Um artífice
chega ao Brasil
Joaquim Tenreiro nasceu no ano de 1906 em Melo (Portugal) e
faleceu em Itapira (SP) em 1992.
Filho de um marceneiro, aos nove anos começou a mexer com
ferramentas na oficina do pai, ajudando-o em pequenos trabalhos e adquirindo assim, desde
pequeno, a habilidade artesanal e a familiaridade com a madeira que caracterizariam seu
fazer adulto.
Tenreiro já conhecia o Brasil. Trazido pelos pais, viveu aqui em
dois períodos, dos 3 aos 7 anos e, depois, dos 19 aos 20 anos.
Mais tarde, já casado, decidiu emigrar de vez para o Rio de
Janeiro, onde a princípio ganhou a vida como carpinteiro.
Iniciando-se
na pintura
Em 1929 matriculou-se num curso de desenho mantido pelo Liceu
Literário Português e, dois anos mais tarde, seria dos membros mais ativos do recém
fundado Núcleo Bernardelli.
Todos seus estudos, nessa fase, estavam ligados ao desenho. Só
começou a pintar em 1935 ou 1936, até porque - como diria anos mais tarde a Frederico
Morais -, "telas e tintas custavam dinheiro e este era curto".
Ganhando
a vida como decorador
Enquanto aprimorava suas aptidões artísticas, Tenreiro ia
adquirindo boa reputação como designer, trabalhando de 1933 a 1943 em firmas como
a Laubisch & Hirth, a Leandro Martins ou a Francisco Gomes, especializadas em fornecer
móveis imitativos dos velhos estilos franceses, italianos, portugueses e de outras
origens.
Era a coqueluche da época, ter um móvel estilizado.
"Luizes de todos os números e renascimentos tardos de 400 anos", como
diria numa entrevista em 1975.
Desde 1934 desenhava, a título experimental, bufês e outros
móveis de linhas já não tradicionais, que por isso mesmo não achavam comprador.
Móveis
em estilo tupiniquim
Em 1941, veio a grande mudança, ainda quando ainda trabalhava na
Laubisch & Hirth. Atendendo uma encomenda, projetou para a casa do médico e
colecionador Francisco Inácio Peixoto, em Cataguases, os primeiros autênticos tenreiros.
Surgiram, então, os móveis inteiramente concebidos, projetados
e executados por ele, e admiráveis pela sobriedade e beleza da forma e pela sábia
utilização das preciosas madeiras brasileiras, combinadas entre si, ou a têxteis
especialmente criados por artistas plásticos de renome.
Para realizar tais móveis, Tenreiro debruçou-se atavicamente
sobre a sua ancestralidade lusitana, responsável em séculos idos pelo surgimento de
tantas obras-primas de singeleza e funcionalidade, e não em jornais e livros estrangeiros
de Design, que sequer os havia no Brasil quando começou.
Da
ideia nasceu uma empresa
Já em 1943 Tenreiro montara no velho Centro do Rio sua primeira
loja-oficina - a Langebach e Tenreiro Ltda. Em 1947 abriu loja na então elegante Rua
Barata Ribeiro, em Copacabana, transferindo-a em 1962 para a Praça General Osório em
Ipanema.
Por volta de 1953, os negócios iam tão bem que foi necessário
abrir filial em São Paulo.
No ano seguinte a primitiva oficina da Rua da Conceição ficara
pequena e tinha de ser trocada pela espaçosa fábrica em Bonsucesso, na qual, num dado
momento, chegaram a trabalhar 100 artesãos.
O
alto preço do sucesso
A despeito porém do reconhecimento profissional e da
conseqüente retribuição material, ou por causa dela, Tenreiro se sentia infeliz.
Não lhe davam trégua. Eram traições e disputas internas,
ódios e mesquinharias que tornavam-lhe a vida quase insuportável.
Assim foi que em 1967, após entregar sua última encomenda - a
decoração do salão de banquetes do Palácio Itamaraty em Brasília -, Tenreiro
reavaliou se valia pagar tanto pelo sucesso obtido.
Numa opção
consciente, resolveu, de uma vez por todas, fechar oficina e lojas para, de então por
diante, dedicar-se exclusivamente às artes plásticas, retomando assim um caminho havia
muito interrompido.
De
volta às artes plásticas
Liberado de seu compromisso com o Desenho Industrial, a partir de
1967, e por mais de 20 anos, Tenreiro retoma a pintura e, principalmente, faz relevos e
objetos em madeira.
Desse momento final, surgiu uma longa série de individuais,
retrospectivas, premiações e homenagens especiais.
Segue-se a execução de grandes obras, como, em 1969, o painel
para a Sinagoga Templo Sidon na Tijuca, a portada da Capela Ecumênica da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de 1974, ou os dois painéis em fibra de vidro,
cada um medindo oito por seis metros, realizados em 1975 para o novo auditório do SENAI
na Tijuca.
Como se percebe, nessa fase final não seria com pinturas, mas
como escultor, que o artista mais se destacou, produzindo relevos, treliças e colunas em
madeira policromada que constituem algo de novo na arte brasileira de então.
Lembrando
Guignard
Como pintor - atividade que desenvolveu principalmente na década
de 1940 - sua contribuição não deve ser de modo algum subestimada. Praticava então a
paisagem, o retrato, o autorretrato e a natureza-morta.
Seu desenho era particularmente sensível, chegando a evocar de
perto o de Guignard e de um colorido expressivo.
Nas paisagens, principalmente, revela-se mais pessoal, sobretudo
quando utilizava, em poéticas evocações, do casario e da vegetação de Santa Teresa e
de outros bairros pitorescos do Rio de Janeiro, ou das cidades históricas de Minas, um
esquema peculiar de composição, consistindo em observar a cena desde o alto e à
distância, enfocando-a, como no visor de uma câmera fotográfica, em cortes inusuais e
audaciosas sucessões de planos.
A cor, nessas paisagens, é a tonal, atmosférica, e a impressão
transmitida é de serenidade e equilíbrio.
Já nos retratos e figuras predomina a marca de Guignard,
inclusive nos cortes composicionais, o mesmo podendo ser dito das naturezas-mortas,
algumas, exemplo de despojamento formal.
A
inconstância prejudica a avaliação de sua obra
Prejudicada pelo sucesso obtido com seu mobiliário, até
praticamente cessar na segunda metade dos anos 40, a atividade de Tenreiro, enquanto
artista plástico, reaparecerá a intervalos, de então até os anos 60.
Assim, em 1946 e 1949 realizou individuais no Rio de Janeiro e em
São Paulo, em 1960 recebeu menção honrosa em Desenho no Salão Nacional de Arte
Moderna, e em 1965 participou da VIII Bienal de São Paulo com relevos taxeados e óleos
sobre neoplan da série Ciclistas, tema recorrente em sua produção.
Postumamente a contribuição, tanto do designer quanto do
artista, tem sido exaltada, aquela com ênfase compreensivelmente maior, em retrospectivas
como a de 1998 no Museu de Arte Contemporânea de Niterói.
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