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A Fada-Madrinha
Eliseu D'Angelo Visconti nasceu na Itália em 1866 e faleceu no Rio de Janeiro em 1944.
Tendo
chegado ao Brasil com menos de um ano, em companhia dos pais, a princípio desejou ser
músico, chegando a estudar teoria, solfejo e violino com Vincenzo Cemicchiaro e Henrique
Alves de Mesquita.
Coube à
sua madrinha, a Baronesa de Guararema, descobrir-lhe a verdadeira vocação, após ter
visto o desenho de uma camponesa italiana que o afilhado fizera.
Em 1884,
trocando a música pela pintura, Visconti está matriculado no Liceu de Artes e Ofícios,
tornando-se aluno de Vítor Meireles, Estêvão Silva e Roberto Esteves durante cerca de
um ano. Distinguiu-se de tal modo entre os colegas, que deles recebeu o apelido de
papa-medalhas.
Acadêmico, mas
progressista
Em julho
de 1885 ingressa na Academia Imperial de Belas-Artes, na qual seria discípulo de Zeferino da Costa, José Maria de Medeiros, Rodolfo Amoedo, Henrique Bernardelli e, mais uma vez, de Vítor
Meireles.
Aluno
brilhante e participante, alinhou-se entre os modernos na batalha pela atualização do
ensino acadêmico, em 1888, opondo-se aos positivistas.
Proclamada a República, as idéias preconizadas pelos modernos prevaleceram e Rodolfo
Bernardelli tornou-se diretor da nova Escola Nacional de Belas-Artes.
Um salto para a
França
No
primeiro concurso de premiação realizado sob o novo regime, em 1892, Eliseu Visconti,
impondo-se a sete candidatos, obteve por unanimidade o primeiro lugar nas três provas
(academia em desenho e pintura e composição histórica, essa com a tela A Anunciação).
Havia quase dez anos que o concurso não acontecia.
Em
começos de 1893, Visconti inscreve-se no vestibular da École des Beaux Arts de Paris,
nele obtendo o sétimo lugar entre 467 candidatos. Paralelamente matricula-se no curso de
arte decorativa da École Guérin, então dirigido por Eugène Grasset.
Logo se
desligaria da École, mas como aluno de Grasset permaneceria até 1897, recebendo desse
célebre artista, então no ápice de sua carreira, marcante influência. No logotipo de
Je Sème à Tout Vent, elaborado por Grasset para o Larousse inspirou-se, por exemplo,
para realizar o ex-libris da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Rompendo com o
Academicismo
Muito se
escreveu sobre Visconti como o introdutor, ou um dos introdutores, do Impressionismo no
Brasil; mas pouco sobre o fato de ter esse artista praticado o Art Noveau no momento da
maior vitalidade do estilo.
Existem,
aliás, vários outros pontos obscuros sobre a fase de formação do artista, o qual teria
mantido contato pessoal com Paul Gauguin, a se dar crédito a informação passada por seu
genro, Henrique Cavalleiro, ao crítico Flávio Mota. Terá Visconti visitado o exótico
ateliê de Gauguin na Rue Vercingétorix, onde reinava Annah la Javanaise?
Também
pouco se tratou da vinculação de Visconti ao Simbolismo de Puvis de Chavannes, por
exemplo. No entanto, Oréades, Gioventù, Sonho Místico, A Providência Guiando Cabral,
Morte de Cleópatra ou São Sebastião são obras simbolistas; não são, como sustentam
alguns críticos e historiadores, de atmosfera pré-rafaelista. Nelas perpassa a marca do
autor do Pauvre Pecheur.
O bom filho, à
casa torna
Tendo
exposto anos consecutivos no Salon, e após receber medalha de prata na Exposição de
1900, justamente com Oréades e Gioventu, Visconti regressou ao Brasil.
Com
exceção de breves visitas a outros países, como a que fez em 1897 a Espanha,
permanecera quase o tempo todo em Paris, ou em suas cercanias.
Ao
desembarcar no Rio, já casado com Louise Palombe, era artista maduro, possuidor de um
estilo e de todos os seus recursos expressivos.
