«O pintor vê a cor, eu
vejo a estrutura»

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José Carlos Santana   
O Estado de São Paulo
9 de maio de 1998     


     A maior preocupação de Amilcar de Castro é sempre a sensibilidade, que ele considera fundamental para sua obra, que sempre começa a partir de um desenho, um traço que vai ganhando forma e volume.

     A arte não fez de Amilcar de Castro um homem rico, mas, sem dúvida, deu-lhe muito prazer. Seu novo projeto é trabalhar a mesma peça em ferro, madeira e granito, "uma amolação danada, mas uma experiência interessante", como diz.

Estado - A mudança do ateliê é para já? Amilcar - Acho que vai demorar ainda um bom tempo, porque eu estou construindo e o dinheiro não está sobrando, não. Essas coisas consomem muito dinheiro e é preciso ir devagar.

Estado - O maior escultor brasileiro, vivo, com 50 anos de estrada, não ganhou dinheiro suficiente para construir um ateliê? O sr., então, não é o Jorge Amado da escultura? Amilcar - Esse negócio de maior escultor é bobagem, é a imprensa que diz. Não há isso de maior, não. Agora, a escultura é um negócio muito caro, gasta- se muito e o que a gente tem é mais prazer do que retorno financeiro. Eu vivo do meu trabalho como artista e da minha aposentadoria como professor, que é muito pequena, ridícula.

Estado - O que dá mais dinheiro, escultura ou desenho?
Amilcar - Os desenhos vendem mais, o gasto é muito menor e sobra mais dinheiro.

Estado - Quanto custa uma escultura com a assinatura de Amilcar de Castro?
Amilcar - Depende da quantidade de material e do trabalho que ela dá na oficina. O preço varia de R$ 5 mil a R$ 100 mil. Pode até custar mais, depende muito.

Trocando de base

Estado - E essas de madeira e de pedra? Vão custar quanto?
Amilcar - Você sabe que não tenho a menor idéia, que ainda não consegui chegar ao preço! Só vou saber depois de conversar com a Raquel Arnaud, porque quem entende do mercado é ela.

Estado - E o que aconteceu, professor, que de repente fez o sr. querer trabalhar também com madeira e pedra?
Amilcar - Não foi de repente, não. Há mais de 20 anos que eu faço esculturas com madeira e com pedra. O negócio é que começo e paro, começo e paro, porque o ferro é o material com que eu mais gosto de trabalhar. Só que agora eu resolvi juntar tudo e fazer a mesma peça em ferro, madeira e granito. É uma experiência interessante, que me dá muito trabalho, uma amolação danada, mas me dá também muito prazer. Arte é isso, arte é prazer.

O ferro, a madeira
e o granito

Estado - O que o fez optar pelo ferro, como material básico de expressão das suas idéias e das suas fantasias?
Amilcar - A facilidade de manuseio e de execução. Todo mundo sabe lidar com ferro. Qualquer ferreiro sabe cortar, dobrar, fazer o diabo com esse material. Tem também a cor. Eu acho muito bonita a cor do ferro, antes e depois de enferrujar.

Estado - A mudança de material altera muito o seu processo de criação?
Amilcar - Não muito, porque o ferro a gente dobra e com a pedra e a madeira o negócio é serrar. O problema maior é encontrar a madeira certa, porque tem de ser braúna ou aroeira, madeiras nobres, que a gente já não acha mais com facilidade, o que vai me obrigar a viajar muito para encontrar. E eu detesto viajar.

Estado - E a idéia é fazer peças grandes, como faz com o ferro?
Amilcar - Com madeira não dá para fazer peças muito grandes não, por causa do que eu falei, da dificuldade de encontrar uma tora que seja perfeita, por fora e por dentro, sem carunchos. As esculturas vão ter no máximo 70 centímetros de diâmetro. Com o granito sim, será possível fazer peças mais volumosas.

