Cartier-Bresson, o gênio da fotografia
(22.08.1906 - 03.08.2004)
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Texto:
Época Online

4 de agosto de 2004

Imagens:
Reprodução


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O legendário fotógrafo Henri Cartier-Bresson, que viajou pelo mundo por mais de meio século capturando o drama humano com sua câmera, morreu em 2004, aos 97 anos, em l'Ile-sur-Sorgue, na zona rural de Vaucluse, região Sul da França.


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     Cartier-Bresson fotografou para as revistas Life, Vogue e Harper’s Bazaar e seu trabalho inspirou gerações de fotógrafos. Cartier-Bresson tornou-se um patrimônio nacional, embora fosse contra ser fotografado e dar entrevistas.

     Enquanto sua fama internacional foi gerada por exibições e publicações pelo mundo todo, Cartier-Bresson ganhou reconhecimento por dois documentários que fez sobre assistência médicas às pessoas fiéis ao governo durante a Guerra Civil Espanhola e sobre prisioneiros franceses de guerra que retornaram para casa no final da Segunda Guerra Mundial.


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A arte de Cartier-Bresson

     Cartier-Bresson nasceu em 22 de agosto de 1906 em Chanteloup. Filho mais velho de três crianças, era interessado em pintura. Aos 20 anos, foi estudar arte com o pintor cubista André Lhote.

     "Ele foi talvez o grande fotógrafo do século 20", disse o cineasta John Morris, que conheceu Cartier-Bresson na porta do hotel Scribe em Paris, cinco dias depois de os alemães deixarem a cidade no fim da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, quando Morris era editor executivo da Magnum, Cartier-Bresson trabalhou com ele. Eles ficaram amigos pelo resto da vida.

     Gary Knight, diretor da agência de fotografia VII, chamou Cartier-Bresson de um dos fotógrafos mais influenciadores de todos os tempos. "Ele inspirou pessoas e definiu a fotografia em um período crucial, quando pequenas câmeras estavam virando modernas e sua natureza estava mudando", disse Knight.

     "Em qualquer coisa que faça, deve existir uma relação entre o olho e o coração", disse o fotógrafo uma vez. "Com o olho que está fechado, olha-se para dentro, com o outro que está aberto, olha-se para fora."


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     Com seu senso particular de tempo e intuição, Carier-Bresson capturou a presença de lugares e culturas, diferente de William Faulkner e dos revolucionários chineses. Ele desprezou fotógrafos arranjados e ambientes artificiais e disse que os fotógrafos deveriam fotografar com precisão e de forma rápida.

     Seu conceito de fotografia estava centrado no que ele descrevia como "o momento decisivo", o momento em que se evoca uma significância final de uma situação, onde os elementos externos ficam perfeitamente no lugar.

     Cartier-Bresson fotografava com a Leica, a silenciosa das câmeras, trabalhando somente com filme preto e branco, e notavelmente sem flash. Colocar um objeto sob luz artificial, ele disse uma vez, era uma maneira certa de destruí-lo. Ele também era contra o corte das fotografias, dizendo que isso diluía o significado delas.


OBSERVAÇÃO
Uma informação precipitada colocou o falecimento de Cartier-Bresson na segunda-feira, quando em realidade ocorreu na terça-feira (03/07/2004), gerando confusão de datas. Outra disparidade no noticiário se refere à idade do fotógrafo. Nascido em 22/08/1906, Cartier-Bresson contava com 97 anos de idade e iria fazer 98 neste mês.


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O fotógrafo e sua câmera Leica: identificação única entre um artista e seu instrumento


Em quase 70 anos de fotografia, Cartier-Bresson ensinou que  fotografar é lutar com o tempo e capturar o acaso

Bresson, a precisão do instantâneo

Zeca Linhares
Fotógrafo, mestre em História e autor da tese
'O acaso objetivo: A fotografia de Henri Cartier-Bresson'
JB Online - 07/08/2004

      Henri Cartier-Bresson morreu aos   96 anos de vida, dos quais quase 70 foram dedicados à fotografia, ou ao ''foto jornalismo de imprensa'', como gostava de definir. De sólida formação burguesa, e contrariando a vontade de seu pai, que gostaria que fizesse carreira na indústria têxtil, optou pela relativa tradição visual familiar se aproximando do seu tio Louis, pintor com o nome inscrito no monumento aos mortos da Escola de Belas Artes. A admiração pelo tio duraria toda a vida e o levaria, muito cedo e jovem, a descobrir a sua vocação: viver num mundo com cheiro de tintas e de pincéis.

     Artista e amigo de todos os artistas de vanguarda da época, como André Bréton, mentor do grupo surrealista, dos poetas André Pieyre de Mandiargues e Artaud, dos pintores Matisse, Pierre Bonnard e Max Ernest, entre outros, Cartier-Bresson descobriu, em 1932, a máquina fotográfica Leica, um pequeno engenho mecânico, silencioso, todo acionado por engrenagens, preciso como um relógio, compacto o suficiente para caber num bolso de paletó, que fotografava continuamente 20, 30 ou 40 imagens e não dependia de chapas individuais, complexas de carregar e lentas para a realização de instantâneos.