Ninguém é profeta
em sua terra
Em 1901
realiza sua primeira individual: 38 obras, das quais 28 de arte decorativa: desenhos para
capas de livros, estudos de vitrais, marchetaria, esmalte cloisonné, panos recortados,
papéis pintados, estofos em seda, cerâmica e ferroneria.
Em artigo
publicado a 2 de julho Gonzaga Duque refere-se ao «quase silêncio que cercou a
exposição, das mais completas, das mais importantes exposições de arte aqui
franqueadas ao público», atribuindo-o à incompreensão, mas principalmente à
inoportunidade do momento, «porque a hora é das piores, o dinheiro escasseia às bolsas
mais volumosas, a existência tornou-se penosa aos melhores aquinhoados da sorte».
Um apoio
«chapa-branca»
Visconti, duas décadas depois, queixou-se:
«Quando
regressei da Europa, como pensionista dos cofres públicos, fiz uma exposição de arte
aplicada, na certeza de que a arte decorativa era o melhor elemento para caracterizar a
indústria artística do país. Olharam-na como novidade, e nada mais. Cheguei a fazer
cerâmica à mão para ver se atraía a atenção das escolas, das oficinas, do governo.
Tudo perdido. Ninguém notou o esforço. Em nossa terra não existe ainda preocupação
pela arte...»
Desabafo
decerto injusto, pois não só Gonzaga Duque e outros críticos noticiaram a mostra, como
Visconti recebeu um convite, que recusou, para associar-se à firma Ludolf & Ludolf,
em cujos fornos executara as cerâmicas.
O Governo, por outro lado, encomendou-lhe em 1903 o ex-libris para a Biblioteca Nacional e
no mesmo ano patrocinou concurso para selos postais e
cartas-bilhetes, ambos vencidos pelo artista. Assim, a mostra de 1901 não foi de todo um
esforço vão.
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Ah,
o amor !
O
casamento de Visconti com Louise, na França, abre um capitulo novo em sua carreira. No
dizer de Frederico Barata, "a vida artística de Eliseu Visconti, a rigor, só
compreende duas grandes fases: a anterior e a posterior ao casamento; Em outras palavras:
a de antes de conhecer D. Louise e a de após, tendo-a insensivelmente como principal
inspiradora.
Na
primeira fase, realiza uma obra de imaginação, simbolista, já poderosa mas ainda sem
uma personalidade definitivamente estabelecida, que vemos refletida nas Oréades,
no São Sebastião, na Gioventù.
Na
segunda, que tem a família como centro, utilizando a esposa e os filhos como modelos e
pintando-os e repintando-os a todos os momentos e em todas as idades, liberta-se das
numerosas influências imitativas, e torna-se mais senhor da própria técnica até
atingir a plena maturidade".
Dos três
filhos de Visconti, Ivone, que se casaria com o grande pintor Henrique Cavalleiro, seria
também pintora, praticando igualmente a gravura e as artes decorativas.
A cortina do Teatro
Em 1902
Visconti seguiu de novo para Paris, onde ainda se achava ao receber carta do Prefeito
Pereira Passos convidando-o a pintar o pano de boca do Teatro Municipal do Rio de Janeiro,
que então se construía.
Aceito o
convite, submetida a esquisse ao prefeito e ao engenheiro incumbido da
construção, Oliveira Passos, Visconti recolheu-se ao antigo ateliê de Puvis de
Chavannes em Neuilly e nos próximos três anos entregou-se ao trabalho.
Em 1908 o
pano-de-boca achava-se concluído: representava A Influência das Artes na
Civilização, e compreendia mais de 200 figuras. Exposta no ateliê do pintor
para o Presidente Rodrigues Alves, a obra mereceu grandes elogios.
Pano para manga
O mesmo
não aconteceria logo depois, ao ser exibida no Rio de Janeiro, tendo Aluizio de Azevedo
observado numa crônica:
«Releva
dizer que o assunto do pano-de-boca lhe foi imposto, assunto velho, exploradíssimo,
cruel, que o obrigou a pintar extravagâncias à força de procurar uma nota original,
inédita, em que transparecesse a sua própria individualidade.
