Não muito longe
dali, no nº 41 da Rua 11 de Agosto, num quarteirão já demolido também, ficava a Escola
Paulista de Belas Artes, cujo curso livre de desenho ambos freqüentavam à noite. Foi
nesse curso que travaram conhecimento com outros pintores proletários, como Volpi,
Graciano e Manuel Martins, logo se estabelecendo entre todos uma franca camaradagem, que
os levaria a freqüentes reuniões no Palacete para conversarem sobre pintura, praticarem
o desenho ou o modelo vivo.
Foi assim que
nasceu, sem nenhum programa ou teoria, o Grupo do Santa Helena, pouco a pouco engrossado
com a adesão de outros pintores, como Pennachi,
Bonadei, Rulo Rizzotti e Humberto Rosa. Vale a pena
enfatizar que, com exceção de Bonadei, Zanini e Rizzotti, todos eram autodidatas.
Obscuros pintores
oriundos da classe operária, quase todos imigrantes ou filhos de imigrantes, é
sintomático que nenhum dos componentes do Grupo tenha jamais pertencido à SPAM ou ao
CAM. Também não participaram do I Salão de Maio, de 1937: contentavam-se com o Salão
Paulista de Belas Artes, dominado pelos acadêmicos, também seus costumeiros
interlocutores no Café Patriarca, situado ao lado da Igreja de Santo Antônio, ponto
habitual de reunião de artistas.
Vivendo por
conseguinte à margem do público e da crítica, não conhecendo outro estímulo que não
sua férrea vontade de fazer arte, os membros do Grupo do Santa Helena seriam porém
descobertos por Paulo Rossi Osir, que costumava visitá-los, tal
como Vittorio Gobbis, Arnaldo Barbosa, Joaquim Figueira e outros artistas. Foi
praticamente para os revelar que Rossi Osir organizou, em novembro de 1937, a I
Exposição da Família Artística Paulista, da qual participaram todos os integrantes do
Grupo, e ainda Malfatti, Armando Balloni, Arnaldo Barbosa, Artur P. Krug, Hugo Adami,
Joaquim Figueira, Paulo Rossi Osir e Valdemar da Costa (professor do Liceu de Artes e
Ofícios).
Essa exposição
inicial não melhorou a posição dos pintores do Santa Helena junto aos modernistas, que
os desprezavam por acadêmicos, e nem muito menos junto aos acadêmicos, que
os tinham por perigosos futuristas...
Somente a partir
da II Exposição, em 1939, e sobretudo depois da publicação do célebre artigo de
Mário de Andrade Esta Paulista Família (O Estado de São Paulo, 2 de julho de
1939), foi que pintores como Graciano, Volpi, Bonadei ou Rebolo começaram a ocupar o
lugar a que de fato faziam jus no panorama da pintura paulista.
No artigo, Mário
de Andrade punha em destaque a importância que os membros do Grupo concediam à técnica
- importância que atribuía à atuação, no meio artístico de São Paulo, de Segall,
Rossi Osir e Gobbis, os dois últimos, "homens capazes de conversar sobre as
diferenças de pincelada de um Rafael e um Tiziano e sabendo o que é ligar uma cor à sua
vizinha".
Mas essa mesma preocupação pela cozinha da pintura suscitaria aos rapazes do
Grupo do Santa Helena a acusação, desfechada por Geraldo Ferraz, de
"tradicionalistas, defensores do carcamanismo artístico da Paulicéia, a morrer de
amores pelos processos de Giotto e Cimabue".
Na verdade, mais
razão tinha Sergio Milliet, quando em poucas palavras sintetizou a atuação do Grupo
como "uma reação da pintura de matizes e atmosfera contra as correntes mais
avançadas mas menos artesanais".
O Grupo do Santa
Helena não foi uma sociedade, nem constituiu um movimento: os artistas que o
formaram uniram-se, aliás por bem pouco tempo, por circunstâncias fortuitas, e tinham em
comum a origem proletária e o apego à tradição artesanal da pintura.