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Arcângelo Ianelli inaugura
retrospectina na Pinacoteca
do Estado de São Paulo
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FABIO CYPRIANO  
Folha Online         
03.10.2002 - 2h46
 

Veja imagens da exposição  

Insatisfação constante

     Apesar da significativa retrospectiva com cem obras, que será inaugurada no próximo sábado na Pinacoteca, o artista plástico Arcangelo Ianelli se diz insatisfeito com sua obra.

     "O que move o artista é a insatisfação, o dia em que eu ficar plenamente satisfeito com minha obra, não tenho mais razão para pintar", disse, em seu imenso ateliê, que mais parece uma vila italiana, no bairro do Paraíso, em São Paulo.

     A mostra comemora os 80 anos de Ianelli, completados em julho passado, e seus 60 anos de carreira, resumidos em 12 fases, que apontam para todos os sentidos explorados pelo artista em seu trabalho. Essas fases não são estanques e, não raro, se acumulam num mesmo período.

     Na Pinacoteca estão desde suas primeiras obras, realizadas no fim da década de 30, até sua produção mais recente, incluindo uma série de 11 esculturas inéditas.

Estudou com Grande Otelo

     Faltaram só os primeiros desenhos, realizados quando Ianelli era companheiro de classe do ator Grande Otelo, no Liceu Coração de Jesus, no final da década de 20.

     "Eu era um garoto terrível, de andar com o estilingue no bolso. Um dia, vi um estudante desenhar e decidi copiá-lo. Desde então, não parei mais."

     Todas as cem obras da exposição, surpreendentemente, pertencem a Ianelli.

Inflacionou o mercado

     "Eu cheguei a recomprar várias de minhas obras da fase figurativa. O que vendi por cinco acabei pagando 50", afirma. Por isso, a mostra torna-se bastante didática ao retratar o percurso do artista de forma bastante linear e representativa.

     No início, estão os desenhos a carvão, realizados a partir de modelos vivos explorados em grupos de artistas, situação típica nos anos 30 e 40.

     "Na época, não havia mercado de arte, pintávamos sem pensar em vender, todos tinham uma outra ocupação, o Volpi era decorador, o Bonadei, costureiro, e eu tinha um escritório de representação", conta Ianelli.

Grupo Guanabara

     A fase seguinte representa a saída do ateliê, com pinturas de paisagens paulistanas, feitas ainda em grupo, desta vez o Guanabara, do qual faziam parte principalmente artistas japoneses, como Manabu Mabe e Takaoka.

     Nesse momento, de acordo com Tadeu Chiarelli, em texto a ser publicado no próximo ano, "percebe-se o artista oscilando entre duas estratégias de representação: na primeira, a cor, ou a mancha de cor, parece estabelecer as coordenadas, na segunda, a linha explicita os contornos, define as cenas". Tais características marcam toda a carreira de Ianelli.

     "Em grupo, era mais fácil ver os defeitos dos outros e, por isso, sempre discutíamos para aprimorar nosso trabalho. Quando ir ao campo deixou de ter sentido, entrei na fase geométrica", diz.

Geometrismo

     Nessa fase, de 1974 a 1989, já estão presentes os quadrados e os retângulos monocromáticos que, mais tarde, ao serem simplificados, tornaram-se a marca registrada de Ianelli.

     "Nesse período, por causa de uma intoxicação com tinta a óleo, passei a usar a têmpera a ovo, que me ensinou técnicas de transparência e uniformidade, que uso desde então."

     A fase recente teve início no começo dos anos 80. Dela fazem parte as manchas de cores que vibram graças à técnica desenvolvida pelo artista.

     "Eu não persigo a beleza, se ela ocorre, é involuntária. Busco fazer um trabalho profundo ao depurar a cor."

Meu tipo inesquecível

     Ianelli considera seu padrinho no circuito de artes plásticas o crítico e curador Mário Pedrosa. Foi ele quem convidou um grupo de artistas novatos, entre eles, Tomie Ohtake, Felícia Leirner e Tikashi Fukushima, para uma mostra no Museu de Arte Moderna, na década de 60.

     Na época, quando Pedrosa leu o longo texto que escreveu sobre a obra de Fukushima, recebeu como resposta:

     "Fukushima prefere palavra pouca, mas palavra bonita". Ianelli, com a síntese operada em sua carreira, confirma que menos é mais.

IANELLI - retrospectiva com cem obras do artista plástico
Onde: Pinacoteca do Estado de São Paulo (pça. da Luz, 2, SP, tel. 0/xx/11/ 229-9844)
Quando: abertura sábado, dia 5, às 11h; de ter. a dom., das 10h às 18h. Até 01.02.2002
Quanto: entrada franca
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