Primeiro Ato:
Pelas ruas
de Viena

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Década de 20. A manhã agradável é um convite para caminhar
sobre as ruas de Viena, Áustria. Os passos firmes dos operários que, apressados, se
dirigem aos seus locais de trabalho, por vezes são interrompidos pelo trotar de cavalos e
pelas rodas de carroças, marcando o compasso de uma cidade que, mais uma vez, desperta
para viver a realidade de seus sonhos e pesadelos.
Terminara há poucos anos
a Primeira Guerra Mundial, deixando um rastro de miséria e desolação, agravado por uma
enorme dívida de guerra e um desastre econômico difícil de remediar, tornando a paz
pior que o conflito.
À margem de tudo isso, a
Áustria sofrera o confisco de territórios para a formação da Iugoslávia,
Checoslováquia e Hungria, ficando agora com pouco mais de 80 mil quilômetros quadrados e
uma gigantesca dívida, que a impedia de resolver seus problemas econômicos mais
imediatos. Pressionado pelas forças revolucionárias nacionalistas, o rei Carlos 1º
renuncia logo após o término da guerra e os vencedores proclamam a República da
Áustria, em 1919. Mas a economia arrasada torna inútil qualquer mudança de regime.
Debaixo da neblina,
respirando a úmida aragem que sopra do Danúbio, Rudolf, um jovem adolescente, caminha
rapidamente com seus olhos perdidos no horizonte, como que voltados para o futuro, que
parecia tão incerto. Trabalha como letreirista mas, muito além das placas e fachadas,
sonha com a pintura artística de quadros, cujas experiências vinham sendo bem sucedidas
tecnicamente. O problema era encontrar mercado num país desanimado, com um povo sem
dinheiro e sem esperanças.
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Segundo Ato:
Argentina,
uma luz no
horizonte

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«Bom mesmo é viver na América do Sul. Lá não houve guerra e
a procura por mão-de-obra é sempre grande» Quem lhe diz isso é um colega, enquanto
trabalham na oficina. Uma frase solta no espaço, sem direção, apenas para preencher o
tempo. Estava «jogando conversa fora», como se diz por aqui.
Mas o jovem recebeu o
impacto da sugestão e a idéia ficou martelando na cabeça de Rudolf. Assim que pôde,
debruçou-se sobre um mapa, deslizando sobre ele o dedo indicador, até chegar à
Argentina. Durante meses, anos talvez, fez perguntas, reuniu dados e juntou dinheiro até
que, no início dos anos 30, conseguiu concretizar o que havia planejado tão longamente,
que era atravessar o Atlântico na busca de um grande sonho.
Não se deu mal na
Argentina. Conseguiu ganhar um bom dinheiro, o suficiente para atender suas necessidades,
fazer um pé-de-meia, e até comprar uma motocicleta, o que naquela época era uma
façanha.
Começava ali sua fase de
aventuras com esportes radicais e outros nem tanto. Mas a carreira de motociclista foi
abruptamente interrompida num choque entre sua moto e um bonde, no qual, como é fácil de
se imaginar, quem levou a pior foi Rudolf.
Pior ou melhor, não sei,
porque durante a convalescença, veio a conhecer aquela que seria a companheira do resto
da vida: Hilda Margarida Rathmann, que viera de Augsburg, Alemanha. Curiosidades do
destino que trouxe um e outro de tão longe para ali se encontrarem e formarem um novo
lar.
Os dois se casam. Ela
passa a chamar-se Hilda Margarida Weigel. Depois, voltando seus olhos, novamente, em
direção ao futuro, Rudolf conversa com a mulher e toma outra grande decisão de sua
vida: «Vamos morar no Brasil!»
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Terceiro Ato:
«O trem
das onze»

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Estamos agora em São Paulo, no momento em que se encerra o ano
de 1933 e, como sempre, renovam-se as esperanças de todos com o nascer de um novo ano.
A cidade de São Paulo,
centro de imigração nas décadas anteriores, pode contar já com mais de um milhão de
habitantes, morando em casarões que se transformaram em pensões e cortiços, ou
espalhados pelos bairros periféricos, em amplos terrenos, mas casas modestas, no tamanho
que permitiam as economias.
Após um raio de poucos
quilômetros, fecha-se à volta da cidade um espesso cinturão de mata nativa, formado
pela serra do Mar ao Leste e a serra da Cantareira no restante, cortadas, uma e outra por
estradas-de-ferro, que eram praticamente o único meio de transporte além divisas.
Um trem, puxado pela
«Maria Fumaça», andando em bitola estreita e levando atrás de si apenas dois vagões,
chega à pequena estação de Vila Galvão, próxima a Jaçanã, mergulhadas ambas na
mata, a meia altura da Cantareira.
Do trem, descem alguns
viajantes solitários, entre eles um casal em busca de um lugar para construir sua vida a
dois. Eram Rudolf e Hilda, encantados com a paisagem rude, quebrada aqui e ali por alguma
choupana cabocla, cercada pelas plantações de flores, ou por um bangalô usado em fins
de semana.
Este é o lugar que ele
procurava para sua inspiração e trabalho e é aqui que ambos vão passar os primeiros
anos de Brasil. Assim como Monet, que mandou construir seus jardins em Giverny para
utilizá-los como tema de seus quadros, Rudolf elegeu este pequeno povoado para viver.
Aqui foram criados seus primeiros quadros tropicais. Aqui foram vividos os primeiros
sonhos do casal; aqui ficariam para todo o sempre, se possível fosse.
Mas um artista, se quer
projetar-se e garantir o sustento familiar, precisa não apenas de inspiração mas
também de mercado para colocar seu trabalho.
Foi o fim de um idílio
com a natureza em seu estado bruto. Mais uma vez, as malas foram feitas e, desta vez, o
destino era o Rio de Janeiro, capital do País e capital das artes no Brasil.
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O artista