     Nunca um fotógrafo foi tão associado a uma máquina fotográfica quanto Bresson e a sua Leica. Assim como o Ford T, que deu início à verdadeira indústria automobilística com a idéia da linha de montagem, ou ainda, as rotativas, que permitiram a aceleração da produção de jornais e periódicos, a máquina fotográfica Leica marca o início de uma nova era na fotografia, provocando mudanças radicais na arte e na maneira de fotografar. A fotografia deixou de ser prioritariamente o espaço do retrato e ganhou as ruas, atrás do instantâneo e do fato. Deixou de ser um produto final para ser um suporte desse produto final. Perdeu peso e o tripé e se transformou numa verdadeira caneta de imagens, com o poder de contar uma estória, narrar um acontecimento e guardar um momento.

     Porém, foi no atelier de André Lhote, pintor e teórico da composição, que Bresson desenvolveu o seu sistema gráfico, como declarou para Montier em 1995: ''ele (Lhote) me ensinou a ler e a escrever'', ou seja, a fotografar. Conheceu Paris e a Europa na companhia desses artistas múltiplos, como um andarilho sem uma residência fixa, silencioso com a sua Leica e registrando sem parar.

     Ao longo de sua vida fotográfica, aprendemos com ele a respeitar os sujeitos fotografados e a linha de equilíbrio entre o estilo e os elementos de linguagem. Nessa época, entre 1932 e 1935, quando descobre a Leica, declara ter encontrado o instrumento perfeito para o desenho acelerado e o exercício do olhar sobre a vida.

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Cartier-Bresson, personagem de Borges

O fotógrafo e o poeta

Fonte:
Antonio Caetano
Tribuna da Imprensa
9 de agosto de 2004

     Uma historinha colhida há tempos na internet ilustra com precisão a importância do olhar de Cartier-Bresson para a invenção disso que a comodidade nos obriga a chamar de século X - mas que, na verdade, acabou mais ou menos na mesma época em que Cartier-Bresson desinteressou-se de fotografá-lo.

     Conta a historinha que, um dia, Cartier-Bresson recebeu um telefonema surpreendente: do outro lado da linha, estava ninguém menos do que Jorge Luis Borges, que lhe perguntava se aceitaria a indicação para um prêmio. Oferecido por uma rica mulher que vivia na Sicília, o prêmio se distinguia por uma característica muito particular: a indicação do ganhador era feita pelo premiado anterior.

     "E por que escolheu a mim?", perguntou Cartier-Bresson.

     A resposta de Borges pode ser tomada como um prelúdio do que virá a seguir. Traz, de todo modo, a marca borgiana da poesia e da surpresa.

     "Porque sou cego", respondeu Borges. "E quero dá-lo a você em reconhecimento aos teus olhos".

     Por mais injusto que possam parecer os prêmios, como notou Drummond em um poema, Cartier-Bresson não poderia recusar a indicação de Borges. A indicação valia mais do que o prêmio.

     Ao chegar a Palermo, o fotógrafo foi hospedado em um antigo e tradicionalíssimo hotel. O nome, a arquitetura lhe pareceram familiares. Não lhe terá custado muito descobrir o porquê. Tinha sido naquele hotel que seus pais haviam passado sua lua-de-mel. Como ele havia nascido exatos nove meses depois, concluiu maravilhado que fora concebido ali. Sentiu que um círculo, secreto e íntimo, se fechava: seus olhos o haviam trazido de volta à origem. E fora guiado por um cego.

     Não lhe terá escapado que se tornara mais um personagem de Borges. Não me consta que haja de Borges alguma foto feita por Cartier-Bresson.

*   *   *

     Guardei também de Cartier-Bresson uns trechos de entrevista dada quando ele tinha 91 anos e que, só reparo agora ao escrever, podem servir de fundamento à tese de que Cartier-Bresson foi o fotógrafo de um século XX que acabou por volta dos anos 80 (e que bem se poderia ter começado em 1907, quando Henri foi gerado naquele hotel de Palermo, e Picasso finalizou seu "Les mademoiselles d'Avignon").

     Seguem as palavras de Cartier-Bresson:

     "Desde a juventude sou um revolucionário. O que me admira é que hoje não existam mais revolucionários. Hoje as pessoas repudiam tudo, vivemos num mundo niilista. A anarquia não é um modo de vida niilista, é o contrário."

     "As pessoas estão impregnadas por mundo cyber, não têm mais contato com a realidade. Não há mais uma entrega. É o fim do artesanato. E o contato com o real é maravilhoso. Quero dizer, é a satisfação absoluta, como um orgasmo."

     Não preciso dizer mais nada. Melhor ainda: é hora de me calar.

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Responsável: Paulo Victorino
www.pitoresco.com

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