A
terrível decisão
A jovem artista chegou, de volta à sua casa, cansada e arrasada.
Já havia algum tempo que vinha procurando galeristas que se dispusesse a expor seus
quadros, certa de que, com uma boa divulgação, eles encontrassem compradores. Nenhum
marchand se interessou pela tarefa.
Manteve, então, contatos com museus, buscando espaço para
realizar uma individual e, igualmente, o atendimento foi delicado, mas evasivo, trazendo
um desalento ainda maior, acompanhado de frustração e revolta interior, uma justa
indignação contra tratamento ignóbil que vinha recebendo.
E, de repente, tomou uma decisão, a mais grave decisão de sua
vida, daquelas que envolvem um sacrifício pessoal imenso, quase que uma imolação. Era
uma resposta que devia dar, não ao mercado, mas a si própria, recuperando a
individualidade e fazendo renascer o amor próprio.
Resoluta e solitária, sem ninguém para testemunhar seu gesto,
levou para o quintal de sua casa dezenas e dezenas de quadros que faziam parte de seu
acervo, empilhando-os no chão. Depois, embebeu todos eles em combustível e ateou fogo.
Pelo menos as chamas apreciaram, e bastante, seus quadros,
devorando-os com avidez e formando altas labaredas. Não precisou muito tempo e tudo
estava destruído. No local, restaram apenas cinzas, o resultado final de um longo e bem
elaborado trabalho, no qual a artista colocara tanto esforço e tantas esperanças.
Foi um protesto solitário. A imprensa não foi chamada para
fazer o registro, e bem que gostaria de fazê-lo, já que os jornais se alimentam de fatos
inusitados. Os amigos também não foram comunicados da decisão, senão, por certo,
tentariam impedi-la de concretizar o ato insano.
A pintora acabara de cometer um suicídio virtual, no qual, se
não consumia o corpo, entregava a própria alma ao sacrifício, uma alma que trasladara
para cada um daqueles quadros, agora perdidos para sempre.
Não havia arrependimento. Com a alma lavada e uma sensação de
alívio, a pintora voltou para dentro da casa.
Estamos no ano de 1949 e a artista decidida é Ione Saldanha, uma
gaúcha de 30 anos, tentando a sorte na cidade do Rio de Janeiro.
Tanto
trabalho por nada
Ione Saldanha nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 5 de
julho de 1921, destinada a ser uma bem comportada guria provinciana, repetindo a sina de
outras tantas mulheres do interior, que atravessam a vida cuidando de filhos e dos
afazeres domésticos.
Deveria ser, mas não foi. Um dia, folheando uma revista
européia de impressão vulgar, que lhe chegou às mãos não se sabe como, viu uma
pintura de Matisse. Era uma reprodução ordinária, em branco e preto, mas a adolescente
viu naquelas formas toda a beleza registrada pelo grande mestre francês.
Naquele instante, Ione tomou duas decisões que mudariam sua
vida: a primeira, imediata: seria uma pintora; a segunda, que levou mais tempo a
concretizar: iria mudar-se para o Rio de Janeiro, a capital das artes no Brasil.
Concretizado o sonho de instalar-se no Rio, procurou,
inutilmente, nos museus, as cores que sonhara ver na reprodução branco e preto de
Matisse. Os quadros expostos nos museus eram sóbrios, contidos, de tonalidades escuras e
nada tinham a ver com o colorido agressivo da pintura moderna.
Em 1940, finalmente, começou a ter aulas com Pedro Correia de
Araújo, buscando aprender os segredos da pintura tradicional, para, mais tarde, fixar
seus próprios rumos, que não era possível ainda divisar.
Depois, partiu para a Europa, onde ficou por cinco longos anos.
Em Paris, tomou contato com o que se fazia de melhor em arte moderna. Já Florença foi
para ela o reverso da medalha: lá aprendeu a técnica do afresco, tão utilizado na
Renascença.
Ao voltar ao Brasil, trazia, pois, excelente bagagem cultural e
artística, estando segura de que encontraria pronto reconhecimento ao seu trabalho.
Ledo engano. Se, desde a década de vinte, a arte moderna vinha
se projetando e ganhando espaços, a grande preferência do mercado de arte ainda se
voltava para a pintura acadêmica. O assentamento de novas idéias leva sempre muito tempo
para ocorrer e a mudança de hábitos leva, às vezes, gerações.
Foi então que, depois de ingentes e inúteis esforços para
obter reconhecimento, Ione pôs fim à sua obra, de forma dramática, no incidente a que
nos referimos no início.
Entre
ripas e bambus
O preceito bíblico de que primeiro é preciso morrer para depois
renascer, se cumpriu na jovem pintora.
