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Rudolf Weigel
13.06.1907 - Viena
07.02.1987 - Rio de Janeiro
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Primeiro Ato:
Pelas ruas
de Viena

 

 

 

 

 

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     Década de 20. A manhã agradável é um convite para caminhar sobre as ruas de Viena, Áustria. Os passos firmes dos operários que, apressados, se dirigem aos seus locais de trabalho, por vezes são interrompidos pelo trotar de cavalos e pelas rodas de carroças, marcando o compasso de uma cidade que, mais uma vez, desperta para viver a realidade de seus sonhos e pesadelos.

     Terminara há poucos anos a Primeira Guerra Mundial, deixando um rastro de miséria e desolação, agravado por uma enorme dívida de guerra e um desastre econômico difícil de remediar, tornando a paz pior que o conflito.

     À margem de tudo isso, a Áustria sofrera o confisco de territórios para a formação da Iugoslávia, Checoslováquia e Hungria, ficando agora com pouco mais de 80 mil quilômetros quadrados e uma gigantesca dívida, que a impedia de resolver seus problemas econômicos mais imediatos. Pressionado pelas forças revolucionárias nacionalistas, o rei Carlos 1º renuncia logo após o término da guerra e os vencedores proclamam a República da Áustria, em 1919. Mas a economia arrasada torna inútil qualquer mudança de regime.

     Debaixo da neblina, respirando a úmida aragem que sopra do Danúbio, Rudolf, um jovem adolescente, caminha rapidamente com seus olhos perdidos no horizonte, como que voltados para o futuro, que parecia tão incerto. Trabalha como letreirista mas, muito além das placas e fachadas, sonha com a pintura artística de quadros, cujas experiências vinham sendo bem sucedidas tecnicamente. O problema era encontrar mercado num país desanimado, com um povo sem dinheiro e sem esperanças.
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Segundo Ato:
Argentina,
uma luz no
horizonte

 

 

 

 

 

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     «Bom mesmo é viver na América do Sul. Lá não houve guerra e a procura por mão-de-obra é sempre grande» Quem lhe diz isso é um colega, enquanto trabalham na oficina. Uma frase solta no espaço, sem direção, apenas para preencher o tempo. Estava «jogando conversa fora», como se diz por aqui.

     Mas o jovem recebeu o impacto da sugestão e a idéia ficou martelando na cabeça de Rudolf. Assim que pôde, debruçou-se sobre um mapa, deslizando sobre ele o dedo indicador, até chegar à Argentina. Durante meses, anos talvez, fez perguntas, reuniu dados e juntou dinheiro até que, no início dos anos 30, conseguiu concretizar o que havia planejado tão longamente, que era atravessar o Atlântico na busca de um grande sonho.

     Não se deu mal na Argentina. Conseguiu ganhar um bom dinheiro, o suficiente para atender suas necessidades, fazer um pé-de-meia, e até comprar uma motocicleta, o que naquela época era uma façanha.

     Começava ali sua fase de aventuras com esportes radicais e outros nem tanto. Mas a carreira de motociclista foi abruptamente interrompida num choque entre sua moto e um bonde, no qual, como é fácil de se imaginar, quem levou a pior foi Rudolf.

     Pior ou melhor, não sei, porque durante a convalescença, veio a conhecer aquela que seria a companheira do resto da vida: Hilda Margarida Rathmann, que viera de Augsburg, Alemanha. Curiosidades do destino que trouxe um e outro de tão longe para ali se encontrarem e formarem um novo lar.

     Os dois se casam. Ela passa a chamar-se Hilda Margarida Weigel. Depois, voltando seus olhos, novamente, em direção ao futuro, Rudolf conversa com a mulher e toma outra grande decisão de sua vida: «Vamos morar no Brasil!»
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Terceiro Ato:
«O trem
das onze»

 

 

 

 

 

 

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     Estamos agora em São Paulo, no momento em que se encerra o ano de 1933 e, como sempre, renovam-se as esperanças de todos com o nascer de um novo ano.

     A cidade de São Paulo, centro de imigração nas décadas anteriores, pode contar já com mais de um milhão de habitantes, morando em casarões que se transformaram em pensões e cortiços, ou espalhados pelos bairros periféricos, em amplos terrenos, mas casas modestas, no tamanho que permitiam as economias.

     Após um raio de poucos quilômetros, fecha-se à volta da cidade um espesso cinturão de mata nativa, formado pela serra do Mar ao Leste e a serra da Cantareira no restante, cortadas, uma e outra por estradas-de-ferro, que eram praticamente o único meio de transporte além divisas.

     Um trem, puxado pela «Maria Fumaça», andando em bitola estreita e levando atrás de si apenas dois vagões, chega à pequena estação de Vila Galvão, próxima a Jaçanã, mergulhadas ambas na mata, a meia altura da Cantareira.

     Do trem, descem alguns viajantes solitários, entre eles um casal em busca de um lugar para construir sua vida a dois. Eram Rudolf e Hilda, encantados com a paisagem rude, quebrada aqui e ali por alguma choupana cabocla, cercada pelas plantações de flores, ou por um bangalô usado em fins de semana.