«Ele fez
o seu trabalho no ateliê outrora ocupado por Puvis de Chavannes, e nesse ambiente sagrado
poderia inspirá-lo, talvez, a majestosa sobriedade do grande mestre; mas lá estava o
maldito assunto para desviá-lo do bom caminho e atirá-lo às dançarinas e às
bananas.»
Discípulos
poucos...
mas que discípulos !
Estava
ainda o artista em Paris, entregue à execução do telão do Municipal, quando em 1907
foi nomeado professor da Escola Nacional de Belas- Artes, cargo que exerceria até 1914
com longos intervalos de licença.
Não
formou, assim muitos alunos, mas dois deles - Marques Júnior e seu futuro genro, Henrique
Cavalleiro - tornaram-se pintores de méritos.
Manoel
Santiago viria a ser seu terceiro destaque, só que estudou não na Escola, mas no ateliê
mantido por Visconti particularmente, de 1920 a 1923.
Em 1934
tornaria a lecionar no curso de arte decorativa anexo à Escola Politécnica do Rio de
Janeiro.
O cavalete
Apesar do
trabalho com o pano-de-boca, Visconti continuou pintando quadros de cavalete, que expôs
no Salão.
Na
exposição de 1905, expôs dois retratos, entre os quais o da escultora Nicolina de
Assis, obra-prima do gênero entre nós.
Em 1908
exibe Maternidade, que já fora mostrada dois anos antes no Salon de Paris
e é sem dúvida das obras mais delicadas e belas do artista.
Entre telas e
tiros, a
última visita à mãe
Em 1913
nova encomenda oficial, agora para executar as pinturas do foyer do Municipal,
levá-lo-á de novo a Paris. Na capital francesa, aluga na Rue Didot um grande barracão e
dá começo ao trabalho.
Lá em
Paris é colhido pela deflagração da Primeira Guerra Mundial, com o bombardeamento da
cidade pelos alemães. Visconti é forçado a mudar duas vezes de ateliê,
transportando-se sucessivamente a Saint-Hubert e Du Main.
Termina
as decorações em plena conflagração, para retornar ao Brasil no auge da campanha
submarina de Guilherme 2º, não sem antes realizar curta viagem à Itália, onde vivia
ainda sua mãe
O
período de 1913 a 1916, que vê surgir as pinturas do foyer, é também o momento
das paisagens impressionistas de Saint-Hubert, por muitos consideradas o ponto alto de
toda a produção viscontiana no gênero.
O foyer do
Municipal
A
decoração do foyer é sem dúvida uma obra-prima; consta de uma parte
central, A Música, medindo 16x7 metros, e de duas laterais, A Arte Lírica e
O Drama, menores e de forma irregular. Vazada em técnica pontilhista, de
extrema leveza e claro colorido, bem merece os elogios que lhe endereçou o biógrafo do
artista, Frederico Barata:
«Verdadeira música de cores, de tons harmoniosos, impecável desenho e agradável e
elegante linha de composição, revela tal segurança e maestria na fatura, sem uma
hesitação, com uma sensibilidade tão inspirada e comunicativa, que pode, sem exagero,
ser comparada ao que de melhor no gênero tenha sido produzido no mundo contemporâneo.»
Um Visconti
dividido
em si mesmo
Após
1918 Visconti não mais saiu do Brasil, alternando sua produção entre a pintura
decorativa (1923, Conselho Municipal; 1926, A Assinatura da Constituição de
1891, para o Palácio Tiradentes; etc.), e a de cavalete, sem falar nos
trabalhos de arte aplicada.
Mas a que
distância já nos encontramos, então, dos tempos parisienses! O fato serve para colocar
em pauta o problema da dicotomia da personalidade do artista, que difere enormemente
conforme ele se encontre em Paris ou no Rio de Janeiro.