Livre de qualquer compromisso com a arte convencional, consciente
de que, depois de tudo por que passou, nada na vida poderia ser pior, abandonou por
completo toda a conceituação estabelecida de arte e buscou seu próprio caminho, único,
pessoal e intransferível.
Doravante, nada mais de chassis de madeira e telas de linho. Nada
que a aprisionasse a qualquer padrão vigente. Impressionada com a simplicidade da pintura
de Volpi, começou a desenhar faixas coloridas sobre ripas, numa alegre combinação de
tintas, em que a forma era nada e as cores eram tudo.
Das ripas, passou para o bambu. Eram bambus coloridos, com a
mesma descontração das ripas, uma pintura quase infantil pela sua singeleza, mas que
ganhava grandiosidade na combinação das cores e pela ocupação irregular dos espaços.
Sobre sua arte, escreve Mário Pedrosa (1900-1981), crítico de arte do Diário da
Noite, de São Paulo:
«Essas artes, ela as modula, não através de cores tonalizadas,
mas numa verdadeira escala de cores que se harmonizam pelos contrastes, e estes ressoam de
espaço em espaço, como num ambiente de festa na roça, em que as bandeirinhas de papel
são substituídas por essas ripas e vigas, ora ajustadas às paredes, ora pendentes do
teto.»
Na exposição da Galeria Bonino, em que participou em
1968, colocando sob os olhos críticos do público toda aquela variedade de hastes
verticais coloridas, a recepção ao seu trabalho foi calorosa. Ganhou o prêmio de viagem
concedido pelo Jornal do Brasil, e aproveitou para visitar os Estados Unidos.
Atingira por fim o patamar da fama e o reconhecimento, seguindo
caminho próprio e alheia aos padrões que a colocavam em uma saia justa, dentro de um
figurino que não combinava consigo mesma.
Criatividade
infinita
No início dos anos setenta, Ione deparou-se,
acidentalmente, com uma pilha de bobinas de madeira, que serviram para acondicionar fios
elétricos e que agora, vazias, se destinavam ao lixo.
E o lixo virou arte. Realizando uma individual no Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro, o público foi surpreendido com uma série de bobinas pintadas
por ela. As cores, antes restritas a ripas e bambus, agora ganhavam uma área mais para se
movimentar.
Se as ripas, espalhadas no espaço ou penduradas, lembravam
bandeirinhas de São João, já as bobinas, capazes de se mover de um lado para outro,
passaram a simbolizar, para alguns apreciadores, selvagens numa dança tribal. Era a
modernidade associando-se ao primitivo, traçando uma linha que unia o saudoso passado ao
futuro almejado.
Para ela, já estava distante a fase da pintura em telas. As
telas deram lugar à madeira, o óleo foi substituído pelo acrílico. As paredes deixaram
de ser o receptáculo natural das pinturas. Elas eram colocadas ao chão nu, ou encostadas
às paredes, ou penduradas ao teto.
Agora, todo espaço era válido. Estava quebrada a linha
divisória entre a pintura, que transmite uma idéia, e o apreciador, que recebe a
mensagem transmitida pela arte. Uma e outro se misturam, fundindo-se em um único
elemento, como se ambos fizessem parte da obra de arte.
A
solidão por companhia
O reconhecimento do trabalho de Ione Saldanha se fez presente nas
inúmeras exposições de que participou e nos vários prêmios que recebeu durante sua
trajetória pela carreira artística.
Isolada do convívio social por livre escolha, Ione seguiu pela
vida, solitária e refratária a compromissos sociais, ainda que rodeada de amigos, que
lhe reconheciam os méritos, mas respeitavam seu direito à privacidade.
Pintou enquanto lhe restavam forças. Seus últimos quadros datam
do ano 2000, quando o agravamento de doença - um câncer ósseo nas proximidades do
pulmão - a impediu de continuar as atividades.
Esses últimos trabalhos, Ione sequer chegou a expor. A última
exposição de que participou deu-se em 1996, no Paço Imperial, no Rio de Janeiro.
Ao fim de uma longa luta contra o mal que a vitimou, por fim
encontrou a liberdade absoluta que sempre procurara. Em 25 de janeiro de 2001, Ione
Saldanha deixou o mundo dos mortais, encontrando o último repouso no Cemitério São
João Batista, no Botafogo, zona Sul do Rio de Janeiro.
Não deixou descendentes. Também não deixou discípulos. A
perpetuação de sua memória está garantida pela obra que realizou, inédita no mundo.
Alguém até poderá seguir-lhe os passos, mas só a ela pertence a criatividade e a
coragem de formular novas e personalíssimas formas para expressar sua arte.
Texto de Paulo
Victorino
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