Fúlvio
Pennacchi nasceu em 1905 em Villa Collemandina, cidade italiana na região de Garfagnana,
um dos sítios ocupados pelos pracinhas brasileiros durante a 2ª Guerra Mundial. Faleceu
em São Paulo, no ano de 1992.
Na Itália, estudou na
Academia de Lucca, com o grande pintor Pio Serneghini, formando-se em 1927. Dois anos
depois, chegava ao Brasil, fixando-se na cidade de São Paulo, onde desenvolveu toda sua
carreira artística.
Céu estranho de
maus presságios
É ele quem fala se sua
segunda pátria:
«No dia da minha chegada
ao Brasil, 5 de julho de 1929, descendo em Santos, ao nascer do dia, o céu tinha uma cor
tão estranha e exagerada que bem podia ser o fundo de um dos meus quadros - O Fim do
Mundo - e eu fiquei chocado com o vermelho fogo e o amarelo berrante. Nunca
mais voltei a ver, em 44 anos de vida brasileira, outro céu tão agressivo e espantoso.
Tal cenário parecia
preludiar dias difíceis para o jovem italiano - e foi o que de fato ocorreu. É ainda o
artista quem diz:
«Os primeiros anos de vida
paulista foram em verdade um tanto semelhantes ao céu do dia de minha chegada. Não tinha
possibilidade de sobreviver através da arte, somente podia levar uma vida miserável,
adaptando-me aos mais humildes trabalhos que por piedade ia pedindo às pessoas que
conhecia ou com quem simpatizava.
De dia, açougueiro,
de noite, pintor
«São Paulo estava em uma crise
espantosa, eu considerado como um futurista, as mil tentativas com a pintura e o desenho
resultaram quase que somente em fracassos - só mais tarde quando fatalmente me tornei
açougueiro, pude então pintar durante a noite meus primeiros quadros representando as
várias fases da vida de Jesus e cenas da vida de São Francisco.»
Foi efetivamente num
açougue, desenhando em ásperos papéis de embrulho, que o encontrou em 1932 o escultor
Emendabili, o qual, impressionado com a qualidade dos desenhos, convidou-o a compartilhar
o seu ateliê, do que nasceu uma cooperação que durou alguns anos.
A partir de então,
Pennacchi, levando embora uma vida modesta, dispôs de mais tranqüilidade para a
criação de sua obra pictórica, travando paralelamente conhecimento com pessoas
influentes, que iriam tornar-se seus primeiros clientes.
O encontro com Rebolo
Em 1935, expondo no Salão
Paulista de Belas Artes, Pennacchi foi apresentado a Rebolo Gonsales, que assim evocaria o
encontro, anos depois:
«Penacchi falou sobre meu
quadro com tanta poesia e conhecimento sobre pintura que eu pensei: "estou diante de
um mestre". E não me enganei.
«Ficamos amigos
inseparáveis e convidei-o a associar-se comigo, para trabalharmos juntos no ateliê que
eu tinha alugado no Santa Helena.
«No final de 35,
participamos de uma exposição de miniquadros no Palácio das Arcadas e tivemos trabalhos
nossos comprados pelo Professor Piccolo.
«Foi uma festa. Fazia
apenas um ano que eu tinha abandonado o futebol e evidentemente desconhecia muita coisa
sobre pintura. Pennacchi ensinou-me então, até sobre arquitetura, pois ele tinha um
aprendizado muito bom, feito na Itália, e pintava há muitos anos, desde antes de 1930.»
Tais frases de Rebolo
colocam em pauta um problema importante, e bem pouco enfocado: o papel destacado que
Penacchi desempenhou entre os componentes do Grupo do Santa Helena, no que
respeita à técnica, à cozinha pictórica, em que era mestre.
Uma fase de sucessos
O ano de 1936 seria de
muitos sucessos: o pintor não apenas conquista medalhas de prata, no Salão Nacional e no
Salão Paulista de Belas Artes, como inicia uma série de murais decorativos em
residências paulistas.
Paralelamente, ilustra um
livro de poemas de Jorge de Lima - O anjo - e passa a lecionar Desenho no
prestigioso Colégio Dante Alighieri, onde viria a ser, anos mais tarde, professor de uma
jovem com a qual se casaria, Philomena Matarazzo, filha do riquíssimo Conde Attilio
Matarazzo.
Outros murais surgiriam em
1937 e 1938, respectivamente na capela da fazenda de Agostinho Prado (aliás totalmente
idealizada e projetada por Penacchi, que também executou para a mesma uma Via Sacra em
terracota, mais os altares e os vitrais), e no salão de entrada de A Gazeta -
uma síntese visual da evolução da Imprensa.
Todos os murais realizados
até 1939 eram feitos a óleo; a partir de então foi empregada exclusivamente a velha
técnica do afresco, tendo servido de marco inicial da série uma Última Ceia
pintada, naquele ano, na residência do Dr. Carlos Bott.
Entre muitas outras igrejas
e locais públicos que receberam decorações murais em afrescos de autoria de Pennacchi,
citem-se a Igreja e o Convento de Nossa Senhora da Paz (1942), o Hotel Toriba, de Campos
do Jordão (1943), a Catedral de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul (1945), a Capela do
Hospital das Clínicas (1947), a Capela da Vila São Francisco, em Osasco (1948), o Banco
Auxiliar de São Paulo e o Hotel Príncipe (1954), a Igreja do Orfanato Cristóvão
Colombo (1955), a Liga das Senhoras Católicas (1957) e a Igreja de Nossa Senhora
Auxiliadora (1959).
