.
foto.jpg (8569 bytes)
.
José Antônio da Silva
(1909-1996)


O carro-de-bois

     José Antônio da Silva nasceu em Armando Sales de Oliveira (SP), em 1909 e faleceu em São Paulo (Capital), em 1996.

     Numa autobiografia publicada em 1949, História de minha vida, Silva revela ser filho de um casal "muito pobrezinho e muito humilde e trabalhador nos serviços mais pesados da vida e mais perigosos.

     Tal serviço consistia em carrear, com 12 bois, num carro ou numa carreta, ou num carroção de quatro rodas, ou de duas rodas".

     Diz mais ter ajudado o pai desde os 12 anos, trabalhando na lavoura de café em quase todas as fazendas de sua região.

Pobreza e esperança

     Mais tarde, exerceu vários outros ofícios, como colocador de dormente em estrada-de-ferro, cortador de cana, porteiro de hotel e até angariador de donativos para centro espírita.

     Por fim, mudou-se para um ranchinho com a mulher e os filhos, numa propriedade de um certo Sr. Antônio Pinto, em São José do Rio Preto. É ele que rememora essa época:

     «E a Rosa ia lavar roupa para a Dona Maria, que era a mulher do Antônio Pinto, e eu ia cortar de machado a 4 mil réis por dia. E nas horas vagas eu ia desenhar a lápis.

     «E forrei toda a parede do rancho de papel de desenho, e o povo daquele lugar estava me chamando de louco. E a minha mulher muito desanimada da vida. Isto lá em 1945, mais ou menos.»

     E eu dizia para o povo e a Rosa: «Deixe eu quieto, não me contrarie, que algum dia eu quero ter o meu nome no O Estado de São Paulo...»

Terra à vista

     A sorte começou a mudar para o Silva já no ano seguinte, por ocasião de uma exposição regional realizada na Casa de Cultura de São José do Rio Preto, na qual expunha seus primeiros quadros.

     O júri, do qual faziam parte os críticos de arte Lourival Gomes Machado e Paulo Mendes de Almeida, reconheceu o valor das ingênuas representações pictóricas feitas por Silva, o que muito o incentivou.

     Pouco depois, em 1948, a Galeria Domus, de São Paulo, realizava uma primeira individual do artista, sendo acolhida com aplausos contidos, mas prenunciadores de sucesso não muito longínquo.

O reconhecimento público

    Seguiram-se, a partir de então, diversas outras mostras individuais e participações em certames de importância, como:

  • Bienal de São Paulo (prêmio de aquisição em 1951, isenção de júri em 1961);

  • Bienal de Veneza (1952, 1966);

  • Bienal Hispano-Americana de Havana (1954);

  • do Salão Paulista de Arte Moderna (pequena medalha de prata em 1955, grande medalha de prata em 1956, prêmios de aquisição em 1957 e 1959);

  • Exposição Internacional de Pittsburgh (Estados Unidos da América, 1955);

  • 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas (Salvador, 1966).

     Participou, ainda, de várias mostras panorâmicas de arte brasileira, realizadas no exterior a partir de 1952.

Um porto seguro

     Desde sua primeira exposição em São Paulo, efetuada, como ficou dito, em 1948, e na qual vendeu todos os quadros, ganhando a soma para ele fantástica de 20 contos, Silva viveu exclusivamente de pintura.

     Contudo, resistiu o mais possível à idéia de se mudar para São Paulo, preferindo morar em São José do Rio Preto, apesar de incompreendido e vítima da inveja, pelo sucesso e fama conquistados.

Só os humildes entendem
sua arte

     É o próprio pintor que desabafa:

     «São José do Rio Preto, eles não gostam, não entendem. São José do Rio Preto é uma das cidades mais ricas do Brasil, eles têm dinheiro, mas não entendem de pintura.

     «Prova é que eu criei um museu com as minhas telas, com as telas dos grandes artistas, em 1967. O museu é muito freqüentado por crianças, as autoridades não.»

     O museu a que Silva se refere é o seu Museu de Arte Contemporânea de São José do Rio Preto - por ele dirigido e organizado, permutando suas telas as de outros artistas.

     «Tem peças magníficas no museu. Eu queria formar um museu, é o seguinte, um museu de arte mas ao mesmo tempo histórico, então eu botei um nome assim, pensando bem naquilo, um museu nato.»

E gravou até um disco

     Silva, que além de pintor é escritor – publicou, afora a já mencionada autobiografia, outros livros, como: Maria Clara (1970), Alice (1972) e Sou pintor, sou poeta (1982).

     Não estranhava a mídia: em 1966, gravou um disco no qual, ao lado de dois curiosos depoimentos (Descoberta e Sofrimento do Artista e Como me Tornei Artista), incluiu diversas composições musicais de sua autoria, de títulos tão significativos como Encontro com a Cascavel, Encontro com o Lubisomem (sic) ou Dança de São Gonçalo, que bem explicam o seu mundo de idéias.

     Considerado por muitos críticos de arte como um dos mais importantes pintores brasileiros, Silva destaca-se como colorista espontâneo e sensível, e seus quadros, vazados num desenho ingênuo,  obedecendo a uma ciência intuitiva da composição, recriam o meio rural paulistano dentro de uma ótica autenticamente caipira.

Um caipira na galeria
da fama

      A respeito do seu capirismo, aliás, o artista possui opiniões bem estruturadas:

     «Sou caipira, mas não sou tonto. Poderia sair do Brasil e fazer sucesso lá fora. O crítico francês Leon Dégand e vários críticos italianos elogiaram minha arte. Nem sei em quantos museus do mundo há quadros meus, até em Nova Iorque.

     Já pintei umas 2. 500 telas - uma beleza! Mas não saio não. Tenho de lutar contra os que não me compreendem em Rio Preto, tenho de sustentar os filhos solteirões... Já nasci pintor, se não pinto, fico doente.

     Em 1998 a Pinacoteca de São Paulo dedicou-lhe importante retrospectiva.

Fonte: CD-Rom 500 Anos da Pintura Brasileira.

     

Informações