A influência da Alemanha
Nascido em São
Paulo (SP) e falecido no Rio de Janeiro. Radicando-se com a família no Rio de Janeiro,
aos quatro anos de idade, seguiu para a Alemanha em 1928, demorando-se cerca de dois anos.
Foi nas estufas do Jardim
Botânico de Dahlem, Berlim, que paradoxalmente teve a revelação da opulenta flora
tropical brasileira. Retornando em 1929 ao Rio de Janeiro, matriculou-se na Escola
Nacional de Belas-Artes, que freqüentou por pouco tempo. Conta ele:
«Quanto a Leo Putz, quando
foi contratado por Lúcio Costa para ser professor da Escola de Belas Artes, muitas vezes
servi de intérprete, porque não sabia falar o português. A primeira grande lição que
tive com ele, foi quando fizemos uma viagem a Angra dos Reis. Leo Putz, que pintava de uma
maneira expressionista alemã, da Escola de Munique, diante da minha surpresa ante uma
interpretação do que ele via e do que ele pintava, me disse que a natureza era um
pretexto para se fazer as divagações pictóricas da cor.
Repulsa ao academicismo
Se Leo Putz assim o
entusiasmou, outra é contudo sua opinião sobre o tipo de ensinamento artístico que
recebeu na Escola:
«As lições que tive na
Escola de Belas Artes eram lições acadêmicas, com professores medíocres, a começar
pelo Bracet. Quando cheguei da Europa - fui em 1928 e voltei em 1929 - nos últimos dias
que passei em Berlim fui a uma galeria e vi pela primeira vez um Picasso. Levei um choque!
Vi também Paul Klee, Matisse, Picasso da fase cor-de-rosa e outros. Aquilo foi como um
soco que recebi, e não poderia deixar de guardar; eu queria me desfazer dessas
impressões, mas era aquilo que me chamava a atenção.
«Quando me matriculei para
as aulas de pintura na Escola de Belas Artes, Bracet depois me expulsou de aula, porque eu
falava de Gauguin e ele dizia que eu estava pervertendo os alunos. Ele dava receita de
como se deve pintar: pele branca, carmim, ocre, como se com isso se resolvesse o problema
colorístico.»
Vocação manifesta para
o paisagismo
Quando, com a exoneração
de Lúcio Costa da direção da Escola, Leo Putz e os demais professores de orientação
moderna se retiraram do corpo docente, Burle-Marx abandonou o curso e se inscreveu na aula
particular do escultor Celso Antônio, com quem aliás não experimentou progressos
Ao contrário, muito
aprendeu com o botânico Melo Barreto, orientando-se desde então cada vez mais para o
paisagismo. Em 1933 criou seu primeiro jardim, para uma casa projetada por Lúcio Costa;
no ano seguinte seria nomeado diretor de Parques e Jardins de Recife, desenhando para a
capital pernambucana uma série de praças e jardins públicos e nela criando, em 1937, o
primeiro parque ecológico nacional.
Por volta de 1935,
tornou-se aluno de Portinari na Universidade do Distrito Federal, sofrendo, como tantos
jovens pintores da época, a influência do mestre, que a recente consagração nos
Estados Unidos da América, transformara numa espécie de artista oficial do Brasil.
Jardins por toda parte
Alternando sempre, a
partir de então, suas atividades entre a pintura e o paisagismo, participou, logo em
seguida, da equipe incumbida da edificação do Ministério da Educação, para o qual
desenhou os jardins. Faria nos próximos 50 anos numerosíssimos projetos paisagísticos
para a Pampulha em Belo Horizonte (1940)
Largo do Machado no Rio de Janeiro (1945)
Parque Ibirapuera em São Paulo (1954)
Museu de Arte Moderna e a Praia de Botafogo no Rio
de Janeiro (1955)
Eixo monumental de Brasília (1958)
Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro (1959)
Centro Cívico de Curitiba (1966) etc., além de
numerosos projetos para o Exterior.
Pintor nas horas vagas
Por outro lado, nunca
deixou de encarar a pintura como atividade paralela mas não necessariamente subjugada
pela de paisagista, em que mais se consagrou, inclusive internacionalmente.
Como pintor, como
desenhista, como litógrafo e como designer têxtil ou de jóias, com efeito, tem
mostrado seus trabalhos em numerosíssimas ocasiões, desde 1941, quando exibiu pinturas
no Palace Hotel do Rio de Janeiro.
«Citem-se, entre as
principais exposições de suas obras: a de 1954, Arquitetura Paisagística no Brasil:
Roberto Burle-Marx, organizada em várias cidades norte-americanas pela União
Pan-americana; a de 1956, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; a de 1963, no
Commercial Museum de Filadélfia, Estados Unidos da América; a sala especial na XXXV
Bienal de Veneza, em 1970; a retrospectiva 43 Anos de Pintura, em 1972, no Museu de Arte
de Belo Horizonte; as grandes mostras de 1973 na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, e no
Museu Galliera, em Paris; as exposições de 1974 no Museu de Arte Moderna de São Paulo,
no Museu de Arte Contemporânea de Curitiba e no Teatro Castro Alves de Salvador; a do
Museu de Caracas, em 1977, a do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1978,
a do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, em 1979, e a do MAC-USP, em 1997,
entre tantas outras.
A vivência da natureza tropical
Originalmente calcada em
raízes e treinamento europeus, a pintura de Burle-Marx viu-se enriquecida logo em seguida
por fortes ingredientes telúricos, em razão do profundo interesse que o artista
demonstrou desde a mocidade pela riquíssima flora brasileira, que converteu em leit-motiv
de toda a sua produção.
A natureza tropical, com
efeito, é quem dá seiva e alento à arte de Burle-Marx, servindo-lhe, mais que de tema,
de inspiração e pretexto para profundas pesquisas formais e de expressão.
Mário Barata bem
compreendeu essa síntese admirável, ao escrever recentemente:
«Na arte de Roberto dos
anos recentes a forma europeizada e a vivência tropical estão conjugadas em uma
adequação de boa forma e integração perfeita de técnica e visão. O artista
reelaborou o vegetal no plano do pictórico e do desenho, com qualidade, em nível em que
o pessoal se funde ao conhecimento. (...)
«Sua arte atual - na
pintura, desenho e litografia - tem, pois, a contribuição da sua particular
experiência, de sua percuciente visão caldeada pelos núcleos e formas de articulação
vegetal, permanentemente observados por ele. Sentiu-os de perto, quase milimetricamente,
através do que eu chamo a penetração burleana da natureza: o esplendor do interior da
matéria (apud Joaquim Cardoso) e do entrelaçado das estruturas exteriorizadas do
vegetal.
Fonte: CD Rom
«500 anos de Pintura Brasileira»
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