Grupo Santa Helena
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Pintores de parede por profissão, mas, na raras horas de folga, cheios de veleidades artísticas que extravasavam em pinturas de cavalete, Rebolo Gonzales e Mário Zanini ganhavam já o suficiente, em meados da década de 1930, para manterem alugadas as salas 231 e 233 do decadente (e hoje demolido) Palacete Santa Helena, situado na Praça da Sé, nº 43, em São Paulo, onde mantinham escritórios que serviam ao mesmo tempo de depósito e de ateliê.

     Não muito longe dali, no nº 41 da Rua 11 de Agosto, num quarteirão já demolido também, ficava a Escola Paulista de Belas Artes, cujo curso livre de desenho ambos freqüentavam à noite. Foi nesse curso que travaram conhecimento com outros pintores proletários, como Volpi, Graciano e Manuel Martins, logo se estabelecendo entre todos uma franca camaradagem, que os levaria a freqüentes reuniões no Palacete para conversarem sobre pintura, praticarem o desenho ou o modelo vivo.

     Foi assim que nasceu, sem nenhum programa ou teoria, o Grupo do Santa Helena, pouco a pouco engrossado com a adesão de outros pintores, como Pennachi, Bonadei, Rulo Rizzotti e Humberto Rosa. Vale a pena enfatizar que, com exceção de Bonadei, Zanini e Rizzotti, todos eram autodidatas.

     Obscuros pintores oriundos da classe operária, quase todos imigrantes ou filhos de imigrantes, é sintomático que nenhum dos componentes do Grupo tenha jamais pertencido à SPAM ou ao CAM. Também não participaram do I Salão de Maio, de 1937: contentavam-se com o Salão Paulista de Belas Artes, dominado pelos acadêmicos, também seus costumeiros interlocutores no Café Patriarca, situado ao lado da Igreja de Santo Antônio, ponto habitual de reunião de artistas.

     Vivendo por conseguinte à margem do público e da crítica, não conhecendo outro estímulo que não sua férrea vontade de fazer arte, os membros do Grupo do Santa Helena seriam porém descobertos por Paulo Rossi Osir, que costumava visitá-los, tal como Vittorio Gobbis, Arnaldo Barbosa, Joaquim Figueira e outros artistas. Foi praticamente para os revelar que Rossi Osir organizou, em novembro de 1937, a I Exposição da Família Artística Paulista, da qual participaram todos os integrantes do Grupo, e ainda Malfatti, Armando Balloni, Arnaldo Barbosa, Artur P. Krug, Hugo Adami, Joaquim Figueira, Paulo Rossi Osir e Valdemar da Costa (professor do Liceu de Artes e Ofícios).

     Essa exposição inicial não melhorou a posição dos pintores do Santa Helena junto aos modernistas, que os desprezavam por acadêmicos, e nem muito menos junto aos acadêmicos, que os tinham por perigosos futuristas...

     Somente a partir da II Exposição, em 1939, e sobretudo depois da publicação do célebre artigo de Mário de Andrade Esta Paulista Família (O Estado de São Paulo, 2 de julho de 1939), foi que pintores como Graciano, Volpi, Bonadei ou Rebolo começaram a ocupar o lugar a que de fato faziam jus no panorama da pintura paulista.

     No artigo, Mário de Andrade punha em destaque a importância que os membros do Grupo concediam à técnica - importância que atribuía à atuação, no meio artístico de São Paulo, de Segall, Rossi Osir e Gobbis, os dois últimos, "homens capazes de conversar sobre as diferenças de pincelada de um Rafael e um Tiziano e sabendo o que é ligar uma cor à sua vizinha".

     Mas essa mesma preocupação pela cozinha da pintura suscitaria aos rapazes do Grupo do Santa Helena a acusação, desfechada por Geraldo Ferraz, de "tradicionalistas, defensores do carcamanismo artístico da Paulicéia, a morrer de amores pelos processos de Giotto e Cimabue".

     Na verdade, mais razão tinha Sergio Milliet, quando em poucas palavras sintetizou a atuação do Grupo como "uma reação da pintura de matizes e atmosfera contra as correntes mais avançadas mas menos artesanais".

     O Grupo do Santa Helena não foi uma sociedade, nem constituiu um movimento: os artistas que o formaram uniram-se, aliás por bem pouco tempo, por circunstâncias fortuitas, e tinham em comum a origem proletária e o apego à tradição artesanal da pintura.

     Os artistas do Santa Helena eram a ala moderada do Modernismo paulista, tal como pela mesma época no Rio de Janeiro os integrantes do Núcleo Bernardelli eram a ala moderada do Modernismo carioca. Seu mérito maior foi ter revelado alguns dos mais importantes pintores brasileiros do Séc. XX, como Alfredo Volpi e Aldo Bonadei por exemplo.

Fonte: CD Rom: 500 Anos da Pintura Brasileira

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