Cartier-Bresson, personagem de Borges
O fotógrafo e o poeta
Fonte:
Antonio Caetano
Tribuna da Imprensa
9 de agosto de 2004
Uma historinha colhida há tempos na internet
ilustra com precisão a importância do olhar de Cartier-Bresson para a invenção disso
que a comodidade nos obriga a chamar de século X - mas que, na verdade, acabou mais ou
menos na mesma época em que Cartier-Bresson desinteressou-se de fotografá-lo.
Conta a historinha que, um dia,
Cartier-Bresson recebeu um telefonema surpreendente: do outro lado da linha, estava
ninguém menos do que Jorge Luis Borges, que lhe perguntava se aceitaria a indicação
para um prêmio. Oferecido por uma rica mulher que vivia na Sicília, o prêmio se
distinguia por uma característica muito particular: a indicação do ganhador era feita
pelo premiado anterior.
"E por que escolheu a mim?",
perguntou Cartier-Bresson.
A resposta de Borges pode ser tomada como um
prelúdio do que virá a seguir. Traz, de todo modo, a marca borgiana da poesia e da
surpresa.
"Porque sou cego", respondeu Borges.
"E quero dá-lo a você em reconhecimento aos teus olhos".
Por mais injusto que possam parecer os
prêmios, como notou Drummond em um poema, Cartier-Bresson não poderia recusar a
indicação de Borges. A indicação valia mais do que o prêmio.
Ao chegar a Palermo, o fotógrafo foi
hospedado em um antigo e tradicionalíssimo hotel. O nome, a arquitetura lhe pareceram
familiares. Não lhe terá custado muito descobrir o porquê. Tinha sido naquele hotel que
seus pais haviam passado sua lua-de-mel. Como ele havia nascido exatos nove meses depois,
concluiu maravilhado que fora concebido ali. Sentiu que um círculo, secreto e íntimo, se
fechava: seus olhos o haviam trazido de volta à origem. E fora guiado por um cego.
Não lhe terá escapado que se tornara mais um
personagem de Borges. Não me consta que haja de Borges alguma foto feita por
Cartier-Bresson.
* * *
Guardei também de Cartier-Bresson uns trechos de entrevista dada
quando ele tinha 91 anos e que, só reparo agora ao escrever, podem servir de fundamento
à tese de que Cartier-Bresson foi o fotógrafo de um século XX que acabou por volta dos
anos 80 (e que bem se poderia ter começado em 1907, quando Henri foi gerado naquele hotel
de Palermo, e Picasso finalizou seu "Les mademoiselles d'Avignon").
Seguem as palavras de Cartier-Bresson:
"Desde a juventude sou um
revolucionário. O que me admira é que hoje não existam mais revolucionários. Hoje as
pessoas repudiam tudo, vivemos num mundo niilista. A anarquia não é um modo de vida
niilista, é o contrário."
"As pessoas estão impregnadas por mundo
cyber, não têm mais contato com a realidade. Não há mais uma entrega. É o fim do
artesanato. E o contato com o real é maravilhoso. Quero dizer, é a satisfação
absoluta, como um orgasmo."
Não preciso dizer mais nada. Melhor ainda: é
hora de me calar.