Como
observou Mário Pedrosa, «enquanto adquire lá as novas técnicas neo-impressionistas e
assimila, através de Pissarro e Renoir, as lições do impressionismo, aqui, em diversas
ocasiões, de retorno, sua palheta escurece, quando, ao contrário, na presença da luz
tropical devia altear-se mais».
Um aluno, crítico
mordaz
Em 1926
Visconti efetua na Galeria Jorge uma nova exibição de arte decorativa. Comentando-a,
Auguste Herborth, antigo aluno da Escola de Belas- Artes de Strasbourg de passagem pelo
Rio de Janeiro, repara que «os trabalhos expostos pertencem à escola parisiense,
conforme o estilo e o colorido preconizados em 1900, embora a arte francesa hodierna tenha
tomado outra feição, graças à influência da Escola de Nancy, se bem que, nos dias que
correm, o curso para a arte aplicada, na França, não tenha o mesmo lisonjeiro surto que
na Alemanha, por exemplo».
Era essa
uma maneira delicada de dizer que em 1926 Visconti se desatualizara, praticando então um Art
Nouveau anacrônico, alheio às renovações que se vinham processando na França
(onde apenas um ano antes ocorrera a grande exposição das artes decorativas), e
sobretudo na Alemanha, onde Gropius fundara já em 1919 o Bauhaus.
Um trabalho de
equipe
Em
começos de 1930 Visconti foi novamente chamado a realizar trabalhos no Municipal do Rio,
que passava por uma reforma.
Entre
1934 e 1936 executou a pintura de um friso sobre o proscênio, auxiliado pela filha Ivone,
o genro Henrique Cavalleiro e, ainda, Martinho de Haro e Angenor de Barros. Seria, esse,
seu último trabalho de vulto, se bem que continuasse trabalhando até o fim da
existência, tendo exposto, ainda no Salão de 1944, uma obra recém-concluída - Três
Marias.
Artista de todos
os gêneros
Pintor de
figuras, paisagista, decorador, autor de cenas de gênero e pioneiro, no Brasil, das artes
industriais, Visconti foi em vida considerado acima de tudo como figurista, autor de nus,
retratos, alegorias e grupos.
A
contemporaneidade, no entanto, parece hoje nele ver também o paisagista. Em suas melhores
obras o desenho de Visconti é diáfano, sem contornos, enquanto o colorido impregna-se de
modulações à maneira impressionista e neo-impressionista, utilizando-se o artista de
rica palheta de nada menos de 17 cores, com predominância de amarelos e vermelhos (Carlos
del Negro).
Estilisticamente foi um eclético; e, tolerante embora para com a arte moderna, nunca a
compreendeu de todo - apesar de visitar com interesse as exposições de Portinari e
Segall realizadas em 1943, como informou Barata.
Dizia-se um presentista, afirmando que a arte não pode parar, e que
"futuristas, cubistas, são todas expressões respeitáveis, artistas que tateiam,
procurando alguma coisa que ainda não alcançaram".
Acidente ou
atentado ?
Em meados
de 1944, Visconti, então com 77 anos, sofreu uma queda em seu ateliê da Avenida Mem de
Sá, no Rio. As circunstâncias em que tal acidente ocorreu são misteriosas, chegando
Frederico Barata a falar vagamente em "acidente ou crime de que foi vítima no
ateliê".
A agonia
durou dois meses; reanimou-se, pouco depois, por mais duas ou três semanas, durante as
quais com descomunal força de vontade retomou os pincéis, dizendo repetidas vezes a seus
familiares:
«Nasci de
novo! E agora é que vou começar a pintar, vocês vão ver!»
A euforia
pouco durou: a 15 de outubro de 1944 faleceu, não sem antes ter dito ao amigo fiel essas
sábias palavras, que lembram tão de perto as conhecidas frases de Hokusai:
«O que
falta às gerações de hoje é angústia da humildade, da impotência diante dos
problemas da pintura, que parecem simples e são incrivelmente grandes e complexos.
Satisfazem-se rapidamente com o que fazem e julgam-se mestres, na juventude, quando deviam
convencer-se de que até à velhice, até à morte, serão humildes aprendizes...»
Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura no
Brasil»
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