     Este é o lugar que ele procurava para sua inspiração e trabalho e é aqui que ambos vão passar os primeiros anos de Brasil. Assim como Monet, que mandou construir seus jardins em Giverny para utilizá-los como tema de seus quadros, Rudolf elegeu este pequeno povoado para viver. Aqui foram criados seus primeiros quadros tropicais. Aqui foram vividos os primeiros sonhos do casal; aqui ficariam para todo o sempre, se possível fosse.

     Mas um artista, se quer projetar-se e garantir o sustento familiar, precisa não apenas de inspiração mas também de mercado para colocar seu trabalho.

     Foi o fim de um idílio com a natureza em seu estado bruto. Mais uma vez, as malas foram feitas e, desta vez, o destino era o Rio de Janeiro, capital do País e capital das artes no Brasil.
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O artista

 

 

 

 

 

 

 

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     Rudolf Weigel, também conhecido como Rodolfo ou simplesmente Rudi, nasceu na Áustria em 13 de junho de 1907 e faleceu no Rio de Janeiro em 7 de fevereiro de 1987, pouco antes de completar oitenta anos.

     Trabalhando em Viena como letreirista, foi aos poucos se aproximando da pintura, pela intuição e, talvez, guiado por mãos mais experientes, mas sem um curso regular ou a ajuda de mestres consagrados.

     Sua ascensão profissional começou a ser sentida quando mudou-se para o bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, paraíso dos artistas plásticos. Lá nasceu Helga e, depois, Erich Rodolfo, os dois únicos filhos do casal.

     Firmando nome no mercado, Rudolf sentiu-se seguro para investir na construção da casa da família, mudando-se provisoriamente para a zona norte da cidade do Rio de Janeiro, enquanto projetava, ele mesmo, uma casa a ser construída naquelas proximidades, no bairro do Cachambi.

     Era o retorno às reminiscências da Áustria. A nova casa trazia a marca dos Alpes, adaptada ao clima carioca. O telhado não tinha aquela inclinação forte, comum nas regiões nevadas, mas era de construção mista, com a estrutura em alvenaria e a parte superior simulando madeira.

      Registrando sua personalidade, Rudi desenhou até as portas e os móveis e tudo isso se conservou até sua morte, quando Hilda, a duras penas, teve de vendê-la para mudar-se a outro espaço onde pudesse viver sozinha.

     Rudolf não deixou nenhum livro e, apesar de sua presença marcante no mercado de arte, seu nome não ganhou a mídia, em grande parte pelo fato de fugir a atividades sociais, evitando sua presença em vernissages, festas e até mesmo bloqueando o contato com a imprensa, que afastava com veemência e, por vezes, até com aspereza.

     Daí seu nome ser menos notado no rol de pintores atuantes no Brasil, embora seus quadros continuem disputados, alcançando boa repercussão no mercado de arte.
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Exposições

 

 

 

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     A preocupação central de Rudolf Weigel era pintar, não necessariamente assinalar os feitos de sua carreira. Por isso, não se encontra um registro preciso de exposições e mostras de que participou.

     Servia-se principalmente de galeristas para colocar seus quadros e, vez por outra, utilizava essas mesmas galerias para a realização de mostras individuais.

     Não tinha preconceitos quanto a espaços. Na década de 50 realizou uma exposição de quinze dias ao ar-livre, em um parque do Rio de Janeiro. Construiu ele mesmo um mega-cavalete, em forma de «v» invertido e, de um lado e de outro, colocava os quadros que pretendia expor. Foi uma série de pequenos quadros, no formato de 18 x 13 cm, dos quais conseguiu vender quase todos.

     Contrariando seus hábitos, em 1953, pela insistência de amigos, participou do Salão Nacional de Belas Artes com o quadro «A sentinela do vale», merecendo a medalha de bronze. Não o conservou consigo, sendo vendido logo após a premiação.
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A aventura e
os hobbies

 

 

 

 

 

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     Avesso a contatos públicos, pode-se pensar que Rudi era um homem alheio ao mundo à sua volta, mas essa idéia é falsa. Não gostava de publicidade mas adorava estar em contato com gente como ele, buscando amizade mas preservando o anonimato.

     Ao surgirem no Brasil as primeiras Kombis, ainda importadas da Alemanha, comprou uma, transformando-a numa pequena casa, com cama e uns poucos móveis, atraindo gente onde quer que abrisse as largas portas do veículo.

     Gostava de mar. Primeiro, comprou um veleiro a que deu o nome de «Rowe», aproveitando as primeiras sílabas de seu nome. Depois, comprou outro, para regatas, a que deu o nome de «Éolo» (na mitologia grega, o rei dos ventos)

     Menos radical, mas exigindo mais paciência, dedicava-se também ao ferromodelismo. Poucos anos antes de morrer, montou uma estrutura com seis metros de comprimento e dois de largura, onde construiu uma pequena estrada-de-ferro com tudo a que tinha direito.

     No Brasil, deixou registrado mais de meio século de pintura, assim como um amor sem fim pela cidade e povo do Rio de Janeiro. (Texto de Paulo Victorino)
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DESTAQUE:
Olinda-PE (sem data)

Sem título (1938)
Europa
Devaneio
Ipanema
Interior (Ouro Preto)
Ouro Preto (inacabado)
Mariana
Ouro Preto
Riacho
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Agradecemos ao fotógrafo Erich Rodolfo Weigel (erich@unisys.com.br), filho do pintor, pelas imagens cedidas à publicação, assim como pela entrevista que possibilitou a redação do texto.
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Informações