e amável. Ele não deixou caixas pretas com aparência perigosa em lugares públicos lotados. Boisvert é admirador dele, segundo Bárbara Schwartz, professora do universitário. Ela enfatizou que esse projeto não deveria ser uma brincadeira. Ela insistiu que ele era um jovem bastante sério. A obra deveria fazer as pessoas falarem, disse ela.

     Bem, fez. A professora afirmou que não tinha idéia de que ele estava com esses planos. Sua tarefa para a classe de calouros na aula de escultura básica era fazer uma obra específica para um local, parte de um currículo de anos. Alguns estudantes na classe fizeram filmes no metrô.

     Boisvert havia dito que iria pintar caixas da FedEx de preto e arranjá-las numa sala da universidade. Shwartz havia reservado a sala para ele, mas o aluno não mencionou nada além de "medo". Ele disse que queria uma pista de dança. Ela achava que ele planejava uma performance.

     Claramente Boisvert mudou de idéia depois de falar com ela. "Era minha última aula do semestre e todos estavam apresentando o que haviam feito, e o dele era o último projeto antes do intervalo das 14h", disse Schwartz.

     "Ele mostrou as fotos que havia tirado na estação de metrô. Ele disse que havia levado as caixas para a Union Square naquela manhã e colocado lá para que todos pudessem ver. Ele disse que havia pintado a palavra "Medo" nelas.

     "Todos dissemos: 'Uau, que interessante', mas eu olhei para ele quando percebi. Eu disse: 'Clinton, você não deixou elas lá, deixou?'. Então um dos outros alunos disse que os trens não estavam mais parando na Union Square e dois outros falaram que havia uma ameaça de bomba. Eu disse: 'Oh, meu Deus, você acha que isso tem algo a ver com seu projeto?' Ele parecia chocado. Ele nunca imaginou que isso pudesse acontecer".

     Schwartz consultou seus superiores na universidade. Boisvert consultou um advogado.

     Ele passou a noite esperando em uma cela temporária pela acusação formal. Seu trabalho, assim, se tornou uma performance de arte. A história do modernismo é cheia de artistas cujas provocações escandalosas foram manchete; apenas alguns de uma elite chegaram à cadeia. Boisvert se junta a eles.

     Uma noite na cadeia provavelmente causou nele pelo menos tanto medo quanto ele causou aos passageiros.


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