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Rudolf Weigel, também conhecido como Rodolfo ou simplesmente
Rudi, nasceu na Áustria em 13 de junho de 1907 e faleceu no Rio de Janeiro em 7 de
fevereiro de 1987, pouco antes de completar oitenta anos.
Trabalhando em Viena como
letreirista, foi aos poucos se aproximando da pintura, pela intuição e, talvez, guiado
por mãos mais experientes, mas sem um curso regular ou a ajuda de mestres consagrados.
Sua ascensão
profissional começou a ser sentida quando mudou-se para o bairro de Santa Teresa, no Rio
de Janeiro, paraíso dos artistas plásticos. Lá nasceu Helga e, depois, Erich Rodolfo,
os dois únicos filhos do casal.
Firmando nome no mercado,
Rudolf sentiu-se seguro para investir na construção da casa da família, mudando-se
provisoriamente para a zona norte da cidade do Rio de Janeiro, enquanto projetava, ele
mesmo, uma casa a ser construída naquelas proximidades, no bairro do Cachambi.
Era o retorno às
reminiscências da Áustria. A nova casa trazia a marca dos Alpes, adaptada ao clima
carioca. O telhado não tinha aquela inclinação forte, comum nas regiões nevadas, mas
era de construção mista, com a estrutura em alvenaria e a parte superior simulando
madeira.
Registrando sua
personalidade, Rudi desenhou até as portas e os móveis e tudo isso se conservou até sua
morte, quando Hilda, a duras penas, teve de vendê-la para mudar-se a outro espaço onde
pudesse viver sozinha.
Rudolf não deixou nenhum
livro e, apesar de sua presença marcante no mercado de arte, seu nome não ganhou a
mídia, em grande parte pelo fato de fugir a atividades sociais, evitando sua presença em
vernissages, festas e até mesmo bloqueando o contato com a imprensa, que afastava com
veemência e, por vezes, até com aspereza.
Daí seu nome ser menos
notado no rol de pintores atuantes no Brasil, embora seus quadros continuem disputados,
alcançando boa repercussão no mercado de arte.
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Exposições

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A preocupação central de Rudolf Weigel era pintar, não
necessariamente assinalar os feitos de sua carreira. Por isso, não se encontra um
registro preciso de exposições e mostras de que participou.
Servia-se principalmente
de galeristas para colocar seus quadros e, vez por outra, utilizava essas mesmas galerias
para a realização de mostras individuais.
Não tinha preconceitos
quanto a espaços. Na década de 50 realizou uma exposição de quinze dias ao ar-livre,
em um parque do Rio de Janeiro. Construiu ele mesmo um mega-cavalete, em forma de «v»
invertido e, de um lado e de outro, colocava os quadros que pretendia expor. Foi uma
série de pequenos quadros, no formato de 18 x 13 cm, dos quais conseguiu vender quase
todos.
Contrariando seus
hábitos, em 1953, pela insistência de amigos, participou do Salão Nacional de Belas
Artes com o quadro «A sentinela do vale», merecendo a medalha de bronze. Não o
conservou consigo, sendo vendido logo após a premiação.
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A aventura e
os hobbies

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Avesso a contatos públicos, pode-se pensar que Rudi era um homem
alheio ao mundo à sua volta, mas essa idéia é falsa. Não gostava de publicidade mas
adorava estar em contato com gente como ele, buscando amizade mas preservando o anonimato.
Ao surgirem no Brasil as
primeiras Kombis, ainda importadas da Alemanha, comprou uma, transformando-a numa pequena
casa, com cama e uns poucos móveis, atraindo gente onde quer que abrisse as largas portas
do veículo.
Gostava de mar. Primeiro,
comprou um veleiro a que deu o nome de «Rowe», aproveitando as primeiras sílabas de seu
nome. Depois, comprou outro, para regatas, a que deu o nome de «Éolo» (na mitologia
grega, o rei dos ventos)
Menos radical, mas
exigindo mais paciência, dedicava-se também ao ferromodelismo. Poucos anos antes de
morrer, montou uma estrutura com seis metros de comprimento e dois de largura, onde
construiu uma pequena estrada-de-ferro com tudo a que tinha direito.
No Brasil, deixou
registrado mais de meio século de pintura, assim como um amor sem fim pela cidade e povo
do Rio de Janeiro. (Texto de Paulo Victorino)
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