Esculturas brasileiras
na arquitetura alemã

Estado - E em que pé está a escultura que o sr. vai fazer em Berlim? Vai ser de ferro, não?
Amilcar - Vai ser de ferro, sim, com 8 metros de diâmetro. Quem me convidou foi o (arquiteto) Marcelo Ferraz, da Fundação Lina Bo Bardi. Convidou-me e também Siron Franco, Krajckberg e Miguel dos Santos. Cada um de nós deve fazer uma escultura que ele vai colocar nas quatro entradas de um grande conjunto habitacional que eles estão reurbanizando lá. Nós já conversamos e decidimos que a escultura será feita lá em Berlim, mas quando, não sei, não. Quem tem essas informações é o Marcelo (A inauguração do conjunto está prevista para 19 de junho).

Experiência com o
Geometrismo

Estado - Os desenhos que o sr. vai expor na galeria da Raquel, a partir de terça-feira, já estão prontos?
Amilcar - Alguns já estão prontos, sim. É uma nova experiência que estou fazendo com o geométrico. Na verdade, são mais pintura que desenho e estou gostando muito. Uso melhor a cor.

Estado - O sr. parece preferir o preto e o branco, por quê?
Amilcar - Não é que eu não goste da cor, não, ao contrário. A cor me fascina. O problema é que eu não domino bem a cor, não sou pintor. O pintor interpreta o mundo por meio da cor, é o caso de Matisse, Guignard, Volpi, pintores geniais. Eu, como escultor, o interpreto por meio da estrutura. E, para dar força à estrutura, uso uma cor, o vermelho, o azul, o amarelo. Eu sou um gráfico, como o Mondrian, e prefiro fazer só o que eu sei fazer. No caso das esculturas de ferro, o ferro adquire a ferrugem e a ferrugem é a sua cor. Nesse ponto, eu o Weissmann discordamos, mas só nesse sentido, porque no restante temos opiniões muito parecidas.

Saudades do Neoconcreto

Estado - O sr. já disse que considera o movimento neoconcretista tão ou, talvez, mais importante para o Brasil que a Semana de Arte Moderna. Por quê?
Amilcar - Na minha opinião, o movimento neoconcretista foi mais importante porque lançou e fundamentou idéias que tiveram como conseqüência uma espécie de redescoberta da nossa civilização, da obra de Aleijadinho, por exemplo, e deu força à idéia de que é preciso construir, organizar, fazer bem-feitas as nossas coisas, as coisas brasileiras.

Estado - Concretismo e neoconcretismo, figurativo e abstrato, razão e emoção. O tempo passa e a discussão continua, interminável. O sr. ainda se preocupa com isso?
Amilcar - A única coisa que realmente me preocupa é a sensibilidade, porque na arte ela é muito importante. Tudo bem construir, mas se construa, também e muito, com o coração. Esse, na minha opinião, é o caminho e essa é a minha preocupação.

Estado - E a poesia? O sr. escreve como e quando?
Amilcar - Esse negócio de poesia é com o Ferreira Goulart (seu companheiro no manifesto neoconcretista), não é comigo, não. As pessoas dizem que faço poesia, mas, na verdade, o que faço é explicar da melhor maneira que posso o que é a minha escultura. Quando pedem para eu fazer isso, eu faço. Sento, pelejo e faço um depoimento. Mas não tem nada de poesia. Quem sou eu...

Paginação de jornal
é decadente

Estado - O sr. organizou ou participou de reformas gráficas em quase todos os jornais e revistas do Rio e de Belo Horizonte. Suas idéias para o Jornal do Brasil fizeram escola. Como é que o sr. vê os jornais de hoje, no que diz respeito ao visual?
Amilcar - De um modo geral, acho muito ruins. Graficamente, os jornais pioraram muito. Há a intenção de botar muita coisa numa página só e essa profusão de títulos e textos, misturada à cor, cria uma confusão muito grande na cabeça de quem vai ler. Há muito mau gosto na cor e na distribuição dos assuntos, fica tudo atropelado. Os jornais de hoje não têm caráter. Você passa pela banca, vê os jornais expostos e, se abstrair o nome, não consegue distinguir qual é qual.

Estado - E a televisão?
Amilcar - Não vejo muito, não, e raramente gosto do que vejo. Acho tudo uma porcaria. Ninguém diz nada seriamente, no sentido de ajudar a melhorar as coisas. É só denunciar, denunciar e nem uma idéia construtiva. Não gosto, não.

