Eckhout não é o mais importante dentre os artistas que vieram
ao Brasil, trazidos pelo Conde Mauricio de Nassau, por ocasião da invasão holandesa ao
nordeste do país.
Com efeito, entre os pintores,
destaca-se, fulgurante, a presença de Franz Post, bem adiante dos demais, seja pela
quantidade de obras produzidas, seja pela qualidade da forma e o colorido. Franz Post é o
repórter fotográfico das coisas brasileiras no Brasil holandês, numa época em que a
imagem fazia as vezes da fotografia, no registro da geografia e da historia.
Albert Eckhout aparece, distante,
num segundo plano. Não se sabe quantas obras produziu no Brasil e é difícil separar o
trabalho próprio daquilo que lhe é simplesmente atribuído, sem comprovação da
autoria. Essa separação é tanto mais difícil pelo fato de que Eckhout, muitas vezes
recriava obras de patrícios seus, criando semelhanças de imagem e de estilo.
Em mesmo nível, mas com
produção menor aparece o aquarelista Zacarias Wagener, igualmente participante da
comitiva de Nassau.
Restrições aparte, é
indispensável o conhecimento da obra de Eckout, por registrar um Brasil distante, cujas
imagens se perderiam no tempo, não fosse a invulgar cultura do Conde holandês (e
príncipe alemão, por nascimento) que, contrariando os interesses da Companhia das
Índias Ocidentais, ousou criar no Brasil um ambiente cultural e artístico jamais
conhecido na colônia portuguesa.
O artigo abaixo, a propósito da
mostra programada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo para janeiro de 2003, faz
comentários em torno da obra do pintor holandês no Brasil. (Paulo Victorino)
Folha Online - 13/01/2003 - 05h26
Mostra das obras de Eckhout
deixa perguntas no ar
FABIO CYPRIANO
da Folha de S.Paulo
Todo manual de redação ensina que no primeiro parágrafo de um texto jornalístico
informativo seis questões (o quê, quem, quando, como, onde e por quê) devem ser
respondidas.
Em se tratando de Albert Eckhout e sua obra sobre o Brasil, apenas uma questão tem
resposta garantida. É certo o porquê das obras: foram pintadas a pedido do conde
Maurício de Nassau durante a ocupação holandesa para retratar o Brasil.
Entretanto, para responder às demais questões, estudos têm sido realizados pelo Museu
Nacional da Dinamarca, dono da coleção de pinturas, e as respostas ainda são
controversas. "Como as telas foram feitas há mais de 350 anos e não temos
testemunhas vivas, é difícil dar uma versão definitiva", brinca Bárbara
Berlowicz, curadora do museu dinamarquês.
A mostra em São Paulo ressalta tais controvérsias. A primeira sala já contém uma
delas, ao considerar três telas, em geral atribuídas a Eckhout, como de autoria de
Jasper Becx. Assim, voltando às questões a serem respondidas, atribuir "quem"
já é difícil e o "o quê", no caso a quantidade de obras, varia entre 21 ou
24.
Definir onde, quando e como as obras foram feitas também é outro problema. Não se sabe
de fato se elas foram pintadas aqui ou na Europa. No catálogo da mostra, a curadora
defende que as telas não foram feitas no Brasil.
"Continuamos com os estudos de laboratórios e creio que em três anos teremos
respostas mais definitivas", afirma Berlowicz.