Com referência aliás ao
afresco do Hotel Toriba, de 1943, cumpre destacar que foi em tais decorações que
apareceu pela primeira vez a temática folclórica na pintura de Pennacchi.
Climatizando a
pintura
No ano seguinte, ao
realizar sua primeira individual, na Galeria Ita, ao lado das já conhecidas cenas
religiosas de sabor tão peninsular, surgem algumas telas de ambientação brasileira e
interiorana, na forma de vistas urbanas com personagens, e de paisagens rurais.
Tais paisagens ressurgem
quando da individual do artista em Buenos Aires, em 1945, e são já uma espécie de marca
registrada quando da realização da última exposição da Família Artística Paulista -
no Rio de Janeiro, em 1949 -, delas dizendo, no prefácio do catálogo, o crítico Ciro
Mendes:
«Com Fulvio Pennacchi
encontramos de novo essa fome de Brasil que periodicamente empolga alguns dos nossos
artistas. Cenas folclóricas do interior, a que não faltam o pitoresco e o humano,
gradualmente dominados pela sensibilidade fortemente meridional do pintor italiano.
Novamente, a solidão
Mais ou menos a partir de
1945, sentindo-se marginalizado e esquecido, Pennacchi isola-se em seu ateliê, ao mesmo
tempo em que, em total desacordo com os rumos tomados pela arte moderna e com a
organização das exposições de arte, decide não mais enviar obras para esses certames.
Ele mesmo diria:
«No período de 1945 a
1962 fiquei completamente isolado e nunca fui convidado a tomar parte em qualquer mostra
de arte. Participei somente da I Bienal - dos meus três trabalhos, somente um foi aceito
- e depois não tentei mais participar.
«Depois de vários anos,
em 1969 mandei trabalhos para o I Salão de Arte Contemporânea, mas o ilustre júri
«Flexor - Flávio - Nicolas» os cortaram, ficando eu assim definitivamente fora de
qualquer movimento artístico.
«Na minha solidão,
continuei a ser eu - continuei a pintar - e com exceção de murais, pássaros e cinzeiros
nada mais me era possível vender. Quadros somente ao dono da antiga Galeria Ita -
Beneteau que comprava meus quadros a preço de artesão e os vendia a estrangeiros,
considerando-me sempre o pintor que melhor retratava o Brasil.»
Realizando-se na
cerâmica
De 1950 em diante,
certamente para tentar romper tal isolamento, Pennacchi passou a se dedicar com crescente
interesse à cerâmica, executando numerosas Vias Crucis, presépios, imagens,
figuras, pássaros, galos e mesmo objetos utilitários, assim explicando a gênese desse
novo meio expressivo:
«A cerâmica nasceu de
algumas experiências feitas por iniciativa de Paulo Rossi Osir e, apoiado pela
inteligente amabilidade do industrial Cândido Cerqueira Leite, pude utilizar os fornos de
sua fábrica e, nesses fornos de 1.300°, milagrosamente realizei obras muito
interessantes.
«Como agradecimento pelo
seu incansável apoio, executei em 1951 um grande mural afresco na sua residência em
Mauá, tendo como base a Festa de São João, com alguma ajuda de Mário Zanini e do
Rossi. Este mural é, sem dúvida, a minha maior e mais espontânea realização referente
ao folclore brasileiro.»
Miniaturizando a
pintura
Depois de 1960, quando,
atendendo a um convite da Galeria Atrium, realizou uma série de cartões de Natal,
Pennacchi começou a fazer, com facilidade assustadoramente crescente, miniaturas de
quadros, que serviram para recolocar seu nome no circuito das artes.
Mas essa atividade
trouxe-lhe um efeito colaterial, pois os colecionadores lhe minimizaram o estilo,
considerando-o simples exercícios destituídos de maior interesse artístico, fruto da
habilidade e não mais da emoção.
Certamente não há de ser
por esses poucos centímetros quadrados de tela colorida que Pennacchi interessa à nossa
História da Arte, mas sim pelos grandes afrescos de tema sacro, que se estribam num
sentimento religioso autêntico, e por certas pinturas de cavalete marcadas pela
originalidade.
O primitivo que há
dentro
de cada um
Foi na retrospectiva que o
MASP lhe consagrou em 1973, que Pennacchi ressurgiu como um dos valores da arte paulista e
brasileira modernas.
Ali patenteou-se sua nota
pessoal, quase monótona de tão típica, e sobretudo foi possível ver o lento e
gradativo abrasileiramento de sua pintura, desde as primeiras obras produzidas no Brasil -
ainda tão fundamente marcadas pelo Renascimento Italiano -, às suas inconfundíveis
cidadezinhas interioranas.
Em cenas simples e
triviais, se encontram moleques e comadres nas praças, os retirantes, os festejos
populares, os plantadores e os colhedores, operários e camponeses - tudo isso pintado de
modo despretensioso, simplório quase, figurinhas ingênuas que povoam seus quadros.
Pois afinal, é Pennacchi
ele próprio quem nos esclarece:
«Eu adoro figuras,
principalmente se retratam homens do campo, nossos caboclos, essa gente simples e
ingênua, eles movimentam cada tela, acho mesmo que o lado humano é básico na arte.
«Eu me
considero um pintor que atinge a vida humilde que vejo lá fora e rodeia as cidades.
Detesto os granfinos; quando os retrato, é humoristicamente. Nesse ponto me aproximo dos
primitivos - tudo que é humano e pitoresco me interessa...
Fonte: CD Rom 500 Anos da Pintura Brasileira
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