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Texto:
Luciana Arraes
Tribuna da
Imprensa
10 de fevereiro de 2004
Imagens:
Reprodução
La Casa
Vinicius de Moraes /
Bardotti / Sérgio Endrigo
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero
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Carlos Paez Vilaró |

Vinicius de Moraes |
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"Era uma casa
muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...". Todo mundo conhece esses
versos infantis do Vinícius de Morais. O que quase ninguém conhece é a seqüência
original: "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém
podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede,
porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali,
mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró".
Vilaró é Carlos Paez Vilaró,
amigo pessoal de Vinícius e idealizador do Casapueblo, a casa em Punta Ballena, no
Uruguai, onde o poetinha compôs "A casa" para seus netos.
Quem passa por Punta Ballena, a apenas 15km de
Punta Del Este, não consegue deixar de se maravilhar com a enorme construção branca,
sem nenhuma linha reta, que se esparrama sobre as pedras à beira-mar. Tudo começou em
1958 com uma casinha simples de lata, chamada "La Pionera", que serviria de
atelier ao pintor, escultor, arquiteto, cineasta, escritor e ceramista.
Com o tempo, Vilaró começou a cobrir a casa
de lata com cimento e cal, pintando sempre o exterior de branco. A casa/atelier foi
crescendo e interagindo com o penhasco rochoso de Punta Ballena. Quem a observa, não pode
deixar de lembrar de uma mistura de Salvador Dali com Antonio Gaudí. Todo o encanamento
do Casapueblo passa pela construção em relevo nas paredes, como se fossem veias de uma
enorme estrutura orgânica. "Escultura para viver" é como o próprio artista
chama a sua obra, que, 30 anos depois, ainda não está concluída.

Vilaró - "Borocotó chás Chás" - Ano 2000
Técnica mista - 60 x 80 cm
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Vilaró, com mais
de 80 anos de idade, continua trabalhando na sua escultura, construindo um quarto aqui,
uma sala ali... O Casapueblo hoje conta com mais de 70 quartos, todos batizados com os
nomes dos primeiros hóspedes. Pelé, Toquinho, Vinícius, Robert de Niro, Brigitte
Bardot, Omar Sharif, Alain Delon...
Mas a melhor coisa do Casapueblo é
definitivamente a visão do pôr-do-sol, que é comemorada com uma cerimônia onde os
hóspedes, nas varandas, escutam uma gravação do próprio Vilaró onde ele fala sobre
sua amizade com o sol, que o encontra sempre, no Tahiti ou na África. Com alguma sorte,
pode-se assistir ao pôr-do-sol ao lado do próprio artista, que mantém seu atelier no
ponto mais alto de sua construção.
Quem não estiver hospedado no Casapueblo,
também pode participar da cerimônia do entardecer e ainda assistir a um vídeo sobre a
vida e a arte de Carlos Paez Vilaró, cujo filho estava no avião que caiu no Chile, na
cordilheira dos Andes, quando por meses tiveram que comer carne humana.
Vilaró escreveu um livro sobre o acidente,
mostrando sua aflição de pai. Seu livro acabou virando filme de sucesso em Hollywood,
mas esta não foi a primeira incursão do escultor no mundo do cinema. Em 1969, fez um
filme chamado "Pulsation", filmado durante três anos no Pacífico, com música
de Astor Piazolla, que é considerado o precursor da linguagem dos videoclipes.
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