Eat Art - A arte que
também é comida

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Texto:
Deborah Berlinck
Jornal "O Globo"

Imagens:
Reprodução


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Diether Roth
"Auto-retrato como leão" (1971)
(Uma das poucas obras que sobreviveram)


Comer um quadro. Lamber uma escultura. Devorar uma instalação. Um movimento artístico conhecido como Eat Art — literalmente, Comer Arte — transgrediu, de uma vez só, duas regras básicas: não se toca em arte e não se brinca com comida.

O Eat Art surgiu nos anos 60 e tem hoje a capital francesa como um de seus principais veículos. A ponto de Paris lhe erigir um templo.

A galeria Fraîch’Attitude, inaugurada há três anos, é a primeira na Europa a dedicar-se exclusivamente ao Eat Art.


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Michel Blazzi  - Sem título

Movimento artístico foi criado nos anos 60

     A galeria encerrou em novembro de 2004 uma retrospectiva, com trabalhos — alguns, devidamente comidos — de vários artistas, entre eles, o suíço Daniel Spoerri e a francesa Dorothée Selz.

     Spoerri não é um nome qualquer. Um dos fundadores do movimento artístico conhecido como Novo Realismo, ele é o inventor do Eat Art na década de 60 e tem obras em vários museus, como o Tate, de Londres.

     A francesa Dorothée Selz é outra veterana do movimento. Foi ela quem criou um enorme afresco comestível que marcou a inauguração da Galerie du Jeu de Paume, em 1991.

     — O primeiro a fazer entrar a comida nas Belas Artes foi Daniel Spoerri. Ele lançou esta idéia do Eat Art, utilizando a comida como um material de criação contemporânea para uma obra de arte — conta Cristophe Spotti, diretor da Fraîch’Attitude.

     Daniel Spoerri, que cunhou o nome Eat Art, criou nos anos 70 um misto de galeria e restaurante que se tornou concorrido em Düsseldorf, na Alemanha, para o qual convidava seus amigos artistas, como Andy Wahrol e Roy Lichtenstein, a criar obras.

     Eram jantares memoráveis. Wahrol fez um quadro-bolo que reproduzia uma de suas obras. O único registro é uma foto, pois a obra foi comida.

     Ao longo da carreira, Spoerri organizou uns 50 banquetes para comer arte, que deram o que falar. Num deles, chamado "Ricos e Pobres", convidados escolhidos ao acaso para terem um jantar de "pobre" eram condenados a assistir os outros tendo um verdadeiro banquete de "ricos".

     Em novembro de 2004, em Paris, ele organizou outro jantar, com menu invertido: começava com o café, servido numa taça, mas que era, na verdade, um caldo de champignon com creme de raiz forte.


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Aldo Mondini - "Le sucre au coeur" (1973)
Museu de Arte de Ravena

Instalações utilizam tomate e pimentão

     Hoje, em Paris, a comida está definitivamente na moda. Perfumes franceses utilizam cada vez mais comida. Os cremes cosméticos também: de damasco, de uva. Na arte, a comida, como tema e material, expande-se por vários meios, do vídeo à fotografia.

     Em Paris, a fotógrafa Natascha Lesueur ganhou notoriedade fazendo fotos, por exemplo, de cabeça de mulheres com comida no cabelo. Michel Blazy é outro artista seguindo a mesma tendência. Ele faz montagens e instalações utilizando tomate, pimentão e outros alimentos. Depois, filma com uma câmara microscópica os alimentos se decompondo.

     — São imagens bonitas, que não têm nada a ver com a imagem que temos de um alimento em decomposição, porque com esta câmara se vê coisas que não vemos a olho nu — comenta Christophe Spotti.

     Exposição de arte em restaurantes também virou happening . Para seu restaurante nova-iorquino, Le Mix, o mais famoso chef francês, Alain Ducasse, encomendou obras de video painting , inspirados em pratos que propõe a designers.

     Dorothée Selz, que fez trabalhos memoráveis colorindo comida na Eat Art Galerie e no restaurante de Spoerri junto com o artista espanhol Antoni Miralda, continua fazendo Eat Art, ao mesmo tempo em que pinta quadros.


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Joseph Beuys - da esquerda para a direita
- "Arroz econômico" (1980-circa)
- "Pote de margarina" (1977)
- "Lata de chá preto" (1979-circa)
- Pote de mel (1980-circa)

     — Não me interessa o fato que a Eat Art não dure. O que me interessa nessa arte é a possibilidade de criar um momento único, um momento especial entre o artista e o público. Não é uma obra que se vê, é uma obra em que se participa — diz Selz.

     Isso explica porque poucas peças que foram criadas sobreviveram. O "Le coup de pinceau", criado por Roy Lichtenstein para um evento de Spoerri, ainda existe, graças a um amador que foi convidado a comer a arte e preferiu conservá-la. É uma peça de meio metro que imita uma pincelada, feita com pão de ló e colorida com açúcar amarelo.

      A Fraîch’Attitude expôs na sua retrospectiva de novembro de 2004 um auto-retrato de Dieter Roth, feito de chocolate há 33 anos (veja imagem no topo da página) — o único que restou dos 40 que preparou para um jantar Eat Art organizado por Spoerri. Coisas da efêmera e atraente arte comestível.

VEJA TAMBÉM:
MULHERES NA EAT ART


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Daniel Spoerri - "Eaten Party" (1979)
Bienal de Sidney (Austrália)


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Sonja Alhäuser  - "Deer Burger" (2001)
A artista usa chocolate, pipocas e caramelos para
despertar os sentidos dos visitantes.

(veja exposição)

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Responsável: Paulo Victorino
www.pitoresco.com
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