Visão amarga
da política

Estado - O sr. foi sempre um homem de opinião, no que diz respeito à política, e chegou a ser incomodado pela ditadura militar por suas idéias de esquerda. Qual é a sua visão do Brasil, nos dias de hoje?
Amilcar - Eu acho que tenho a mesma visão do barão do Rio Branco. O povo é genial, fabuloso e a elite é uma desgraça. Você pega, de um lado, a elite dos nossos políticos; do outro, o povo simples nas ruas. E pode ver, claramente, que a diferença é imensa. O povo é um povo direito, honesto, criativo, e a música popular brasileira está aí para provar isso. Já a elite brasileira é, sem cair na generalização, desprezível. O barão do Rio Branco tinha toda razão.

Estado - O comportamento dos políticos chega a incomodar o sr.?
Amilcar - Preocupa e chateia muito. O povo brasileiro não merece o que eles fazem com o País.

Estado - O sr. votou em Fernando Henrique e vai votar nele para mais um mandato?
Amilcar - Não votei e jamais votaria. É um sociólogo metido a sebo, vaidoso demais, nele não voto, não. Eu sempre votei no Lula e acho uma pena o Brasil não dar a ele a oportunidade de fazer alguma coisa por este país. Ele sabe do que o povo precisa e tem gente muito boa com ele, gente séria e sábia.

A eternidade do metal

Estado - O que o sr. faz para se manter tão esperto e mentalmente tão alerta?
Amilcar - Não faço absolutamente nada de especial. Também não faço nenhuma extravagância. Esse negócio de andar não é comigo, porque acho ridículo ficar para lá e para cá, para manter a forma. Não é comigo isso, não.

Estado - O ferro dá a sensação de algo eterno. Como é a relação entre o artista, que o tempo fragiliza fisicamente, e esse material que o sr. corta e dobra como se fosse papel e nos parece tão poderoso, quase indestrutível?
Amilcar - Engraçado, nunca pensei nisso. Não penso em peso, não penso em força, só penso na idéia, na forma que quero criar, que está no desenho, e no que devo fazer para conseguir reproduzi-la no ferro, para dizer o que quero dizer. Acho que o poder, a força do ferro não me vêm à cabeça porque parto do desenho e a escultura vai ganhando forma aos poucos.

A faculdade de Direito
e a escultura

Estado - O estudo do Direito teve, ou ainda tem, influência sobre seu trabalho de escultor?
Amilcar - A formação de Direito e o fato de o meu pai ter sido juiz, eu acho, deram-me essa necessidade da coisa justa, da coisa correta, bem-feita e limpa na execução das peças. Fez-me ser leal comigo mesmo, mais digno e penso que tudo isso está refletido no meu trabalho. O engraçado é que, quando comecei a desenhar com lápis duro, que o Guignard me ensinou, me dava essa sensação de justeza, de correção. É assim que deve ser, eu pensava. Se errou, o erro deve ser absorvido porque o risco com lápis duro não sai com borracha. Acho que eu devo acrescentar que toda obra de arte, no fundo, é um ato de justiça também. E, sendo assim, não abandonei o Direito.

O único artista
na família

Estado - Há outro artista entre os seus quatro irmãos e irmãs?
Amilcar - Não, nenhum. O meu irmão é médico e minhas irmãs são todas donas de casa. Muito prendadas, mas donas de casa.

Estado - E os seus filhos?
Amilcar -Também não. Dos três, apenas o Pedro tem alguma relação com arte, porque é gráfico. A Ana Maria é psicóloga e o Rodrigo mora em São Paulo e trabalha com computação.

Estado - Suas esculturas são fortes, mas não intimidam. Ao contrário, criam uma atmosfera muito agradável em torno delas. Isso é um reflexo da sua personalidade, forte e ao mesmo tempo suave e calorosa.
Amilcar - Eu acredito que seja, sim, porque também sinto isso que você está dizendo. Acho que é porque gosto muito delas, tenho muito carinho por elas e me dou muito quando estou esculpindo.

Estado - Passando em revista o livro Amilcar de Castro (Cosac & Naify Edições), notei que algumas das esculturas têm formas que lembram bichos, formas muito presentes na nossa infância, aqui em Minas Gerais. É um delírio ou é isso mesmo?
Amilcar - É isso mesmo, não é delírio, não. Você vai perceber isso mais presente nas esculturas que estou fazendo agora, com madeira e pedra. Minha infância está na memória e essas coisas acabam saindo, refletind-se no que a gente faz.

O jardim das delícias

Estado - Ainda falando de livro. Amilcar de Castro é muito bem impresso, muito bem-feito, mas o sr. não acha que já teria chegado a hora de produzir um livro que mostre a sua obra por inteiro, com as esculturas nas cores que elas adquirem com a exposição e o tempo?
Amilcar - Pois é, seria uma maravilha. Mas essas coisas não dependem de mim, custam muito, têm de ter patrocínio e parece que não há interesse. Mas me daria muita alegria se um livro assim fosse feito.

Estado - Em vez de colocar no ateliê de Nova Lima as esculturas que o sr. guardou, não vendeu, e as que vai fazer, não seria melhor espalhá-las em uma grande área verde, em um terreno que se tornasse conhecido como o jardim de Amilcar de Castro?
Amilcar - Você sabe que eu já pensei nisso! Seria, realmente, muito interessante. O problema é que essas coisas são muito caras, porque é preciso arrumar o terreno e coisa e tal. Por enquanto, não tenho esse dinheiro, não. Quem sabe, no futuro, né?

Yes, nós temos
escultores

Estado - Antes de vir conversar com o sr. eu estava pensando: por que existem tão poucos escultores de maior expressão e renome na história da arte brasileira e até mundial?
Amilcar - Engraçado, há pouco eu estava pensando nisso também. Mas você está enganado, no que diz respeito ao Brasil. Há muita gente boa na relação de escultores brasileiros. Eu acho que se for feita uma boa análise, se verá que a escultura no Brasil é mais importante que a pintura. Só aqui de Minas você tem Aleijadinho, Zé Pedrosa, Ceschiatti, Maria Martins, GTO, Artur Pereira, eu, a Lygia Clarck, o Zé Bento, o Benjamin, tem mais de uma dezena de escultores de alta categoria. Tem o Brecheret em São Paulo, o Bruno Giorgi, tem o Tunga... Ih, tem muita gente.

Estado - E qual é a opinião do sr. sobre as instalações, que viraram moda na arte mundial?
Amilcar - Não estou muito aí, não. Eu acho que elas não têm futuro, não têm conseqüência. Arte tem de ter fundamento e conseqüência. As instalações ficam no meio do caminho, não é isso nem aquilo. Não gosto, não.

A morte é chata: está
tão bom aqui...

Estado - De repente, apareceu uma cruz no seu caminho. Uma cruz de proporções áureas perfeitas que o sr. projetou para o pessoal do Santo Daime, aqui em Belo Horizonte. O amadurecimento fez com que o sr. reencontrasse Deus?
Amilcar - Não, não... Eu nunca abandonei Deus, está tudo certo entre nós. Nunca fui religioso, não vou à missa, mas acredito em Deus e tenho muita fé. Agora, essa cruz é um pedido que eu recebi do irmão do Frei Beto, de quem eu gosto muito. E ele pelejou para eu beber aquele troço, mas eu não quis, não. Não acredito em beber coisas para ver Deus, não.

Estado - O sr. ainda mantém contato com o pessoal do seu tempo no Rio, o Ferreira Goulart, por exemplo?
Amilcar - Não, não tenho quase nenhum contato com eles. Eu vou ao Rio, às vezes, mas só para uma exposição ou outra. Nunca sobra muito tempo para visitas, jantares, encontros, essas coisas. Eu também não sou muito de viajar, não, e aí esses contatos ficam cada vez mais difíceis.

Estado - A idéia da morte o incomoda?
Amilcar - Eu confesso que, às vezes, penso nisso e me dá muita chatice. Está tão bom aqui que eu gostaria de ficar ainda muito tempo fazendo o que faço. Mas essa idéia vem e vai logo embora, porque a escultura na minha cabeça é mais forte que a morte.
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Responsável: Paulo Victorino
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